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Antes do texto, uma confissão: sou mais um daqueles que conhecem à distância a grandiosidade de um autor que nunca leu. Mas não digo isso por pura expiação de culpa que alguém venha me imputar. Berserk, a obra-prima da vida do recém falecido Kentaro Miura, é um trabalho incontornável para quem está nesse mundinho da cultura pop japonesa. Logo, oportunidade não faltou. Curiosidade também não faltou. Faltou a falta de amor próprio.

Explico. Mesmo distante, era claro e cristalino o fato de que Berserk era uma obra forte. E digo forte também no sentido de que ele bate e te mói por dentro, ainda que digam que há um respaldo redentor em todo o sofrimento que perpassa a vida de Guts. Mas há uma certa dose de sabedoria em saber respeitar os próprios limites, e um agregado de painéis e páginas sortidas aqui e ali piscavam o alerta: “Mantenha distância, é melhor não”.

Covardia ou prudência, chame do que quiser, a verdade é que Kentaro Miura foi de um talento radiante tanto para os de dentro como para os de fora. Durante anos a fio passamos por pessoas que diziam terem sido transformadas com a leitura de Berserk, mesmo longe de um final. Alguns de nós testemunhamos pessoas delirando, eufóricas com as histórias ali contadas. E tal qual gigantes como Akira Toriyama, Hirohiko Araki e Yoshihiro Togashi, uma obra não sobrevive por 32 anos de graça.

Escrevo esse obituário não só pelo sentimento compartilhado de luto por uma comunidade que perdeu um de seus mais ilustres pilares, mas principalmente por tão impressionante que foi o alcance para fora do mundo otaku. A começar pela notícia de seu falecimento, que saiu em canais de notícias mainstream, como no G1, CNN e IstoÉ. De repente se percebia que estávamos diante de um autor que superou as barreiras de um nicho e que conseguiu ter sua obra amplamente reconhecida. Kentaro Miura alçou mais uma pedra no caminho do reconhecimento de um mangá como uma mídia legítima e dotada de um enorme potencial de significados maiores.

Pois não tratem como algo dado: o caminho ainda é longo. Continua surpreendente o tanto que se tratam mídias japonesas como meras infantilidades. Como se quem escrevesse aquilo não fosse dotado do mesmo dom de criatividade e imaginação como todo o resto da humanidade.

E para uma última nota de admiração, dou vivas à vida de Kentaro Miura por ter envelhecido a Semana Que Nunca Acabou. Como é o caso de muitas figuras que entram para a história, suas ações repercutem em níveis que fogem ao controle delas próprias. A arte de Kentaro Miura foi motivo de algo que não acontecia a umas boas décadas no nosso país: uma genuína polêmica envolvendo as artes. Não que o mau gosto não tenha sido mais alvo de objeções, mas entre RT’s e discussões acaloradas, pela primeira vez em décadas a Semana de Arte Moderna de 1922, foi posta à uma preferência outra que não ela própria, como tem sido a norma da arte brasileira em quase um século de modernismo (99 anos, para ser mais exato).

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É lógico que isso não quer dizer que Kentaro Miura revolucionou nossas artes, até porque nossos artistas marcados e influenciados pelo seu trabalho estão longe dos nossos cânones, de nossas Tarsilas, Abaporus e gotas humanas outras. Mas esses artistas existem. A rebeldia ao estabelecido até foi silenciada, mas ela existiu. A fagulha, uma vez acessa, não deixou de iluminar um novo horizonte; que preferiu a forma e a beleza de quem dedicou décadas de sua vida a aprimorar algo grandioso. Que preferiu, em oposição aos amorfismos e à afronta pela mera afronta, o belo inescapável aos olhos de quem vê, de quem não precisa de linhas e mais linhas de contexto, mas que percebe quando está à frente de algo maior.

Posso ter enaltecido um episódio aparentemente banal, mas em tempos onde a arte está ausente das conversas do dia a dia e onde tudo é permitido em arte, menos discutir sobre arte, sou eternamente grato a Kentaro Miura por seu trabalho ter nos dado um leve instante de consciência durante nosso longo sono letárgico que já dura um século.

Kentaro Miura morreu no início do mês. Não sei quantos sabem, mas a realidade da morte é algo que pesa bastante no Japão, tanto que a maior ofensa proferível a alguém, é manda-lo à morte. “Shine!” para o japonês tem o mesmo peso de alguém ofender a mãe aqui. E para o caso de Miura, a situação não poderia ter sido mais penosa. Uma morte precoce, aos 54 anos de vida, ainda no auge de seu trabalho. A causa, rompimento da aorta, sintoma comum da hipertensão, que não garante uma morte das mais tranquilas.

É também diante da dura realidade da morte e desse sopro efêmero que chamamos de vida que escrevo este obituário. Algumas vidas passam como o orvalho pela manhã. Outras passam como um trovão, tal qual foi a vida de Kentaro Miura, que deixou para o mundo um legado que em muito o superará. Tornou-se um imortal.

Aos admiradores do eminente sensei, os mais sinceros pêsames deste estrangeiro. Um dia a vida há de me dar coragem. Um dia me juntarei a vocês.

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