Journal with Witch, ou Ikoku Nikki daqui pra frente, foi uma das estreias mais imperdíveis do recém-nascido ano de 2026. Sensível, tão tão sensível. Sensível e compassivo, porque foi impossível passar pelos episódios do anime alheios às dores e questões de seus personagens no geral e na dupla Asa e Makio, em particular.
Para este texto, algumas palavras sobre essa travessia no deserto que chamamos de vida, que o anime ilustra tão bem e a riqueza de suas protagonistas.
O CHOQUE
Nas últimas semanas, assistimos ao desenrolar de uma trama sobre trauma. Trauma e o processamento dessa quebra abrupta de realidade. A princípio Ikokku Nikki é uma história sobre luto, mas esse luto se insere num desafio mais amplo e universal: como viver bem?
A vida de Asa gira em 180 graus quando, sem rima nem razão, um acidente de trânsito ceifa a vida de seus pais. Como absorver o fato em plena adolescência? Não é como se houvesse Aquele apego romantizado à família; era um apego tão somente… normal. Uma família normal, que se parece com qualquer outra; um misto tolstoiano de uma família feliz que se parece com todas as outras e uma família infeliz que o é à sua própria maneira, do mesmo jeito em que alternamos entre a felicidade e a tristeza. No seu centro, o normal.
Dependendo do nível de elo que haja entre quem lê estas letras e sua família, a própria hipótese levanta lágrimas aos olhos. Uma hora seus pais estão lá. Outra hora não está mais. Não dá pra imaginar o que é mais doloroso, a perda repentina ou visualizar de pouco a pouco a lenta marcha rumo à velhice e o fim inevitável a nós todos. Seja como for (eu realmente não quero fazer esse exercício mental), a história do anime começa a partir da tragédia e temos uma Asa assustadoramente normal, alheia aos cochichos de terceiros até no funeral da família, onde os cochichos e as fofocas ainda importam mais do que a órfã.
Para o desgosto de uma única mulher.
VIDA À PAR
Quem aparece na vida da jovem menina é sua tia, Makio, completa antítese do normal. Atípica em vários sentidos, Makio, que sempre viveu à par de tudo e de todos, não segurou o desgosto em ver tanta indiferença a uma menina que sequer sabe do que será a vida daqui pra frente. “Pra onde ela vai agora?”, “Não sei”, muito cochicho pra pouca atitude. Isso irrita profundamente a tia de Asa, que ironicamente viveu boa parte da vida alheia aos outros até então, principalmente à própria família.
Reagindo ao Absurdo testemunhado, Makio irrompe em Revolta, leva Asa para a sua casa e simplesmente a acolhe. Sem maiores pretensões; Makio não será uma mãe, pois ela própria nunca foi e muito provavelmente jamais será (tem ainda a questão se isso é uma escolha dela, mas isso é outra conversa). E acolher sua sobrinha tem o peso de revisitar assuntos que até então moravam na poeira de lembranças mal vasculhadas: sua relação conturbada e traumática com a irmã. Como sentir afeto e nutrir bons momentos com a cria de alguém que lhe feriu tanto? Sendo mãe e filha, é inevitável que certos traços da irmã de Makio se reflitam em Asa.
Makio nunca soube expressar essas dores. Seu refúgio no deserto foi a escrita. Domar a língua, expandir o seu mundo e os modos como expressá-lo expandindo sua linguagem; estas seriam as estratégias que levariam Makio a fazer da escrita o seu métier e, por acidente, sua carreira. Ao longo dos episódios, a escrita também virará arma na mão de Asa, que sempre nutriu um gosto pelo canto. Cantar por que? Escrever por que? Para quem? Para si e porque sim.
Sim sim, autismos e neurodivergências, eu sei que esses paralelos já devem ter sido feitos à essa altura. Eu diria até, para somar nesse sentido, que a fobia social de Makio muito lembra a de Bocchi, mas num estágio mais sóbrio, ciente de que o mundo não está nem aí e você tem que dar seu próprio jeito. Em Bocchi The Rock chega perto de ser fofo, mas aqui temos a realidade nua e crua. Tem que se fazer dar certo e ponto final.

RECONCILIAÇÕES
O passar das semanas e dos meses entre Asa e sua tia vem com o pacote completo do processo de adaptação entre duas pessoas, cada uma ferida ao seu modo. Uma pelo luto, outra pelo rancor. Em Asa, temos um comportamento errático, que antes mesmo que se permita processar a morte dos pais, ainda tem que resolver uma questão que muitos jovens não conseguem responder plenamente aos 16 anos:
Meus pais me amavam?
A severidade da mãe da Asa, a austeridade do pai, esses comportamentos tão estranhos, como reagir a eles? Do pai pouco ou nada sabemos. Sequer sabemos por que ele aceita cuidar da filha com a mãe, mas se recusa a casar. E o estigma social (este digníssimo que habita as preocupações de tantos!) de não estar casado depois de certa idade, como a irmã da Makio lida com isso? Logo ela que sempre recriminou Makio por ser tão diferente de todo mundo?
Há uma pista, o diário deixado pela mãe para os 20 anos da Asa. Seu nome, significando “amanhã”, foi escolhido com os desejos de que ela se tornasse quem ela quisesse ser. Um desejo típico de uma mãe à sua prole. Mas o que uma folha pode te dizer? Qual a garantia de que aquele “Eu te amo” seja verdadeiro. O que a mãe da Asa pode dizer na cara da filha? Nada. Ela não pode dizer mais nada. E então a ficha cai…
Aujoud’hui, maman et papa est morte
Os episódios de Ikoku Nikki nos levam pouco a pouco a caminhar os passos de uma garota que, somado aos desafios típicos da juventude, que tenta buscar a si e saber que “Eu” é esse, ainda tem de fazê-lo com o peso do luto nas costas, até o momento em que ele irrompe num choro de rasgar o peito, que te leva a chorar junto. Mamãe e papai se foram. A irmã, outrora odiada, se reflete no choro da avó que teve que enterrar uma filha e conviver com essa nova realidade. E no fim disso tudo, de tantos personagens distintos e com suas próprias tristezas, a pergunta que não quer calar.
Como lidar com a dor?

A VIDA CONTINUA
“Asa, você acha que sua vida acabou?”. A pergunta vem direta como uma bala de canhão. É o tipo de pergunta que te faz acordar pra vida e essa é a resposta mais curta e grossa que a história tem para nos contar. A vida é uma despedida atrás da outra; sucessão de lágrimas, mas também sucessão de risos. Não há outra coisa a fazer senão sermos quem somos.
Este último ponto é tocado em Ikoku Nikki de maneira calorosamente sensível. Vários personagens entram em conflitos pessoais e sociais para poderem enfim ser quem elas verdadeiramente sentem, naquele momento, que são. E esses comentários sociais são feitos sem aquela necessidade de soar um palestrinha condescendente que te dá lição de moral com um ar esnobe. Eles são feitos com o pé no chão de quem entende que tratam-se de dores reais e pessoais, ao invés de idealizadas e conjunturadas.
Enquanto supera-se um problema após o outro, a vida apresenta seus prazeres. A arte, a música, a escrita, esses pequenas talhas do espírito humano sobre o mundo, que nasceram, nascem e continuarão a nascer da tragédia, da reflexão, da contemplação e de tantas outras experiências humanas, sejam elas parecidas com algum dos personagens de Ikoku Nikki, sejam eles diferentes.
E tais coisas testemunhamos sim em Ikoku Nikki. Saímos dessa experiência um tanto melhores pela qualidade e fina sensibilidade do anime, que é mais que recomendado, principalmente por ter começo, meio e fim, Coisa rara! Joia rara!

QUANDO MENOS É MAIS
Antes de fechar este texto, uma nota póstuma. Póstuma porque uma entrevista com a diretora de Ikoku Nikki acendeu uma discussão interessantíssima na internet, que me jogou de volta às pressas para este texto.
Não é gratuito que nada tenha sido dito até agora sobre produção, animação, etc. Não é que Ikoku Nikki tenha sido mal produzido; nada mais longe disso! As alegorias que se sobrepõem às situações passadas por Asa não são nada aquém de brilhantes! A passagem no deserto para representar a travessia incerta e árdua da vida, o olhar para o abismo ao se perguntar sobre os sentimentos da falecida mãe, a sensação de estar numa terra estrangeira ao testemunhar duas mulheres adultas conversando; artisticamente a animação do anime não deixa nada a desejar. Ela só não é o foco.
Nas palavras da diretora, Miyuki Oshiro, republicadas pela conta do Anime Updates no Twitter:
“Se a animação se destacar demais, ela pode nos distrair da história, então eu evitei exagerar, mas fiz questão que a animação fosse meticulosa. Não é uma obra que se apoie em animações chamativas.
Claro, é bom que haja boa qualidade, mas quando há movimentos demais, nossos olhos são voltados para esse movimento. Mesmo nas cenas onde eu quero que a atenção esteja voltada para a performance dos atores ou na música, se a animação é excessiva, ela rouba nossa atenção. Talvez seja isso o que alguns chamam de sakuga (animações incríveis), mas às vezes não é isso que quero passar. Decide onde mover as coisas e onde não movê-las é algo do qual sempre estive ciente desde a fase de roteiro” (tradução nossa)
O sábio comentário da diretora levantou um ponto que já foi levantado em outros textos nossos, principalmente na review mais recente sobre Shiboyugi: tem vezes onde menos é mais. É o tipo de pensamento repudiado por um Malmsteen da vida; mas, a arrogância de um guitarrista tão virtuoso quanto infeliz como o Malmsteen não deve ser considerada. Então avancemos no raciocínio:
O comentário reacendeu uma discussão sobre até que ponto um bom anime pode ser resumido pela soma de seus frames. Ele tem lutas épicas? Ele farma aura? Ele rende edits com trocentas visualizações no TikTok? É claro, ninguém há de negar que exista sakuga (o oitavo episódio de Frieren, meu Deus!), que ele é bom e que existam comunidades de fãs dedicados ao seu apreço. Comunidade essa que não raramente consegue falar sobre animação com muito mais fluidez do que este que escreve.
Mas nem sempre o sakuga é apropriado. Nem toda história o exige. Você pode ter um excelente anime com uma animação mais austera, mas nem por isso menos impactante no uso de suas animações. Timing é tudo. E o tipo de história que tivemos em Ikoku Nikki demanda o tipo de atitude cada vez mais em falta no nosso dia a dia inundado de distrações, mas nem por isso menos importante:
Pare, reflita, contemple.


