Meu nome é Camila, sou formada em Letras – Japonês, tenho um blog de língua e cultura japonesa chamado :RE-VISTA e não sou otaku. Mas fui ao evento Anime Summer por causa do Bruno Bellan do blog Suco de Mangá que, desde que nos conhecemos através dos nossos blogs, sempre responde às minhas dúvidas sobre blogs, animes e outros assuntos “nerds”. – #BELLAN emocionado aqui 😀

Frequentei bastante eventos de anime entre 2001 e 2005, entre os meus 17 e 21 anos. Parei de ir para focar nos estudos e depois fui me interessando por outras coisas. Só voltei nesse ano, 10 anos depois.

Quando comecei a ir em eventos de anime já vinha da cena punk/hardcore/alternativa, então eu! não me sentia muito impressionada, mas de qualquer forma eles logo me interessaram pela energia criada e compartilhada nos dias em que ocorriam.

O que se segue é uma reflexão pessoal que tive sobre o que mudou nos últimos 10 anos enquanto percorria o evento.

anime summer
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Eventos de anime são legais para se ir com amigos…

Agora os eventos estão com pessoas diferentes das que eu conhecia, os cosplayers que eu conhecia já não vão mais. A Marimoon ainda vai em eventos? Os amigos que frequentavam esses eventos comigo agora estão casados e preferem passar o final de semana viajando ou estão fazendo algum tipo de programa de estudos. Acho que nenhum deles pensa em frequentar um lugar com tanto barulho quanto um evento de anime para relaxar no final de semana.

Penso nessas coisas quando estou na fila cheia de crianças. Não lembro de ter tanta criança na “minha” época.

Entro no evento e fico aliviada em ver uma imagem familiar, os vários stands vendendo todo tipo de bugiganga. E cada coisinha parece muito, muito importante. Sério. Quero comprar tudo. E existem bugigangas que não tinha na minha época! Carteira da Sailor Moon? Quero! Camiseta da Nana? Quero! Me consolo dizendo para mim mesma que não vale a pena trocar minha carteira de couro vermelho por uma da Sailor Moon…

Fico feliz ao ver um stand de roupas de lolita. Mãe e filha parecem ter feitos os artefatos e agora outras mulheres poderão comprar peças de itens bem femininos… Me dá uma sensação de união de mulheres, uma sensação de continuidade da tradição de grupos de mulheres rendeiras… Mas, de repente, me lembro que há 10 anos atrás tinha mais stands de roupinhas de lolita e fico triste pensando “Cadê a união das mulheres? Cadê a tradição feminina?”.

Admiro a quantidade variada de mercadorias. Acredito que a onda do DIY (Do It Yourself – Faça Você Mesmo) tenha influência nisso. Hoje é muito mais fácil transformar uma ideia em realidade. O conhecimento está todo à nossa disposição através do Google. O principal é ter a ideia.

Tetsuo dançando k-pop!

O público gritando na frente do palco me chama a atenção. Realmente, eles não param de gritar. Elas, principalmente. De longe, vejo um cara em cima do palco com cabelo preto liso e jaqueta vermelha. Penso: “Será que é um cosplay de Tetsuo, do Akira dançando k-pop?” Afinal, tudo é possível em eventos de anime (nunca me esqueço do cosplay de Hyoga Bêbado).

Me aproximo e vejo que o garoto está rebolando. Garotas de 12 anos ou menos se esgoelam, alguns pais se esforçam para tolerar, alguns garotos olham interessados.

O garoto em cima do palco olha bem nos olhos de suas “fãs”, coloca a linguinha para fora e começa a – sim -, a tirar a jaqueta e, claro, a camiseta. Nesse momento, o nível de energia vital emitido pelas garotas deve ser o suficiente fazer um trem subir a Serra.

Fico um pouco puta ao perceber que aquele cara não tem nada a ver com o Tetsuo, que é só um cover de k-pop, gênero musical que sempre achei fútil. A mulher do casal ao meu lado comenta com seu marido: “Olha, amor! Ele tirou a camisa! É Clube das Mulheres para crianças!”

Dou risada com isso. Espero um pouco e falo para ela apontando para o palco: “Não tô entendendo nada!”

Ela diz sorrindo: “Nem eu!”

Eu concordo com a cabeça. Mas o comentário seguinte dela me faz parar de concordar. Ela coloca a mão no meu ombro e diz: “Só sei que se o futuro depender dessa geração a gente tá perdido!”

E vai embora com o seu marido.

De repente, me sinto ofendida pelo comentário da mulher. Fui professora e odeio quando adultos ditam o futuro das crianças, ainda mais quando é algo catastrófico. Odeio quando adultos dizem o que as crianças são porque isso limita o potencial delas. Os adultos deveriam apoiar as crianças! ! !

big bangEnquanto os números de k-pop vão se sucedendo em cima do palco, começo a me examinar sobre ter 30 anos e ver esses… ahn… JOVENS gritando, dançando, se divertindo, ousando ser quem eles são e quem eles não são, trocando papeis (o/a nerd se torna um sedutor/a no palco) e uma admiração grande por eles me vem. E essa pessoa que há 10 anos atrás desprezava k-pop agora pensa: “Que bom que existe o k-pop!” porque através do k-pop, esses jovens desenvolvem múltiplas inteligências ao decorar coreografias, cantar em coreano, se apresentar em público, trabalhar em grupo, e muito mais.

Penso como isso é saudável e sinto um certo arrependimento de não ter pagado mais micos assim quando era mais nova. Não que eu não possa mais fazer isso, mas quando a gente tem menos de 30 e – melhor -, menos de 20, arriscar é mais gostoso porque já faz parte dessa fase da vida arriscar, é mais permitido, digamos assim.

Um número me chama particularmente a atenção por ser executado por uma dupla de garotas que não está com visual tão produzido quanto outros performers, mas que faz o público explodir de empolgação quando começa a sua música.

Estou no fundo e uma menina que parece ter 1,40 grita e pula, grita e pula e canta e abraça os amigos de tanta alegria.

Sinto sua alegria e me lembro de quando eu também pulava e gritava com os meus amigos.

Pergunto para ela qual é o nome da música. Tenho que tocar de leve no ombro dela e repetir a pergunta para que ela saia do transe. Ela me diz que a música se chama Bang, Bang, Bang e é do grupo Big Bang.

Anoto o nome já fantasiando como seria o clipe dessa música. “Ah, tomara que seja algo no estilo Tarantino!” Coreanos fazem coisas bem malucas e eu mal podia esperar para chegar em casa e ver o clipe do Big Bang.

Fico mais um tempo assistindo às apresentações, mas depois do cover de Big Bang, já não consigo mais me impressionar tanto. Aquela música agora está na minha cabeça.

Um evento de anime pode ser revigorante se você entra na magia dele!

Olho em volta e tenho a sensação de que não tem mais nada para fazer. Vejo um cara fazendo retratos, vejo um stand de baseball. Não quero um retrato meu e nem quero jogar baseball. Ta bom, confesso que até jogaria baseball se tivesse um amigo para torcer por mim…

Comida não tem nenhuma saudável. E, pra falar a verdade, enjoei de comer pastel, yakissoba e tomar Mupy.

Olho mais um pouco em volta e cogito passar pela ala dos desenhistas, mas eles têm uns olhos esbugalhados como se estivessem com fome e isso me deprime e resolvo passar bem longe. “Será que é porque hoje em dia os desenhistas ficam muito na frente do computador?”, eu tento achar uma explicação. Tento lembrar dos desenhistas independentes que eu admirava há 10 anos atrás. Me lembro da Érika Saheki e do D-Chan.

Volto a prestar atenção no palco do “Clube de Mulheres para Crianças” e penso que a apresentadora é bem desenvolta, esperta e charmosa e fico feliz por ser um exemplo para as crianças. Porque já vi muito apresentador/a ruim em eventos… Sempre tem aqueles que fazem piadas ofensivas. Mas essa garota é legal.

Deixo isso pra lá e me dirijo para o mezanino. No meio do caminho paro para assistir a uma batalha de espadas de plástico entre duas garotas. A mais baixa é a mais sem noção, avança na outra totalmente sem pensar e o juiz interrompe elas várias vezes dizendo algo que acho que é pra elas maneirarem.

Dois adultos e uma adolescente passam na minha frente assistindo à batalha e a garota fala pros adultos “Isso aí não de verdade, não!” como se quisesse tranquilizá-los.

Penso no dia em que eu tiver uma filha e ela também começar a me ensinar as coisas…

Subo para o mezanino pensando como as garotas de hoje em eventos de anime estão legais e não estão mais limitadas à uma imagem sexy. Porque teve um ciclo, que acho que ficou mais forte com a Marimoon ou teve seu auge com a Marimoon, de cosplays visivelmente com o objetivo de despertar a imaginação sexual. O que eu adoro também, mas agora não me parece que existe uma tendência forte de sensualidade, é mais variado.

Me agrada muito ver pessoas compartilhando seus gostos porque gostar de anime, ou de filmes, ou de ler, ou atividades intelectuais e artísticas é, na maior parte do tempo, um hobby solitário. Não é um hobby como jogar vôlei na praia, em que você se encontra com os seus amigos uma vez por semana, se diverte e depois volta à sua rotina. Você pode ter emoções durante um jogo, ficar puto com um amigo, mas aquilo não te emociona como uma morte de um Cavaleiro do Zodíaco, por exemplo. O mundo do anime continua ativo em você mesmo depois que você termina de ver um episódio. Te faz refletir, te faz procurar saber mais. E refletir é uma ação que se faz sozinho, no silêncio da sua mente.

Por alguns dias, você pode compartilhar não só sua opinião, como também sua empolgação, sua energia e seu coração com pessoas parecidas com você, que provavelmente também passaram muitas horas solitárias vendo animes, lendo mangás e vivendo emoções dentro desses mundos fictícios. A sensação é uma grande brincadeira, como se o tempo parasse. É como quando somos crianças e criamos o mundo da brincadeira e ficamos ali por horas, sem sentir fome nem vontade de ir ao banheiro, totalmente absortos pelo universo que criamos e pela troca de energia que fazemos com nossos amigos.

Assim que são esses eventos para mim. Um evento de anime pode ser revigorante se você entra na magia dele. Ela com certeza ainda existe.

Olhando de fora, é difícil dizer, mas me parece que, ao mesmo tempo em que o público está mais inocente e mais novo agora, está mais aberto e tolerante com as diferenças. E a magia sempre existe para quem quer ver.

E o clipe do Big Bang realmente é legal. E gostei do evento. Até senti aquela depressãozinha depois!

anime funny