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Dia 19 de julho agora marcam dois anos desde o trágico incêndio no prédio da Kyoto Animation que resultou em 36 mortos, 33 feridos e uma multidão de pessoas incrédulas com a magnitude e as razões do desastre. Dia 18 aqui, na verdade, se considerarmos o fuso horário.

Magnitude por tratar-se de um dos maiores e mais queridos estúdios da história da animação japonesa. E aqui eu digo querido não somente pela qualidade de suas produções, mas também pelo trato aos seus funcionários, o que é um ponto fora da curva se você considerar o que costuma ser ponto comum em ambientes de trabalho japoneses.

E quando falo em razões e incredulidade, falo pelo fato estarrecedor de tantas vidas terem sido perdidas por causa do desespero insano de um homem convicto que o estúdio havia plagiado uma de suas ideias. Shinji Aoba, o homem de 42 anos responsável pelo incêndio, foi acusado pela promotoria por homicídio, tentativa de homicídio e incêndio criminoso. O processo não foi agendado e ele foi atrasado não só pela espera de um laudo psicológico, mas pelo próprio estado de saúde do criminoso, que teve mais de 90% do corpo com queimaduras de terceiro grau.

Uma vez internado no hospital, Shinji Aoba foi acompanhado ao longo de meses por Takahiro Ueda, o médico que cuidou de seus graves ferimentos com afinco e, pelo que parece, foi sua primeira autêntica companhia em tempos, como podemos ver pelo seu depoimento dado ao Yahoo! News Japan.

O que deixa todo o fato realmente estarrecedor, e até agora não esclarecido (e aparentemente sem o menor interesse de se esclarecer), é isto: como uma pessoa comum tão de repente surta e torna-se capaz de encerrar tantas vidas que jamais tiveram nada a ver com a sua? O que é essa besta que escapa de dentro de alguém (e que, não se enganem, habita a todos nós) e que nos aterroriza sempre que se manifesta?

Talvez a verdade é que não há compreensão. Só há o sentimento desolador de que algo foi irremediavelmente interrompido. Uma vida, uma relação, um laço, um amanhã.

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Sobre Look Back

E esse sentimento é o elo que une o que agora escrevo com a mais nova obra do autor de Chainsaw Man, Tatsuki Fujimoto, intitulada “Look Back”. O mangá em formato one-shot, de cerca de 140 páginas, conta a história de Fujino e Kyomoto, duas desenhistas que dão a vida pela sua paixão, que é desenhar mangás. O que começa como uma relação de rivalidade por parte de Fujino, revela-se uma relação de admiração por parte de Kyomoto. Cada uma com seus talentos embarcam juntas numa prodigiosa estreia, até serializarem o mangá Shark Kick.

É durante a produção de Shark Kick que as amigas se separam. Kyomoto tem ânsia de tornar-se uma artista melhor, bem como aprender a interagir melhor com as pessoas e decide entrar em uma escola de Artes. Fujino sente a falta iminente de sua amiga, bem como de seu talento indispensável para cenários, mas inevitavelmente parte.

O tempo passa e, simplesmente, acontece. Um homem armado com um machado, inexpressivo e balbuciando indignações contra as pessoas, invade uma faculdade em Yamagata e mata 12 pessoas com um machado.

As páginas seguintes de Look Back embarcam numa atitude típica de todos nós quando deparados com uma catástrofe. Recapitulamos os momentos de nossa vida com a pessoa perdida, imersos em culpa, perguntando o que é que poderíamos ter feito. Enchentes de pensamentos do tipo “Se ao menos eu não tivesse feito isso, ou aquilo, talvez ela ainda estaria aqui” inundam nossas cabeças.

E assim Fujino, lembrando o momento em que conhece Kyomoto, imerge num cenário hipotético. E se ela estivesse lá no momento? E se ela pusesse suas aulas de karate à prova? E se ela pudesse continuar a serializar Shark Kick com sua amiga, exatamente do jeito que era antes?

Mas a fantasia acaba. O que resta é a realidade da perda. Só há a Fujino, sua mesa de desenho e as lágrimas pelo ente querido, que jamais voltará.

look back tatsuki fujimoto
Imagem Divulgação

Convertendo o número em luto

Look Back foi lançado mundialmente no Manga Plus, site de mangás online oficial da Shueisha, no exato dia em que foram completos dois anos do incêndio na KyoAni. O relato do mangá é quase autobiográfico, mesmo por algumas semelhanças aqui e ali com o próprio Tatsumaki Fujimoto. Entre elas, a inversão interessante que acontece no mangá apresentado no one-shot, Shark Kick. Afinal, Fujimoto também fez fama com “Fire Punch”. Como não lembrar das aventuras de Sharkboy & Lavagirl?

Mas por mais realista que os sentimentos de perda e luto sejam transmitidos pelo mangá, muita calma na hora de pisar nesse acelerador. Bem pode ser mesmo que Fujimoto tenha perdido alguém querido no incêndio de 2019. Mas pode ser também uma sensibilidade aguda em ação, capaz de transformar o número em luto. Que sabe o que implica a morte de uma vida no mundo. Que sabe que, para cada uma das 36 vidas perdidas por causa do incêndio, uma história como essa se repetiu 36 vezes para pessoas que jamais conheceremos, mas que existem, choram e sangram tanto como nós, que existimos, choramos e sangramos.

Afinal, esse também é um dos maiores poderes que a imaginação sensível é dotada.

Pessoalmente, acho valiosíssima qualquer iniciativa que nos mostre o que implica a morte de uma vida. É muito fácil que grandes tragédias englobem todas as vidas perdidas num grande bloco amorfo e sem identidade chamado “números”. Seja o incêndio da KyoAni, ou a pandemia ou o horror que foi o século 20, o que não se pode perder de vista é que a morte de uma única vida já é por si só desastrosa o suficiente. Números a menos não amenizam o fato. A mais só piora.

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