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CCBB Rio recebe Além da Fantasia, a exposição de Yoshitaka Amano que vai muito além do Final Fantasy

Dois anos depois de sua estreia no Brasil em São Paulo, a exposição “Além da Fantasia”, que contempla as obras do lendário artista de Final Fantasy, Yoshitaka Amano, chegou pela primeira vez no Rio de Janeiro neste último dia 22 de março. Enquanto a exposição não era inaugurada por aqui, já era possível ver esse gigante das artes visuais dando sorte para o Flamengo no Maracanã, de cerveja na mão.

O site do CCBB dispõe de bons detalhes sobre os conteúdos exibidos na exposição. Mas aqui insisto em fazer alguns comentários, até de cunho pessoal mesmo. Um relato de um fã, que não foi somente visitar uma exposição, mas ver um retrato de tempos idos da própria vida. Como tenho certeza de que esse sentimento não é exclusivo, pois são tantas e tantos que se emocionaram com Final Fantasy ao longo de suas vidas, estendo a esta cobertura as impressões desta tímida visitação.

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Além da Fantasia – Yoshitaka Amano | Foto por Erick / @sucodm

A exposição ocorrerá até o dia 22 de junho. São dois meses, tempo suficiente para o povo carioca e fluminense se programar, então desde já a recomendação é una e inequívoca: vão! Não deixem de ir. Não há fotografia capaz de transmitir aos olhos a percepção visual dos traços de Yoshitaka Amano para além de seus desenhos: impressões e litografias carregam outra dimensão do estilo do mestre quando incorporadas em outros materiais e suportes.

Apesar da fachada bem chamativa, a entrada do CCBB permanecia como de costume, salvo por um par de pinturas expostas mais à frente, não de Yoshitaka Amano, mas de seu filho, Yumihiko Amano. O visitante sabia disso? Não. Deu sorte, pois as pinceladas de tinta em muito semelhantes ao estilo fugaz do pai e a ignorância do fato de que o próprio Yoshitaka teve filhos jamais o levaria a imaginar que a pintura fosse de outra pessoa. Soube por fora, aprendeu com o erro alheio antes que errasse também.

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Além da Fantasia – Yoshitaka Amano | Foto por Erick / @sucodm

Acessando o segundo andar, somos prontamente direcionados pela equipe local a retirar os ingressos, seja no celular, seja no guichê que imprime sem demora um ingresso mediante cadastro. A entrada é livre, mas ainda assim a organização do evento demanda. Um corredor estreito apresenta alguns dados biográficos de Yoshitaka Amano; sua residência, onde estudou, origens familiares, etc. Com uns três quadros introdutórios ao escopo de estilos do artista, chegamos à primeira parte da exposição.

Uma sala maior, com música de fundo inspirada nas composições de Nobuo Uematsu, apresenta Yoshitaka Amano por aquilo que ele é mais conhecido pelo grande público: Final Fantasy. É um percurso em zigue-zague de três corredores, indo dos títulos mais antigos (Final Fantasy V, VI), passando pelos clássicos (Final Fantasy VII, VIII e IX), aos mais modernos (Final Fantasy XI, XII, XIII, XIV, XV e XVI). A movimentação intensa por esses corredores, dependendo da hora e do dia em que se visite, talvez torne a imersão um pouco difícil, mas o maior destaque dessa sala, sem sombre de dúvida, vai para o seu início. Não sem antes mencionar a maravilhosa ilustração dividida em quatro partes de Final Fantasy XI em estilo yamato-e, com as nuvens japonesas lembrando e muito as artes dos biombos (byoubu)!

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Além da Fantasia – Yoshitaka Amano | Foto por Erick / @sucodm

Logo à entrada da primeira sala, nossa visão é levada a uma larga impressão comemorativa dos 35 anos de Final Fantasy, com uma belíssima seleção de personagens e monstros consagrados da franquia! Seja nos rostos de Yuna, Cloud, Cecil, ou monstros como Bomb e Gilgamesh, passando por summons clássicos da franquia como Ramuh e Sheeva, a impressão opera como uma máquina do tempo para os fãs que cresceram com a série de jogos. Um momento bastante emocionante, mas que foi fácilmente interrompido porque, ainda que a exposição não tenha avisos físicos claros sobre o devido proceder em seus interiores, a equipe respnsável pelo seu cuidado fará toda questão de que você saiba quando estiver cometendo alguma infração. Então para que outros visitantes não sejam constrangidos de surpresa: nada de carregar bolsas pequenas nas costas, ou escrever dentro da exposição (essa última sequer está listada no site, então fica aí o complemento).

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Além da Fantasia – Yoshitaka Amano | Foto por Erick / @sucodm

Depois dessa imersão estética logo à entrada do salão, quando nos voltamos para o lado somos apresentados a outra obra-prima que consagrou Yoshitaka Amano como comunicador visual: a animação Angel’s Egg. Quase sem diálogos, uma narrativa puramente imagética, a animação virou símbolo da safra mais “cult” dentro da comunidade otaku e que nos força à experiência estética sem maiores mediações pela literariedade da narrativa.

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Além da Fantasia – Yoshitaka Amano | Foto por Erick / @sucodm

Saindo da sala de Final Fantasy, um corredor que se estende ao exterior conecta mais três salas separadas, cada um com um tema diferente. Nisso, os funcionários são ágeis em notar a movimentação do público e convidar aqueles que desejam prosseguir com a exposição. Na etapa seguinte, a sala contrasta uma etapa mais vibrante da trajetória de Yoshitaka Amano com Candy Girl, onde o artista consagrado pela cultura pop flerta com a pop art. Não, não são sinônimos. O caminho visível da sala troca as cores fortes pelos tons sombrios de Vampira Hunter D, seu trabalho colaborativo com o escritor Hideyuki Kikuchi.

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Além da Fantasia – Yoshitaka Amano | Foto por Erick / @sucodm

Nas duas salas restantes, temos em ordem, uma sala repleta de trabalhos colaborativos de Amano e a sala temática de seus trabalhos com a franquia Tatsunoko e sua obra experimental Deva Loka (não confundir com diva, sua loka), contendo a área de imersão animada. A primeira sala é repleta de diferentes releituras de clássicos da arte como O Grito de Munch, clássicos infantis como Pinóquio, referências da cultura pop ocidental como DC Comics e Sandman, bem como uma série de cartas especiais e valiosíssimas de Magic: The Gathering. Na última sala da exposição, encontramos “o mundo dos deuses”, tradução de Deva Loka no sânscrito. As peças gigantescas nos convidam a um olhar atento do estilo de Yoshitaka Amano sobre a forma feminina e a composição de vários elementos conjugados num todo hipnotizante. E para quem é otaku velho dos tempos de Speed Racer, a exposição encerra com um dos primeiríssimos trabalhos profissionais de Amano de sua época na Tatsunoko, onde seus talentos começaram a ser reconhecidos pela indústria cultural dos anos 80 e o resto é história.

Para fechar estas impressões como uma nota indireta de agradecimento, muito do que foi possível ser escrito até aqui foi graças aos insights riquíssimos da vtuber Juufutei Raden, mais que um talento idol, um talento cultural do Hololive. Suas observações técnicas sobre museus e exposições de arte abriram os olhos deste ignorante em artes visuais sobre a composição nada inocente das galerias de arte e como sua ordem de exposição, exibição e condução. Dito de outra forma, a geografia de uma exposição possibilita enxergarmos o roteiro de sua curadoria, com início, meio e fim.

Chegando ao Rio depois de sua exposição em Belo Horizonte, a mostra “Além da Fantasia” permanece até o dia 22 de junho, de onde seguirá para Brasília. Não deixem de ir!

GALERIA ALÉM DA FANTASIA – YOSHITAKA AMANO

Fotos por @fotobelga

Eriki
Eriki
Olá, sou o Eriki, redator do Suco de Mangá desde 2018, ex apresentador do Gole Otaku, programa semanal do Suco de Mangá sobre as estreias de animes da temporada, formado em História pela UFRJ e guitarrista da Matina Cafe, banda que se inspira no som do visual kei.

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