Carreira do ator Zhang Zhe Han está por um fio na China; entenda.

Zhang Zhe Han
Imagem Divulgação
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O ator chinês Zhang Zhe Han estava provavelmente em seu auge nos últimos meses, após o lançamento do drama já finalizado Word of Honor (2021), o qual estrelou com o ator Simon Gong; mas sua queda foi brutalmente rápida.

O Início da Queda

A Associação de Artes Performáticas da China, ou CAPA (China Association of Performing Arts), emitiu no último domingo (15) um pedido de seu banimento da indústria por comportamento inadequado. No decorrer da última semana, o ator chinês vinha sofrendo ataques da mídia e dos fãs chineses. O motivo foi, em primeiro lugar, uma publicação em sua rede com fotos tiradas no Santuário Nogi, em Tóquio.

Santuário Nogi
Santuário Nogi em Tóquio

Acontece que o Santuário foi construído em honra do General Nogi Maresuke, que, entre outros feitos, liderou um massacre em uma incursão a Luushunkou (China) em 1894, durante a Primeira Guerra Sino-Japonesa.

Mais tarde, o ator explicou que as fotos foram tiradas em ocasião do casamento de um amigo, que realizou a cerimônia no Santuário; o amigo também justificou a escolha como sendo um local muito popular entre os casais japoneses para a realização dos ritos matrimoniais.

Além do lugar problemático, o ator também compartilhou uma foto com uma das convidadas, que mais tarde foi identificada como Dewi Sukarno, nascida no Japão como Naoko Nemoto, ex-primeira-dama da Indonésia e viúva do ex-Presidente Sukarno, deposto em 1967.

Zhang Zhehan e Dewi Sukarno
Foto de Zhang Zhehan e Dewi Sukarno

A figura de Devi Fujin [Madame Dewi] — como é chamada no Japão — é bastante controversa na China. Enquanto convidada em um programa japonês de entrevistas e debates, ela demonstrou apoio a uma rede de hotéis japonesa que estava sendo boicotada pelo Escritório de Turismo chinês por colocar nos quartos dos hóspedes cópias de um livro que colocava em dúvida os acontecimentos do Massacre de Manjing, durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa.

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Desenterrando o Passado

Em decorrência das postagens de Zhang, os fãs começaram a desenterrar publicações antigas do ator em suas redes, e “redescobriram” fotos de 2018 tiradas em frente ao templo xintoísta e santuário Yasukuni, também em Tóquio, cuja construção se deu em 1869 por ordem do Imperador Meiji, e nomeado primeiramente como Toukyou Shoukonsha.

Santuário Yasukuni
Santuário Yasukuni

Depois da Segunda Guerra Mundial, o templo manteve suas atividades e caráter religioso desvinculado do Estado, por ordem das autoridades da ocupação dos aliados no país. O local, no entanto, mantém homenagem a militares japoneses considerados criminosos de guerra, e é, por si só, considerado um forte símbolo “do passado colonial e da violência” do Japão.

Em 1979 o local foi rebatizado como Yasukuni Jinja e se tornou um local para a realização de cerimônias xintoístas, passando também a ser um memorial tanto para soldados japoneses quanto das vítimas das incursões imperialistas japonesas e outros conflitos bélicos ali, incluindo a Segunda Guerra Sino-Japonesa. A Coréia e a China, que sofreram com as invasões coloniais do Japão, consideram essas homenagens póstumas um insulto.

A Resposta de Zhang Zhe

O ator se desculpou por seu descuido e ignorância quanto à história de seu país e ideologia política dos convidados do casamento, pedindo desculpas também por ferir o sentimento de seus compatriotas, e reforçou: “Não sou pró-Japão, sou chinês! E amo profundamente meu país!”.

Zhang também admitiu que “como figura pública, deveria estar mais atento às feridas deixadas [pela História], e estudará cultura e História de forma séria e aprofundada.” O estúdio responsável pelo ator também emitiu um comunicado se desculpando pelo acontecido e disse que ele aprimoraria seu “conhecimento profissional e histórico”.

Apesar dos pedidos de desculpas, a polêmica acarretou o encerramento de contratos por parte de pelo menos 20 marcas, como Coca Cola, Pandora e Anker, além de contínuas críticas por parte de vários canais de mídia da China. A produção do filme Formed Police Unit (2022), que Zhang estrelaria ao lado de Wang Yibo, Johnny Huang, Elaine Zhang e Jason Koo, também anunciou sua saída do elenco.

O fã clube oficial de Zhang na China havia pedido por meio do Weibo para que os fãs internacionais não se envolvessem na polêmica, pois isso poderia prejudicar ainda mais sua situação, e que esperassem pacientemente pelas próximas atualizações. No entanto, pouco tempo depois, as contas do ator e do estúdio foram excluídas da plataforma por “comportamento inapropriado para os padrões da rede.” O ator também privou seu perfil pessoal no Instagram.

Por fim, no domingo a CAPA emitiu o comunicado em seu perfil no Weibo pedindo o boicote de Zhang Zhe Han na indústria, alegando que “a ignorância não deveria ser uma desculpa.”

Comunicado da CAPA no Weibo

 

O Que é a CAPA?

Criada em 1988, a Associação de Artes Performáticas da China é uma organização social sem fins lucrativos de nível nacional liderada pelo Ministério Chinês de Cultura e Turismo. De acordo com o site oficial, ela tem como objetivo promover eventos e atividades culturais relacionadas às artes performáticas, como teatro, cinema, dança e música, além de cuidar da disciplina dos artistas nacionais seja no cinema, na TV ou na internet, estabelecer padrões a serem aplicados na indústria e proteger os interesses de seus membros.

A CAPA, bem como o país de modo geral, possui diretrizes a serem seguidas pelos artistas nacionais, e quem acompanha a indústria chinesa sabe como as instituições e os próprios fãs podem ser (e são) rígidos quanto a esses padrões. Sendo assim, ao mesmo tempo que baniu Zhe Han, o Comitê de Ética e Disciplina da CAPA exigiu boicote contra o ator por parte dos membros da associação.

A China, da mesma forma que a Coreia e o próprio Japão, possui um governo que incentiva e aprecia fortemente os valores do nacionalismo e do orgulho patriótico como pilares de sua identidade enquanto povo; não é a primeira vez que um artista chinês enfrenta esse tipo de “cancelamento” por conta de posicionamentos ou comentários quanto a assuntos historicamente sensíveis para o país.

O ator Zhao Lixin (O Avanço da Fênix, 2018), por exemplo, teve sua conta removida do Weibo depois de se referir ao Massacre de Manjing como “uma consequência da resistência chinesa à invasão do Japão”, e comentar sobre os motivos de o exército japonês não ter destruído a Cidade Proibida durante as incursões da Segunda Guerra Sino-Japonesa.

Apesar das pesadas críticas de uma esmagadora parcela da população, Zhang ainda possui fãs (mesmo nacionais) mais compreensivos, que acreditam que ele aprendeu sua lição, e ainda esperam que suas ações em favor do país e do próprio povo sejam levadas em consideração; como, por exemplo, a ajuda prestada, junto a outros artistas, durante as enchentes na província chinesa de Henan, em julho deste ano.

Ainda não podemos dizer, com certeza absoluta, qual será o veredito sobre a carreira de Zhang Zhe Han, mas o ator certamente tem muitos obstáculos pela frente, e será bem difícil conseguir retornar ao seu status anterior.

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