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Anime e D&D: a conexão que existe há décadas e você provavelmente nunca percebeu

Jogo D&D desde 1998 e acompanho anime há pelo menos tanto tempo. Em algum momento percebi que os dois mundos nunca estiveram tão separados quanto pareciam.

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Tem uma cena que qualquer jogador de D&D reconhece na hora: um grupo de pessoas completamente diferentes, com motivações distintas e personalidades que deveriam se repelir, sentadas ao redor de uma mesa decidindo o destino do mundo. Às vezes brigando entre si. Às vezes salvando a pele um do outro. Sempre bagunçando o plano do mestre de alguma forma.

Essa cena não está só na minha ou na sua mesa de jogo. Ela está em boa parte dos animes de fantasia que você já assistiu. E não é coincidência. Vamos lá?

O anime que nasceu de uma sessão real de D&D

Se você quer entender de onde vem essa conexão, o ponto de partida é Record of Lodoss War. Em 1986, uma sessão de D&D jogada no Japão foi transcrita e publicada em uma revista como um “Replay”, um relato narrativo da partida. Aquilo virou mangá, depois OVA, depois série. Lodoss War não foi inspirado em D&D. Lodoss War é D&D e é uma campanha que virou anime.

Isso importa porque estabelece algo fundamental: a estrutura narrativa do RPG de mesa e a estrutura narrativa do anime de fantasia são, em muitos casos, a mesma coisa. Grupo de aventureiros com classes bem definidas como guerreiro, mago, clérigo, ladino, jornada que começa pequena e termina salvando o mundo, encontros aleatórios que revelam camadas dos personagens. É a mesma história contada em mídias diferentes.

A party é a party

Uma das coisas que me chama atenção é como certos animes capturam com precisão a dinâmica de um grupo de jogadores reais. Não os personagens, os jogadores.

Konosuba é o exemplo mais óbvio. Aquele grupo disfuncional, as decisões questionáveis, o plano que deveria funcionar e termina em desastre, a personagem que só serve para uma habilidade específica e ainda assim erra na hora crucial. Isso é segunda-feira (gosto deste dia da semana) à noite na mesa de qualquer grupo com dois anos de campanha. Konosuba é uma paródia de D&D mesmo sem citar D&D uma vez sequer.

Do outro lado do espectro tem Grimgar: Ashes and Illusions, que mostra o que acontece quando você tira o heroísmo fácil da equação. Matar um goblin é exaustivo, traumatizante e caro em recursos. Os personagens têm fome. Têm medo. Cometem erros que custam vidas. É o tipo de campanha que um mestre experiente conduz quando quer que os jogadores sintam o peso de cada decisão e que poucos grupos aguentam por muito tempo. Grimgar também tinha uma semelhança absurda com uma de minhas campanhas, mas isso é papo para outro texto.

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Grimgar / Imagem Divulgação

O Mestre aprende com o anime

Falo por experiência: assisto anime com olhos de mestre há anos. E tem material rico espalhado por séries que, na superfície, não parecem ter nada a ver com RPG.

Goblin Slayer é quase um manual de estratégia tática. O protagonista não é mais forte que os inimigos, ele simplesmente pensa melhor. Usa o ambiente, prepara armadilhas, aproveita itens mundanos de formas inesperadas. É a representação perfeita do jogador que não depende de números altos para resolver situações e uma aula de como apresentar desafios que exigem criatividade, não apenas dano. No caso, deixo uma dica de livro que vai te ajudar a “pensar como monstro”: The Monsters Know What They’re Doing: Combat Tactics for Dungeon Masters.

Dungeon Meshi resolve um problema que todo grupo enfrenta em algum momento: o que acontece dentro da masmorra além do combate? Comida, logística, economia de recursos, a masmorra como ecossistema. É worldbuilding de alta qualidade disfarçado de comédia culinária e qualquer mestre que assista vai sair com ideias para tornar seus dungeons mais vivos.

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Dungeon Meshi / Imagem Divulgação

Black Clover e Claymore têm algo diferente a oferecer: ganchos narrativos. Organizações com hierarquias e regras rígidas, eventos lendários do passado que moldam o presente, segredos que o mundo inteiro conhece pela metade. São exemplos de como construir um cenário que existe antes do grupo de jogadores aparecer e que continua existindo quando eles saem de cena.

O isekai e a gamificação explícita

O fenômeno isekai trouxe algo novo para a conversa: animes que não apenas se inspiram em mecânicas de RPG, mas as exibem explicitamente na tela. Menus de status, pontos de experiência, árvores de habilidade, builds.

Sword Art Online popularizou isso. The Rising of the Shield Hero explorou a progressão de um personagem marginalizado que, através de builds pouco convencionais, se torna peça central do sistema: algo que qualquer jogador que já insistiu em uma classe “fraca” vai reconhecer de imediato. Overlord inverteu o jogo colocando o protagonista já no nível máximo, explorando como um conjurador épico interage com um mundo onde magia básica parece milagre divino para os NPCs.

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Overlord / Imagem Divulgação

É interessante porque esses animes tornaram visível algo que D&D sempre teve, a mecânica como parte da narrativa e levaram isso para uma audiência muito maior.

Dois mundos, a mesma mesa

Jogo D&D desde 1998. Nesses anos todos, percebi que os melhores momentos das minhas campanhas têm muito em comum com os melhores momentos dos animes que mais gostei: grupos improváveis que funcionam, mundos que existem além do que os personagens conseguem enxergar, histórias que começam pequenas e terminam maiores do que alguém planejou.

A conexão entre anime e D&D não é de influência unilateral. É uma conversa que dura décadas, onde os dois lados aprendem com o outro. Lodoss War prova que ela começou bem antes do isekai virar moda e Dungeon Meshi prova que ela ainda tem muito a dizer. Por sinal, que anime gostoso de assistir; já estou com saudades!

Se você joga D&D e ainda não assistiu alguns desses animes, está deixando material de campanha na mesa. E se você assiste anime mas nunca sentou para jogar, talvez já conheça as regras melhor do que imagina. Por sinal, agora é um ótimo momento de começar uma campanha com o recente lançamento do Livro do Jogador (2024) pela asmodee.

E olha que nem falei de Berserk e Frieren, heim? Mas também fica para outros textos…

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Imagem Divulgação

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BELLAN
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O #BELLAN é um nerd assíduo e extremamente sistemático com o que assiste ou lê; ele vai querer terminar mesmo sendo a pior coisa do mundo. Bizarrices, experimentalismo e obras soturnas, é com ele mesmo.

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