O Anime Friends 2026 está a caminho, com várias atrações anunciadas e um alívio generalizado com a certeza de que mudanças desnecessárias não vingaram. O evento conhecido e amado ainda mais depois de sua ressurreição pós-pandemia contou com grandes nomes da música, cinema e animação japonesa. Nisso, damos sequência para a segunda parte de nossa cobertura da visita de Shinichiro Watanabe no Anime Friends 2025!
Depois de uma apresentação pessoal, contando seu percurso como amante do cinema e como diretor de animações, dessa vez condensamos os painéis de sábado e domingo, sobre seus desafios na estreia de Cowboy Bebop e detalhes da produção de Lazarus!
Como o diretor pediu para que as palestras não fossem filmadas ou fotografadas, ao menos uma vez a transcrição levou vantagem! Confira agora os detalhes desses painéis!
OS PERRENGUES DE COWBOY BEBOP
No segundo dia, o diretor falou sobre a estreia de Cowboy Bebop, que deu bem mais trabalho do que se podia imaginar. Menos imaginável, segundo Watanabe, seria o seu sucesso. Produzido pela Sunrise e, inicialmente, patrocinado por uma empresa de puramoderu da Bandai (ou action figure, se preferir), os executivos se irritaram com o primeiro episódio, pois esperavam algo semelhante a Gundam. Depois do quarto episódio e um corte de patrocínio comprometedor, a animação foi patrocinada pela Bandai Visual.
Resolvido os problemas de financiamento, a questão agora vinha da transmissão, onde a estreia de Cowboy Bebop teve a infelicidade de cair pouco após o fatídico incidente epiléptico de Pokemón. Para quem não sabe ou lembra, o Pokemon Shock aconteceu na transmissão do episódio 38 da primeira temporada de Pokémon, em dezembro de 1997. Uma explosão de flashes de luzes vermelhas e azuis mandou mais de 600 pessoas para o hospital, com sintomas variando entre dor de cabeça e tontura até convulsões e perda de consciência. O incidente virou investigação policial e o anime de Pokémon passou por um hiato de quatro meses, o que é mais de uma temporada! Apesar do susto e de duas pessoas permanecerem no hospital por mais de duas semanas, o episódio chegou a virar piada em South Park e Os Simpsons.
Depois disso, as regras de transmissão na televisão ficaram mais rigorosas. Rigor esse que nem sempre obedeceu à nuance e ao bom senso. Ao estrear na primavera de 1998 ao lado de clássicos como Trigun e Sakura Card Captors, o primeiro episódio de Cowboy Bebop foi um dos primeiros a pagar o pato, que foi barrado. O anime estreou pelo segundo episódio! E como isso não fosse esquisito o suficiente, os poucos desafortunados que viram Cowboy Bebop na estreia ficaram sem os episódios quatro, cinco e seis por “serem violentos demais”.
Pra dar uma ideia do nível da brincadeira, a Faye acabou entrando do nada nos episódios sete e oito. E ainda assim, neste oitavo episódio, a equipe teve que se virar para apagar uma faca que aparecia, antecipando em anos o pirulito antitabagista do Sanji. Uma verdadeira dor de cabeça. Dor de cabeça essa pouco repercutida no exterior, mas muito bem conhecida no Japão.
SESSION XX: ELO PARA SAMURAI CHAMPLOO
Por causa dessa série de eventos, Shinichiro Watanabe criou um episódio extra para a televisão, a Session XX; talvez um dos protestos mais sutis já feitos. Por vinte minutos, a estrela do episódio é um bonsai, as famosas mini-árvores da jardinagem japonesa. A mensagem é clara para quem sabe no que envolve o trato de um bonsai: cortes corretos, precisos, na hora certa e no momento certo, obedecendo a uma razão própria da planta. Sem isso, o bonsai não vinga. Se cortar de qualquer jeito, não dá certo! O episódio acompanha uma promessa, mais direta para quem não pegou a nuance da mensagem das imagens: “Você verá o verdadeiro Cowboy Bebop um dia”.
O encerramento da Session XX é um compilado de cenas onde os protagonistas de Cowboy Bebop não aparecem. O episódio foi pensado do ponto de vista das pessoas ordinárias, vivendo suas vidas no mesmo universo do anime. A música, produzida pelo Shakka Zombie, foi o ponto de encontro de Shinichiro Watanabe e Shinji Tsuchida, o DJ Tsutchie. O encontro foi determinante para a produção musical de Samurai Champloo, de onde vários de nós conhecemos o som extraordinário de Nujabes.
A transmissão integral de Cowboy Bebop foi tocada pela WOWOW, que acompanhou de perto todos esses problemas. O resto é história. A Toonami abriria as janelas do mundo para, segundo alguns, o magnum opus de Shinichiro Watanabe, mas sem o episódio extra. O Session XX viraria um material clandestino, mas ainda visualizável em plataformas como o YouTube. E de certa maneira, o episódio tem valor como documento de uma possível história das tensões entre estúdios de animação e plataformas de televisão. Já as pazes do diretor com a TV Tokyo só aconteceriam 27 anos depois, com a transmissão de Lazarus, que seguiu tranquilamente sem problemas.
SOBRE LAZARUS
No terceiro e último painel especial do diretor para o público do Anime Friends, houve uma curta mostra do anime em português, para então explicar detalhes de sua produção. O patrocínio foi feito pela Adult Swim, que também patrocinou Space Dandy (2014). Segundo Watanabe, sua intenção foi produzir algo na linha de 007, uma ideia que já morava na gaveta há algum tempo e só recentemente pôde sair do papel.
Para a criação da party principal, o diretor optou primeiro por um praticante de parkour que gosta de se arriscar em situações perigosas e que luta um estilo baseado na capoeira. Sua admiração pelo estilo veio de uma apresentação de capoeira que Watanabe assistiu da última vez que esteve no Brasil, em 2011. Dessa experiência e dessas ideias nasceu Gilberto, o protagonista de Lazarus.
O próprio anime não se presta a dar muitos detalhes biográficos de seus personagens. Quando escutamos a ideia original de Shinichiro Watanabe, entendemos um pouco da frustração de quem esperava, erroneamente, por um novo Cowboy Bebop. Mas Lazarus nunca se prestou a ser um drama existencial cyberpunk. Às vezes nem Cowboy Bebop o é, mas o legado impresso nos fãs fala mais alto. No caso de Lazarus, é ação, parkour, tiro e bomba; frenesi do primeiro ao último episódio. Quem nos dá mais detalhes sobre a vida dos personagens é o próprio diretor: Gilberto é um órfão criado na periferia, inspirado em Cidade de Deus, um dos filmes favoritos do diretor-cinéfilo. Dessa primeira ideia ele foi criando os outros personagens que formam o time de agentes.
SOBRE PRINCE, HAPNA E JOHN WICK
E quanto a trama? O primeiro episódio deu uma mensagem impactante sobre os perigos de uma sociedade que se seda ao máximo de suas dores, pondo sua vida em risco no processo. O estalo na mente de Watanabe que o levou a esse assunto foi o choque com a notícia do falecimento de Prince, um de seus ídolos, vitimado por uma overdose de fentanyl. Do choque veio uma pergunta fundamental! Como pode um remédio prescrito por um médico matar alguém? É nessas horas que somos lembrados da máxima que diz que a diferença do remédio para o veneno é a dose. E essa é a origem do Hapna, uma droga milagrosa e acessível, mas que mata seu usuário depois de três anos. A trama e os personagens são sintetizados na escolha de Shinichiro Watanabe para o encerramento: a música Lazarus (1993), da banda The Boo Radleys.
Lazarus surgiu de um pedido da Cartoon Network por um anime de ação. Com o pedido em mente, John Wick virou um norte para a produção. Sob essa inspiração, Shinichiro Watanabe entrou em contato com o diretor Chad Stahelski para pedir algumas orientações na direção. Para a surpresa de Watanabe, Stahelski reagiu criança, empolgado como fã das produções do diretor de Cowboy Bebop e Samurai Champloo. Mais do que ajuda, ele se ofereceu para produzir as magníficas cenas de luta de Lazarus. Mas Watanabe foi enfático: os animadores não fizeram tracing sobre as cenas enviadas por Stahelski. Antes, elas serviram como base, aproveitadas pela equipe de animadores de forma independente.
CONCLUSÃO: UM DIRETOR DE CORAÇÃO BEM HUMORADO
Com esses comentários gerais sobre a produção de Lazarus, Shinichiro Watanabe estreou o primeiro episódio dublado para a plateia, que no começo passou por algumas dificuldades técnicas. A exibição foi um sucesso? Quem ficou sabe. O tempo urgia para outros compromissos da cobertura do Anime Friends.
PORÉM,
queremos finalizar essa cobertura da visita do diretor com um trecho de uma das entrevistas concedida à imprensa sobre seu gosto para a comédia. Gosto esse motor da animação de Space Dandy, a obra que mais divertiu Watanabe que é ele próprio cheio de bom humor!
Suco: Você mencionou no primeiro painel o quanto você gosta de programas infantis e de comédia nonsense. Você tem o hábito de assistir comédias, sejam elas em filmes ou peças de comediantes japoneses?
Watanaba: Sim, principalmente filmes de comédia. Comediantes japoneses mesmo eu não tenho o hábito de assistir.




