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Shiboyugi: o anime que prova que direção criativa vale mais que ação e sakuga

Esta é a história sobre um mundo ensandecido”.

São essas palavras que abrem os episódios de Shiboyugi. A ideia da obra não é nova, um misto de battle-royale com suspense que lembraria talvez um Mirai Nikki ou Danganronpa, pra citar dois exemplos mais marcantes. Quem é mais de assistir séries achará paralelos bem nítidos com Round 6, ainda mais com a questão de participar de uma série de jogos mortais pra conseguir escapar da penúria. Porém já deixo o disclairmer de que o autor destas linhas é um zero à esquerda quando o assunto são séries, então cesso minhas comparações de imediato.

De fato, história é a menor das preocupações da adaptação para anime da novel de Shiboyugi, ou “Jogar Mortais para Colocar Comida na Mesa”. Sua sinopse não ajudou a deixar o anime mais previsível. Mas, cracudo de maid que só, o poster estonteante de lindo ligou meu alerta. Um vem e vai daqui e um vem e vai de lá não sabia se assistia pelos visuais ou deixava a preguiça de arriscar topar com mais um anime edgy falar mais alto. Ui ui, sangue, olha como esse anime é de adulto…

Então veio a estreia de Shibouyugi e as pessoas piraram na internet. Fui ver o que aconteceu pra ter causado toda aquela comoção online.

E pirei junto.

UM ANIME FORA DO CONVENCIONAL

Por que? Porque Shiboyugi foi tudo menos convencional. O anime mostrou que tão importante quanto que história você quer contar é o como você vai contar. E a direção de Souta Ueno, que rendeu elogios pela abordagem original em Gimai Seikatsu, atingiu níveis de criatividade em Shiboyugi que me confrontou com uma triste realidade: os animes são mais previsíveis em suas fórmulas do que gostaríamos de admitir, dando alguma razão a Hiroki Azuma no seu famoso livro Otaku: Japan’s Database Animals. Com nossos gêneros, arquétipos, clichês, todos bem documentados e encabeçado em fanbases, formam uma cultura otaku que se autoreferencia numa intensa autofagia que tem a desvantagem de ser bem menos inovadora quando sobreposta à cultura cinematográfica (e aqui uso num sentido de cinéfilo mesmo).

Souta Ueno definitivamente tem o mesmo ardor pelo cinema de um Hideo Kojima da vida; de quem já viu de tudo um muito e expandiu pra muito além de Hollywood e Cannes. E essa paixão é aplicada em suas direções em animes (vá saber como!), formando uma experiência audiovisual completamente fora da curva. O que se espera de um anime, ainda mais nestes anos, é ação a rodo, aura a rodo e muito material para edit de TikTok poder divulgar o trabalho da produção internet afora.

Shiboyugi
Imagem Divulgação / Kadokawa

ASSISTIR É CONTEMPLAR, PERO NO MUCHO

Shiboyugi não tem nada disso. Na verdade, o seu extremo oposto. Porque enquanto Frieren volta e meia é elogiado por trazer de volta o elemento contemplativo à experiência de assistir animes em tempos de lapsos constantes de atenção, Shiboyugi cai naquele meme do cinéfilo e sua predição pelo cinema iraniano em preto e branco. Fotografias panorâmicas que não se importam em detalhar as personagens, longuíssimos momentos estáticos que te obrigam a se colocar no ritmo do anime (principalmente no quinto episódio!), a dinâmica desse anime realmente não é pra qualquer um. Ele tem lá suas cenas de ação, mas no todo é vagaroso, o que rende algumas reclamações de espectadores mais ansiosos. E o pior de tudo é que não dá pra reclamar de quem não gosta, pois como eu disse, não é pra qualquer um. Escrevo isso com uma risada no rosto, lembrando o comentário de um amigo que “esqueceu que meu anime favorito é Mushishi”.

Sim, a experiência contemplativa soma pontos pessoais à experiência. Mas não é porque este colunista gosta de viajar vendo anime. Souta Ueno constrói suas cenas no passo certo para criar a tensão das situações vividas pela Yuki e as demais jogadoras dos jogos mortais. E não somente! Shiboyugi é os jogos vividos, morridos e sobrevividos pelas personagens, bem como o peso dos traumas e remorsos pós-jogo.

A ESTRUTURA DO ANIME

Com um primeiro episódio de quase cinquenta minutos digno de aplausos pois absolute cinema, o anime de Shiboyugi se presta a apresentar, na medida do possível, o universo da light novel em formato audiovisual. Se adaptar um mangá já vem com seus percalços, adaptar uma light novel eleva essas dificuldades à décima potência. Pra listar aqui algumas delas, quase sempre um anime vai adaptar uma obra inacabada e quem viu Gintama sabe como isso é arriscado. Outro problema está no público, que quase sempre entende patavinas sobre a diferença entre mídias e esperará a mesmíssima estrutura narrativa de um texto transplantado vis-a-vis à estrutura narrativa audiovisual. No todo, vira uma dor de cabeça generalizada. Vira bagunça, vira discussão online… nessas horas é melhor desligar o celular e esperar o hate em Fate Strange Fake passar.

Minto, Shiboyugi. É sobre Jogos Mortais Moe que falávamos. Pois bem. Após o primeiro jogo, o resto do anime apresenta o restante dos jogos em partes, o que é inevitável quando se está preso a um formato de vinte minutos. Há mais um jogo para introduzir uma rival à Yuki, um quinto episódio primoroso demonstrando um acesso de culpa do sobrevivente numa personagem cujo objetivo final é completar noventa e nove jogos. Quando ela finalmente consegue completar seu trigésimo jogo, Shiboyugi finaliza com um flashback; um dos primeiros jogos de Yuki, particularmente traumático e que apresenta as razões da protagonista.

Shiboyugi
Imagem Divulgação / Kadokawa

SURPRESAS POSITIVAS

Por que um jogo macabro num mundo doentio poderia ir além e virar um trauma, como é o caso desse último jogo? A imagética de Shiboyugi pode ajugar a explicar. Numa palavra, as personagens (vítimas?) do jogo não sangram. No lugar de sangue, há pelúcia; como se essas meninas fossem bonecas em meio a um jogo sádico. Aqui admito que esse elemento me atraiu ainda mais à obra. Carioca sou e de sangue meu dia a dia é cheio. Qualquer portal de notícias de rede social daqui terá todo o tipo de sangue e gore e piadas sádicas a um click na palma da mão. (hihi, morreu de covid kkkkk)

Se algum dia gostei de gore, esse dia não durou mais que doze horas. Por isso acho uma tremenda injustiça viver num mundo onde Blood C seja mais lembrado que Blood+, sendo que o primeiro marcou por causa de uma sanguinolência sem rima nem razão, enquanto no segundo havia Saya, Diva e Hagi. É a vida, pão e circo. Por isso bocejei com a proposta de Shiboyugi no começo. Um desperdício de beleza destinada à morte, o que, parando pra pensar, é o destino de toda a beleza, já diriam os budistas.

A quebra de expectativa em ver pelúcia ao invés de sangue, uma mecânica existente de fato na light-novel que garante a cura de qualquer ferida não letal (como a reposição de braços ou de pernas), dá um alívio inicial que permite a este espectador em particular, imerso num mundo violento e sanguinolento, a se permitir algum grau de alienação. Não dá pra ser cítrico o tempo todo.

Porém porém!!! Alguns episódios depois na psique de Yuki e as pelúcias passam a ter outro sentido: a visão de alguém que se acostumou a matar, se acostumou a deixar quem fosse preciso morrer e se acostumou a fazer da morte seu ganha pão. Isso não é feito sem um mínimo de dessensibilização, o que nossa protagonista “fantasma” definitivamente o é. O que não significa que Yuki seja uma assassina, mas uma sobrevivente. A diferença é fundamental nos últimos episódios. A sobrevivente mata porque é preciso para viver o dia seguinte; a assassina ganha gosto pela coisa. E não há pelúcia que consiga disfarçar a selvageria servida pela principal antagonista desta primeira temporada.

CONCLUSÕES

Adverti de primeira e segunda e advertirei de terceira: Shiboyugi não é pra todo mundo. Não foi feito para os impacientes. No mínimo do mínimo eu peço para que todos assistam o primeiro episódio, uma gema em si mesma. O restante do anime não diminui de qualidade; só requer a atenção e imersão nas medidas certas para apreciar com justiça este trabalho de animação completamente original.

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SINOPSE

Jogos Mortais para Colocar Comida na Mesa (ou Shibou Yuugi de Meshi wo Kuu) acompanha Yuki, uma garota de 17 anos que sobrevive ganhando a vida em jogos mortais. Ela acorda em uma mansão com mais cinco garotas, presas em um labirinto de armadilhas, serras elétricas e desafios, precisando vencer para garantir o sustento.
Eriki
Eriki
Olá, sou o Eriki, redator do Suco de Mangá desde 2018, ex apresentador do Gole Otaku, programa semanal do Suco de Mangá sobre as estreias de animes da temporada, formado em História pela UFRJ e guitarrista da Matina Cafe, banda que se inspira no som do visual kei.

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