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20 anos de Onani Master Kurosawa | Uma entrevista do autor com seu público

No último dia 10 de março, Ise Katsura fez um post no twitter comemorando o vigésimo ano de Onani Master Kurosawa na revista Shinchosha. A notícia veio como uma surpresa pessoal, pois à época em que este colunista leu, a leitura o absorveu tanto que ele simplesmente esqueceu de notar algo tão trivial. Por ver tantos amigos comentando, podia-se jurar que era um mangá recente.

Mas não, essa história já está há mais anos do que se pensa, tanto na vista de leitores quanto nas páginas deste mesmo site, que publicou sobre o mangá ainda nos primeiros anos! Como muito já foi escrito sobre o mangá, tanto aqui no Suco como em outros sites e vídeos, a intenção deste artigo não é me repetir. Até porque verdade seja dita, Master Kurosawa foi o tipo de leitura que me deixou incapaz de reação consciente. É o tipo de história que te leva à empatia, no seu mais literal sentido. Se você já sofreu alguma rejeição ou, pior, sofreu o peso da própria consciência depois de agir de modo deplorável, a história da queda e redenção de Kurosawa é do tipo que te faz caminhar de mãos dadas com aquele sofrimento e, no final, ambos saem da experiência almejando ser a versão menos pior do que um dia foi.

Logo, como as linhas acima estão longe de serem originais, desejamos hoje tão somente trazer uma tradução da entrevista de Ise Katsura, realizada pelo Psycho Lad, a quem sou muito grato pela permissão desta tradução.

Então sem mais delongas, às palavras de Katsura-sensei:


PsychoLad: Com o vigésimo aniversário de Onani Master Kurosawa, você criou a história quando tinha 21 anos (que é minha idade agora! haha), você pode me contar como era sua vida naquele momento?

Katsura: Para ser mais preciso, eu tinha 20 anos quando escrevi essa história. Eu era um universitário na época, e universitários japoneses geralmente tem bastante tempo livre. Eu procurava um jeito de sair do tédio. Então, pela primeira vez na vida, eu decidi escrever.

PsychoLad: Como foi o processo de criar o mangá? Da premissa conceitual à criação da trama e dos personagens. Como você acabou colaborando com Yoko Takuma? Se possível, nos diga sobre a relação entre você e ele.

Katsura: Como eu escrevi a história inteiramente por conta própria, foi algo completamente improvisado e sem planejamento. Me levou cerca de seis meses para acabar. Não concluí a ideia geral da trama até escrever cerca de um terço da história.

Naquela época, Takuma Yokota era um leitor da novel. Quando descobri, decidi pedir que ele a adaptasse para mangá. E daí continuamos bons amigos até hoje. Nós trabalhamos numa colaboração até o ano passado e foi uma experiência realmente inspiradora. Até hoje, eu jogo Magic: The Gathering contra ele de vez em quando.

PsychoLad: Eu li algumas opiniões de críticos que detestaram o mangá onde eles afirmam que o mangá glorifica o assédio sexual ao focar mais no assediador do que na vítima. O que você acha disso?

Katsura: Eu não vejo assim. Se você ler bem o mangá, acredito que você entenderá que eu não estou fazendo apologia ao assédio sexual. Por outro lado, é verdade que a obra é contada do ponto de vista do assediador. A escolha de perspectiva é uma decisão importante do autor. Isso não significa que eu não dê a mínima para normas sociais. É simplesmente uma abordagem de enredo.

PsychoLad: Houve algum plano para que o mangá fosse adaptado para anime? E se ele fosse, qual estúdio você adoraria que o trabalhasse?

Katsura: Takuma Yokota mencionou ter recebido uma oferta dessas há um tempo atrás. Em todos os sentidos, eu não acho que esta obra sirva para uma versão em anime. Porém, eu não teria a menor intenção de recusar um estúdio disposto a topar o desafio, seja o estúdio que for.

PsychoLad: Veremos histórias futuras com Kakeru Kurosawa? Talvez um spin-off focado em outros personagens, ou com o Kurosawa já adulto?

Katsura: A esta altura, eu diria que não. Enquanto eu fico muito feliz que tantas pessoas amem essa obra, estou bem mais interessado em criar algo inteiramente novo. Eu cheguei a colaborar com Takuma Yokota para publicar alguns yonkoma (quadrinhos em quatro painéis) baseados no mangá. Se for nesse formato, talvez eu escreva algo baseado assim outra vez.

PsychoLad: Houve alguma história de amadurecimento em específico que te inspirou? E o que te levou a escolher a masturbação como tema central ou metáfora para isolamento social?

Katsura: Tem uma novel chamada “Gummy Chocolate Pine”, do Kenji Ohtsuki, um escritor e músico japonês. Eu li a novel quando estava no ensino médio e ela me impactou profundamente. Essa história traz alguns temas que abordo no meu próprio trabalho e serve como um excelente exemplo de ficção jovem de alta qualidade. Outro motivo que me fez trazer a masturbação como tema é que eu senti que isso daria luz à uma história única. Assim como foi o caso com “Destroy All Humans. They Can’t Be Regenerated. A Magic: The Gathering Manga” (Destrua Todos os Humanos: Eles Não Podem Regenear. Um Mangá de Magic The Gathering, em tradução literal), meu segundo trabalho em colaboração com Takuma Yokota, temas inusitados me atraem.

PsychoLad: O que você acha que conseguiu atingir com sua história? Você acha que algo nela deveria mudar, com a sensibilidade que você tem hoje em dia?

Katsura: Pra ser sincero, eu não lembro bem de como me senti quando terminei de escrever essa obra. Se eu tivesse que reescrever algo baseado nos valores que tenho hoje em dia, boa parte dessas mudanças seriam textuais. A progressão da história não é perfeita, mas mudá-la seria como mudar o arranjo de uma melodia musical – o que prefiro não fazer.

PsychoLad: Qual foi a inspiração para o corte de cabelo do Nagaoka? Queria saber se foi inspirado em alguém ou foi uma decisão aleatória.

Katsura: Um dos meus personagens, Keishi Nagaoka, tem cabelo encaracolado natural – um visual inspirado pela imagem de um garoto que não arrumou seu cabelo há um tempinho. Na adaptação para mangá, Takuma Yokota enfatizou essa descrição. Acho que desenhar assim ficou mais fácil, haha.

PsychoLad: De onde você se inspirou para o enredo? Como que o protagonista se masturba no banheiro da escola e se orgulha tanto disso? Nunca ouvi falar de alguém assim.

Katsura: Se realmente existir um garoto como Kakeru Kurosawa por aí, eu espero que ele leia minha obra e se dê conta dos seus erros – haha. Na época em que escrevi a história, “Death Note” era um hit no Japão*. O protagonista, Light Yagami, é um heroi maligno genial e carismático. Me convenci de que se eu desse a um personagem desses alguns traços que as pessoas julgassem cômico e ridículo, esse personagem se tornaria fascinante, sem a menor sombra de dúvida. E foi assim que Kakeru Kurosawa nasceu.

*Não à toa o mangá foi carinhosamente apelidado de Fap Note (Nota do Tradutor)

PsychoLad: Por que é que apesar de todo o desenvolvimento do Kurosawa para acabar com seu mau hábito, ele ainda o pratica depois do timeskip com revistas pornô? Lógico, bem melhor do que o que ele fazia antes, quando era indiferente a tudo, mas o ponto central da obra não é justamente sobre parar com a masturbação?

Katsura: Sentir atração pelo sexo oposto é algo perfeitamente natural entre adolescentes. Acho que suprimir esses sentimentos não teria sido algo realista. A parte mais importante dessa história é que o protagonista, Kakeru Kurosawa, encontra valor no mundo real – ainda que seja um mundo mais duro que o mundo de sua imaginação.

PsychoLad: O que você acha da masculinidade moderna, sobre os homens que são celibatários involuntários (‘incel’, como se diz) e redpill (uma terminologia que descreve homens solitários que se comportam de maneira misógina e vil contra as mulheres graças ao seu isolamento, que se aproxima com o que Kurosawa fez no Manga)

Katsura: Na época em que escrevi o enredo original do mangá, incels não eram um assunto no Japão. Kakeru Kurosawa, o protagonista dessa história, também tem interesses normais em garotas da sua idade. Acho que ser um incel não te traz vantagens. Afinal, misoginia não traz coisas boas para a vida de ninguém.*

*Tentou, nosso amigo PsychoLad tentou (Nota do Tradutor)

PsychoLad: Quais são seus álbuns musicais favoritos?

Katsura: Puxa, essa talvez seja a questão mais difícil até agora. Quando eu era estudante, eu ouvia muito New Order e algumas de suas músicas como “Blue Monday” e “Bizarre Love Triangle” viraram subtítulos para esse mangá. Ultimamente eu tenho escutado “Stop Making Sense”, do Talking Heads e o álbum “Last Dance”, do David Bowie. Acho que eu realmente gosto muito de música dos anos 80.

PsychoLad: Quem é o seu mangaka favorito e por que?

Katsura: Outra questão difícil! Não consigo escolher uma pessoa só. Samura Hiroaki (Blade: A Lamina do Imortal), Igarashi Daisuke (Kaijuu no Kodomo), Enomoto Nariko e Kumakura Yuuichi são todos artistas que eu admiro imensamente.

PsychoLad: Tem algum fato curioso sobre Onani Master Kurosawa que as pessoas talvez desconheçam?

Katsura: O protagonista do primeiro mangá publicado de Takuma Yokota é um colega de sala de Kakeru Kurosawa. Em termos atuais, é um “universo compartilhado”. No que diz respeito exclusivamente a este trabalho, eu acho que sua versão em maior qualidade é a edição da novel em brochura. Ela inclui várias das fantasias sexuais de Kakeru Kurosawa que não foram retratadas no mangá. Eu gosto muito dessas descrições.

PsychoLad: Qual é a sua reação em ter uma fanbase estrangeira, ainda mais considerando que os edits de Onani Master Kurosawa chegam a mais de 100.000 likes no TikTok.

Katsura: Não fazia ideia de que nosso trabalho viralizou no TikTok! Fico muito feliz que a obra seja amada no exterior. Afinal, ela não foi publicada numa revista prestigiada como a Shonen Jump. Me enche de orgulho saber que tantas pessoas estão lendo.

PsychoLad: Algumas palavras finais para os leitores e fãs lendo esta entrevista agora?

Katsura: Aos nossos fãs estrangeiros, muito obrigado por gostarem do nosso trabalho. Eu e Takuma Yokota estamos atualmente publicando “Destroy All Humans. They Can’t Be Regenerated. A Magic: The Gathering Manga. É um mangá completamente diferente de Onani Master Kurosawa, mas se você se interessar, por favor leia. Além disso, estou trabalhando no enredo de um novo mangá. Está planejado para ser uma comédia romântica. Não tenho certeza de quando será anunciado, mas ficaria contente que vocês acompanhassem nossas atividades de vez em quando.

AGRADECIMENTOS FINAIS

Gostaria, mais uma vez, de agradecer ao PsychoLad, tanto pela rica entrevista realizada quanto pela sua permissão por esta tradução!

Eriki
Eriki
Olá, sou o Eriki, redator do Suco de Mangá desde 2018, ex apresentador do Gole Otaku, programa semanal do Suco de Mangá sobre as estreias de animes da temporada, formado em História pela UFRJ e guitarrista da Matina Cafe, banda que se inspira no som do visual kei.

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