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Josee, the Tiger and the Fish: o filme de anime sobre amor e superação que vale cada minuto

Josee the Tiger and the Fish review thumb
Imagem Divulgação

Na contra mão dos assuntos de sempre dessa coluna, falaremos de amor. Se bem me recordo, a última vez que isso aconteceu foi em 2018, então aproveitemos bem porque, se a progressão aritmética se manter, a próxima vez só em 2034. Falaremos um pouco sobre o laço comovente apresentado em Josee, the Tiger and the Fish; mais especificamente, a adaptação de 2020 do conto da escritora Seiko Tanabe (1928-2019).

E essa conversa não seria possível sem a série de não-problemas levantados pelo Twitter mesmo anos após sua estreia. Pelo marketing gratuito e os lembretes recorrentes, vai aqui meu muito obrigado.

UMA HISTÓRIA EXTEMPORÂNEA

Produzido pelo mesmo estúdio Bones que, desde 1998, agracia o mundo com Fullmetal Alchemist Brotherhood, Boku no Hero Academia, Gosick, Mob Psycho e tantas outras produções, este longa conta a história de Tsuneo Suzukawa, um universitário focado em suas responsabilidades e esforçado dia e noite pelo seu sonho de estudar no exterior. A vida marinha é uma paixão que o rapaz carrega desde a infância. Com Hayato e Mai, Tsuneo compartilha os estudos, o trabalho e os mergulhos no fundo do mar, para fotografar e descobrir mais sobre a vida aquática.

Enquanto Hayato prioriza viver sua juventude e Mai observa à distância uma paixão não correspondida, Tsuneo vive para seus estudos e para o seu trabalho. Uma espécie marinha muito particular faz do México seu grande alvo de intercâmbio e é para esse sonho que vão todas as economias do rapaz, de dinheiro e de tempo. Não sobra nada para as namoradinhas. Daí que a roda da fortuna amorosa não surge pela vontade de Tsuneo, mas por uma cadeira de rodas desgovernada colina abaixo, que coloca uma garota em risco. Essa garota é a segunda protagonista da obra, Josee.

O encontro inesperado joga um balde de água fria em quem se engana pelo poster ou pelos cortes fofos das redes sociais, pois a atitude de Josee é o oposto de sua estatura. A aparente fragilidade abriga uma pessoa cheia de birra e com requintes de malcriação. Josee compensa suas limitações físicas com uma personalidade forte (i.e., chata) para permitir-se alguma forma de independência, também exercida em segredo pelo seu imenso talento nas artes. Ao salvar Josee de um acidente, Tsuneo é contratado por Chizu, a avó de Josee, para que ele seja seu cuidador por algumas horas do dia.

Bom, o X da questão que torna o filme tão atraente, é que apesar de ser um romance, Josee abraça vários temas construtivos e significantes até o “felizes para sempre”. Sua construção narrativa tem seu apelo, na opinião deste colunista, no fato de ser uma história extemporânea. Seiko Tanabe faleceu por volta de um ano antes de sua história ganhar mais duas adaptações em 2020 (já havia sido transformada em filme no Japão, em 2003). A renomada escritora contava e entendia histórias e temas amorosos de uma maneira muito distinta da nossa geração, que entende o amor em termos de êxtase e autosatisfação. O entendimento de amor como mediação rumo a um Outro tem sido cada vez mais estranha. E é nesse estranhamento que mora a qualidade de uma história extemporânea, que pertence a um outro tempo.

Josee the Tiger and the Fish poster
Pôster Divulgação

O AMOR PELOS ATOS

Josee também é extemporâneo por não usar a linguagem do século XXI para falar de deficiências. No melhor estilo das artes narrativas japonesas, sua presença é sentida pela ausência. A maneira como a história consegue esse feito é por uma fórmula das mais eficientes na linguagem do amor: os atos. Pouco é dito, muito é feito. Tsuneo não fala de suas paixões marinhas; antes, corre para realizar o desejo de Josee em conhecer o mar. De interação em interação e de mediação em mediação, o laço construído entre Tsuneo e Josee é feito passo a passo, vagaroso, cada um conhecendo e edificando um ao outro. O mar serve como uma janela para o mundo, até então inédito a Josee, que vivera sob os cuidados rígidos de uma avó temerosa dos perigos do mundo. Na biblioteca, Josee encontra nas letras dos livros as asas que a fazem voar mais longe do que qualquer par de pernas funcionais poderia levá-la. E como se entendesse e sentisse o alívio de ver a neta ganhar autonomia e independência, o corpo de Chizu se permite o último descanso.

Como uma história de amizade e conhecimento mútuo, Josee já vale o filme que é. Mas fica ainda melhor quando a história impõe sobre si os desafios da vida. Quando a avó da protagonista falece, seu último suporte familiar, nos deparamos com uma história que escancara nossa fragilidade. Longe de sermos autossuficientes, estamos sempre à mercê da ajuda. Cadeirantes ou não, não se trata disso. Afinal, a plena saúde é uma ilusão que ingenuamente julgamos sermos perpétuos portadores. O que o filme nos mostra, e aqui conto sem maiores detalhes para não estragar a graça, é que a roda da fortuna também gira ao nosso desfavor. Qualquer um pode se ver a qualquer momento na necessidade do alento alheio. Seja da família, seja dos amigos, enfim, da comunidade de almas que nos cerca. E no final dessa estrada, mora o amor, seja ele romântico ou não. No caso de Tsuneo e Josee sim, pois estamos diante de um conto que propaga e vende o sonho do amor.

CONCLUSÕES

Essa review chega um pouco “tarde demais”. Faz sentido que esta coluna queira acompanhar as novidades do momento para manter alguma relevância. Também faz sentido que esta coluna se mantenha viva ao escrever sobre aquilo que lhe salta os olhos e toque o coração num dado momento. O que aconteceu aqui não foi exatamente nem um, nem outro. Como dito no começo do texto, fui lembrado da existência desse filme – que já me chamara a atenção na época pelo trailer – por algumas problematizações desprovidas de bom senso que só as redes sociais são capazes de produzir.

Mas – e aqui vai uma dica interessante de como aproveitar bem a internet – esses não-problemas e essas não-discussões servem mais para arrancar um riso do que para se aborrecer. Se o mundo é bobo ou ansioso em busca de engajamentos e cliques, o fato permanece que às vezes essas discussões acabam sendo feitas em cima de obras de imenso valor artístico e fonte de experiências genuinamente belas.

Por me lembrar da existência de uma animação tão edificante e construtiva, agradeço ao Twitter e convido a todos a testemunharem essa história plena de sensibilidade, que é Josee, the Tiger and the Fish.

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Bangers Open Air 2027 anuncia primeiros nomes: Lacuna Coil, Quiet Riot, Floor Jansen e mais

LACUNA COIL
Imagem Divulgação

O Bangers Open Air 2027 acaba de revelar as primeiras atrações da edição que acontece nos dias 24 e 25 de abril, no Memorial da América Latina, em São Paulo. São cinco nomes confirmados até agora: Lacuna Coil, Quiet Riot, Floor Jansen, Metal Church e Soen.

O festival promete mais anúncios nas próximas semanas.

Lacuna Coil volta ao Brasil com novo álbum

A banda italiana chega ao Bangers Open Air impulsionada pelo lançamento de Sleepless Empire (2025), seu décimo disco de estúdio. Com Andrea Ferro e Cristina Scabbia dividindo os vocais, o grupo segue entre os mais relevantes do metal gótico e alternativo mundial.

No repertório, a expectativa é por clássicos como “Heaven’s a Lie”, “Swamped” e o cover de “Enjoy the Silence”, do Depeche Mode, ao lado das músicas do novo trabalho.

Quiet Riot: história viva do heavy metal americano

Formado em Los Angeles em 1975, o Quiet Riot escreveu um capítulo fundamental na história do rock pesado. Em 1983, o álbum Metal Health se tornou o primeiro disco de heavy metal a liderar a Billboard americana, abrindo as portas para a explosão do glam metal nos Estados Unidos.

A formação atual reúne Rudy Sarzo (baixo), Jizzy Pearl (vocal), Alex Grossi (guitarra) e Johnny Kelly (bateria), mantendo o legado da banda após décadas de mudanças e perdas marcantes, como as mortes de Kevin DuBrow, em 2007, e do baterista Frankie Banali, em 2020.

QUIET RIOT
Imagem Divulgação

Floor Jansen apresenta carreira solo no festival

Conhecida principalmente pelo trabalho com o Nightwish, a vocalista holandesa Floor Jansen chega ao festival com material de Paragon (2023), seu debut solo. Nos shows, ela costuma costurar músicas do álbum com clássicos de suas passagens pelo After Forever, ReVamp e Nightwish, resultando em um repertório que percorre toda a sua trajetória.

FLOOR JANSEN
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Metal Church traz novo álbum e mais de quatro décadas de estrada

Ativa desde o início dos anos 1980, a banda americana chega renovada ao Bangers Open Air com o lançamento de Dead To Rights, seu 13º disco de estúdio. A formação atual conta com o fundador Kurdt Vanderhoof, além de David Ellefson (ex-Megadeth) e Ken Mary (ex-Accept, Alice Cooper) no time.

Clássicos como “Ton of Bricks”, “Start the Fire” e “Metal Church” são esperados no setlist.

METAL CHURCH
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Soen retorna ao Brasil após lançamento de Reliance

A banda sueca de metal progressivo chega ao festival com o recém-lançado Reliance (2026), seu sétimo álbum de estúdio. Fundada pelo baterista Martin Lopez, ex-Opeth, e pelo vocalista Joel Ekelöf, o grupo acumula prestígio na cena progressiva, com Memorial tendo sido eleito Álbum do Ano pela Metal Hammer em 2023.

SOEN
Imagem Divulgação

O Bangers Open Air 2027 acontece nos dias 24 e 25 de abril de 2027, no Memorial da América Latina, em São Paulo. Mais atrações ainda serão anunciadas. Os ingressos estão disponíveis pelo Clube do Ingresso. Consulte valores, condições e setores disponíveis abaixo:

INGRESSOS BANGERS OPEN AIR 2027

 

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Nunca assistiu To Your Eternity? Entenda por que Fumetsu é muito mais do que um anime sobre imortalidade

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Imagem Divulgação

Passados cinco anos de sua estréia, To Your Eternity concluiu sua terceira temporada em 2026 da mesma maneira que concluiu as duas anteriores: repleto de emoção. Aquele tipo de emoção que te deixa sem reação e contemplativo por uns bons minutos. O pior de tudo é que o choque do final da terceira temporada não te dá descanso, pois o que parecia ser o final perfeito de uma história sublime na verdade é apenas o fim de um ciclo. Haverá mais!

Pois bem, enquanto uma quarta temporada não é anunciada, tomo emprestado a ocasião, inspirado numa conversa com um amigo curioso sobre o mangá, para explicar afinal de contas do que se trata Fumetsu no Anata e (apenas Fumetsu daqui pra frente). O raciocínio que quero mover nestas linhas: por trás da história de um menino(?) imortal, Fumetsu é antes de mais nada uma biografia do Ser. Um exercício de imaginação sobre o fato em si da existência.

O Suco já cobriu as primeiras impressões de Fumetsu. Minha proposta é apresentar seu tema geral para quem nunca teve contato com o anime. Como essa apresentação é mais temática do que narrativa, vários detalhes das três temporadas ficarão de fora, então fiquem tranquilos, pois o texto é vago demais para spoilers maiores.

A RAÍZ DA QUESTÃO

Antes que você se assuste, não é preciso ser um Sócrates pra se entender com o que quero dizer. O ser humano é um ser sensível a várias coisas: sons, sabores, toques, calores, uma gama de sensações que de uma maneira ou de outra nos lembram de um fato: estamos vivos. Você que lê essas linhas, com ou sem auxílio de óculos, confirma sua própria existência ao se atentar neste texto tanto quanto eu confirmo minha existência a mim mesmo por separar um momento de uma madrugada de sábado para tecer esta junção de palavras. Uma questão que coça a cabeça de pensadores, cientistas e artistas desde tempos imemoriais é: como isso tudo começou? Como se começa a Ser? O que exatamente acontece que irrompe aquele estado mecânico de chorar-mamar-cagar da primeira infância e de repente nos percebemos dotados (ou amaldiçoados?) de consciência?

É sob o fardo desse tipo de questionamento metafísico – inútil para tantos que acham um absurdo parar para pensar nessas questões enquanto a desigualdade de oportunidades e de resultados impera no mundo – que Fumetsu começa sua saga. No início era o nada, até o momento em que algo passou a ser. Um Observador à parte deste mundo resolve lançar uma energia no mundo, energia esta que descende ao mundo, sem forma nem intenção e repousa numa pedra. E como quem viu Ruri Rocks ou prestou atenção às aulas de geografia sabe, mas as pedras também se movimentam. Ventos e chuvas arrastam sedimentos aqui e acolá, eventualmente chegando ao contato humano ou animal. É o caso de um lobo que repousa sobre a pedra antes de morrer. E no instante que essa alma se esvai, carregando consigo a angústia da distância de seu dono, algo reverbera nessa rocha que reproduz essa vida perdida. Nisso podemos dizer algo fundamental sobre o protagonista de Fumetsu: ele é um agregador de vidas.

DO SENSÍVEL AO CONSCIENTE

Quando Joan, o lobo que há pouco falecera, retorna à cabana que seu corpo reconhece como lar, ele encontra um garoto solitário, seu dono e sua companhia. Abrigados em meio à neve, o tempo passa até o momento em que uma ferida ceifa a vida do rapaz anônimo. Da pedra ao lobo e do lobo ao menino, essa energia vital é sensível às emoções alheias e acima de tudo à morte alheia. Esse ser ainda anônimo sente a falta do que até então estava há pouco tempo atrás, vivo e consciente e responde a essa falta assumindo sua forma. São desses ciclos de viver e morrer que Fumetsu é feito, onde tão logo no seu primeiro episódio várias pessoas se emocionaram e lacrimejaram na sua estreia.

Da coisa ao animal e do animal ao bípede humano, os primeiros episódios de Fumetsu são contra intuitivos ao apresentar o básico: as severas limitações do corpo humano e sua fragilidade, onde esse jovem perambulante morre a qualquer momento e a qualquer deslize; pois sua imortalidade lhe priva de qualquer instinto de sobrevivência num primeiro momento. Para todos os propósitos, essa figura humana sem nome que anda e tropeça com as próprias pernas não passa de um bebê, funcionalmente falando. O que muda esse cenário é o encontro com uma menina, March, que será sua figura materna. Assim como a família é o primeiro contato humano de um infante – um dos poucos consensos possíveis nas humanidades – March será a mediação para incluir o garoto anônimo no seio dos viventes, a começar por algo essencial: um nome. Por ser um menino que não morre, March batiza o garoto de “Fushi” (lit. Imortal). E do nome, que distingue e inclui a pessoa no rol da humanidade, March, apesar de ser uma criança tão nova, entende mais que o suficiente para ensinar a um semelhante o básico do básico: como se alimentar, como se cuidar e como falar.

A aquisição da linguagem é a próxima etapa crítica na formação de Fushi. É nessa esfera onde os sentimentos do protagonista serão atribulados pela busca de lugar. Como dar forma ao sentimento de afeto? De preocupação? De raiva ou mesmo de luto? O que é certo e o que é errado e por que? Fushi não só maneja seus próprios poderes, mas deve aprender a manejar a relação de si com o mundo mortal à sua volta. E isso não é feito sem sua devida dose de frustrações e dores, tantas dores.

E uma das maiores dessas dores, sem dúvidas, mora no final da primeira temporada, onde Fushi acompanha os últimos dias de Pioran, uma idosa que o ajuda durante o último arco. Passados todos os desafios e enfrentados os inimigos – sobre os quais falaremos já já – Fushi convive com Pioran, enquanto esta o ensina várias coisas do mundo. Isso prossegue até o momento em que sua saúde se deteriora e aqui nos encontramos diante de uma das situações mais penosas da vida, que é testemunhar a morte se aproximando de nossos entes queridos. Uma vez cuidado, agora é a vez de Fushi cuidar dos seus, até quando a lucidez se esvai e ele não é mais reconhecido. Quando a lucidez volta, esse é o momento final que o corpo dá para que as últimas palavras sejam proferidas e as últimas despedidas sejam feitas. Só quem conheceu a dor de perder um ente querido para o mais perverso e impiedoso dos algozes, o tempo, tem noção da dor que aflige Fushi, este imortal condenado a ver seus entes queridos partirem primeiro. O isolamento parece a solução para novas dores. 

Porém tudo aquilo que é vivo está condenado ao convívio, mais cedo ou mais tarde.

NOKKERS, ALTERIDADE E O BOM VIVER

Aqui, uma breve palavra sobre os antagonistas de Fushi. Ainda não explicados na totalidade de sua natureza – e talvez por isso mesmo a necessidade de uma quarta temporada – os nokkers são a única ameaça à existência de Fushi. Um coletivo orgânico capaz de roubar as almas que congregam ao redor do protagonista e possuir o organismo dos seres vivos à sua volta, pessoas, plantas e animais. Esse antagonismo equilibra as tensões da narrativa, contrapondo um ser imune ao natural a uma ameaça supernatural.

Depois de duas temporadas e vários personagens importantes para o desenvolvimento de Fushi – destaque aqui mais que justo para Bonchien Nicoli La Tastypeach Uralis – os nokkers até então eram vistos como uma ameaça total, um inimigo cuja extinção prometeria a paz no mundo. E de fato, em meio às tensões que movem a trama terrena dos companheiros de Fushi, há a própria missão pessoal do protagonista, instigado em parte pelo seu Criador, de eliminar a ameaça à vida encarnada nos nokkers.

Vitórias alcançadas e alguns séculos passados, algo acorda Fushi de sua hibernação e o mundo de Fumetsu já não tem mais o rosto da fantasia. A obra ganha contornos extremamente mundanos e familiares na terceira temporada, demonstrando uma capacidade fascinante sua de transitar entre gêneros. Quando Fushi conhece o mundo moderno, industrializado e escolarizado, a aparência de normalidade o convence de que tudo está em paz e seu sonho de um mundo perfeito se concretizou. Mas a garantia plena de sobrevivência, a extinção das guerras e a relativa fartura material são garantias de felicidade?

A terceira e mais recente temporada de Fumetsu nos apresenta um Fushi ainda mais ingênuo do que o costume, porque pela primeira vez em séculos esse ser que tem todo o tempo do universo se depara com a questão que persegue a humanidade desde os gregos: como viver bem? E quem participa dessa charada e ganha contornos humanos são os próprios nokkers. O elo aqui mora no barulhento Yuuki, um estudante fã de ocultismo e que não só se vê fascinado pela existência do além-humano, como enxerga esses seres temerosos como possíveis iguais. Pois ao longo da trama descobrimos que os nokkers operam uma capacidade de adaptação e deliberação muito semelhante ao talento humano de se adaptar ao seu meio. No lugar do estranhamento e do conflito, Yuuki brilha na terceira temporada pelo seu idealismo quase suicida em prol do entendimento de humanos, nokkers e o próprio Fushi, que habita em algum lugar entre as duas partes. É até refrescante a provocação por parte dos próprios nokkers durante a temporada, que aprendem a se adaptar ao ponto de se infiltrar na sociedade humana, emulando suas aparências e costumes, não só para poderem sobreviver, mas por entenderem que eles ganham o direito de viver no corpo de alguém a partir do momento em que esse alguém não considera mais a vida digna de ser vivida, o que alguns podem entender como estar efetivamente morto.

Pois como dito há pouco, tudo o que é vivo está condenado ao convívio e o convívio com os nokkers não é algo diferente. O idealismo ingênuo de Yuuki consegue um milagre próprio da ficção de eliminar um antagonismo e no seu lugar semear a boa convivência. Daí Fushi consegue alguma paz para deixar seus companheiros viverem e morrerem como bem entenderem, depois de muito relutar e sofrer de preocupação por se sentir obrigado e responsável por dar um mundo perfeito para se viver. Quase como um Deus.

E por falar em Deus, de onde veio essa energia em primeiro lugar?

O OBSERVADOR: UMA BIOGRAFIA DA CRIAÇÃO

Um fato perene por todos os episódios de Fumetsu até o momento é sua narração em terceira pessoa, por todos os episódios. Na literatura, a narração em terceira pessoa normalmente é vinculada à voz do autor que narra, constrói e efetivamente cria o mundo. Alguns livros souberam minguar a linha que separa autor da obra, como O Mundo de Sofia. Em Fumetsu, o narrador em terceira pessoa é um personagem de fato e de direito. Sem esse Observador, Fushi não existiria e sua criação obedece a um plano por ele criado.

A analogia a um criador todo poderoso é muito tentadora e de fato tentado estava em batizar o texto de “uma biografia de Deus”, o que seria um vício de interpretação forçoso demais e, pessoalmente falando, beirando o blasfemo. É importante que uma obra seja entendida pelos seus próprios termos o quanto for possível, do contrário quem sai perdendo é a imaginação. Sim, ao contrário do postulado da morte do autor, nesta análise quem morre é o leitor e o primeiro é soberano sobre sua obra. A existência do Observador não obedece a um desejo teológico ou sequer apologético de Yoshitaka Ooima, pelo menos não até onde eu saiba. E se a tal Navalha de Ockam couber no raciocínio, a existência do Observador atende a uma questão fundamental que eventualmente um ou outro de nós pensamos alguma vez na vida (principalmente quando perto da morte): como passamos a existir? Por que existe algo ao invés de nada? Estamos largados no universo ou há um relojoeiro por trás dessa engenhoca?

Só que nisso mora um adendo que é uma verdadeira prova de empatia de Ooima: se há um Criador, por que ele se empenhou na criação em primeiro lugar? Como ele surgiu? O que ele sentiu? Os últimos episódios da terceira temporada encerram essa longa biografia do Ser que começa na primeira temporada e termina numa biografia da Criação recheada de imaginação e carregadíssimas emoções, do tipo que faz muita justiça à criadora de Koe no Katachi.

RESUMO DA ÓPERA

Dito de forma simples e direta, a primeira temporada de Fumetsu é de longe a mais emocionante. A segunda e terceira temporada demandam duas coisas: a primeira delas é paciência. Se você quer que uma história se cumpra em três episódios, esquece e parte pra próxima. O F de Fumetsu não é de “fast food”. A grandeza de certas experiências vem justamente da paciência de aguentar uma narrativa que se arrasta para te entregar um final que faz valer toda a espera e mais um pouco. Os leitores de Crime e Castigo que o digam!

A segunda temporada de Fumetsu apresenta uma gama de personagens que terão muita importância para mover os temas e os dramas sentidos e abordados na terceira temporada. Toda a espera vale a pena e nada mais justo que um exercício de contemplação e meditação sobre a vida seja tão vagaroso quanto os milhões e bilhões de anos levados para a vida e seu universo se assentarem até o momento presente de 2026.

Como dito no início, haverá mais! O mangá já se encontra completo e sabemos que há um arco do passado, do presente e agora do futuro. Não faço a menor ideia do que haverá daqui pra frente. Se Fumetsu acabasse aí, já seria uma das maiores experiências com anime da vida. Mas não acabou! Quem sabe quando sair o anúncio da quarta temporada, esse texto não sirva de convite para os recém-chegados?

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Onimusha: Way of the Sword anunciado para Nintendo Switch 2

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Imagem divulgação (fonte: Capcom).

A Capcom, durante o Nintendo Direct de hoje (09), confirmou Onimusha: Way of the Sword para Nintendo Switch 2. O lançamento acontece simultaneamente com as outras plataformas em 25 de setembro de 2026.

E, sim, temos notícias maravilhosas para nós, jogadores brasileiros. O game chegará totalmente localizado, contando com áudio e legendas em português do Brasil. Finalmente, a Capcom resolveu nos dar o devido valor.

Confira abaixo o trailer de anúncio:

Esta confirmação acende novamente a chama de uma das franquias mais queridas da velha guarda. Afinal, estamos falando do primeiro título inédito de Onimusha em longos vinte anos. Certamente, ouvir Musashi fatiando demônios no nosso idioma será uma experiência fantástica.

Além disso, a versão do console da Nintendo promete explorar ao máximo os novos Joy-Con 2. Dessa forma, você poderá simular os cortes de espada usando os controles de movimento reais.

Controles de movimento e a fúria dos Genma no Nindendo Switch 2

A Capcom revelou que a funcionalidade de movimento será opcional, mas extremamente intuitiva. O jogador poderá usar os sensores para desferir golpes ou mirar com o arco. Inclusive, essa mecânica híbrida deve dar um ritmo muito divertido ao combate tático. Só tome cuidado para não empolgar demais e arremessar o controle na televisão (ou no vaso de plantas da mãe). Portanto, prepare o espaço físico da sua sala antes de começar a jogar.

A narrativa de Onimusha: Way of the Sword nos transporta para um Japão feudal sombrio. Acompanhamos a jornada de Miyamoto Musashi no período Edo. O samurai usa a mística Manopla Oni para absorver as almas dos monstros Genma. Esses demônios estão invadindo a Quioto histórica sob as ordens do terrível Shuten Dōji. Nesse sentido, o game promete resgatar o clima gótico e místico dos títulos originais do PlayStation 2. O diretor Satoru Nihei garante que o foco total é a ação rápida, fugindo da temida fórmula Soulslike.

Ademais, as mecânicas clássicas, como o “Issen” (o famoso contra-ataque cirúrgico), estão confirmadas. Inegavelmente, dominar o tempo exato de cada golpe será crucial para sobreviver às hordas inimigas. O jogo utiliza o aclamado motor gráfico RE Engine. Consequentemente, podemos esperar visuais belíssimos e desempenho fluido tanto na TV quanto no modo portátil do Switch 2. Certamente, o poder do novo hardware da Nintendo dará conta do recado sem quedas de frames bizarras.

Pré-venda aberta e bônus para os ansiosos

Se você já quer garantir o game, a pré-venda começou hoje na Nintendo eShop pela bagatela de R$ 339,00, e também nas demais lojas digitais. Os jogadores que reservarem o título antecipadamente ganham alguns mimos bem interessantes. Dentre eles, a skin de espada “Maldição Selada” e o amuleto protetor “Komainu”. Para quem gosta de colecionar mimos digitais, as edições Deluxe e Premium Deluxe também foram detalhadas. Elas incluem cosméticos adicionais para Musashi, trajes extras para os aliados e a trilha sonora digital do game.

Analisando o cenário, este lançamento multiplataforma simultâneo é uma jogada de mestre da Capcom. Ao incluir o Switch 2 logo no lançamento, a empresa atinge uma base gigantesca de órfãos de samurais. Inclusive, a presença de uma demo gratuita (já disponível no PC e consoles) ajuda a diminuir a ansiedade dos fãs. Portanto, não há desculpas para deixar essa aventura passar em branco em setembro.

Por fim, a Capcom manteve o espírito de preservação histórica que tanto defendemos. O game respeita suas raízes mecânicas de 20 anos atrás, mas sem parecer ultrapassado. Inegavelmente, o retorno de Onimusha é um marco para a indústria de jogos de ação. Se você gosta de combates técnicos e mitologia japonesa, o dia de hoje é histórico. Portanto, afie sua espada digital e prepare-se para o combate.

Onimusha: Way of the Sword chega em 25 de setembro de 2026 para Nintendo Switch 2, além das já confirmadas plataformas do PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC.

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I Sold My Life For Ten Thousand Yen Per Year | Review

I Sold My Life For Ten Thousand Yen Per Year Editora JBC
Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Adaptação em mangá da novel de Sugaru Miaki, I Sold My Life For Ten Thousand Yen Per Year foi publicada no Brasil pela Editora JBC. O responsável pela adaptação foi Shouichi Taguchi, ilustrando perfeitamente essa história sobre a vida.

O mangá possui três volumes, cada um com aproximadamente 200 páginas, então também não demora muito para ler e é super fácil de completar. Como eu já falei muito sobre o enredo em si na review da novel, neste texto vou me ater mais à adaptação em si.

Vamos lá!

Tempo de vida

Kusunoki é um jovem de 20 anos com uma vida sem nenhuma motivação ou sentido. Ele vive um dia após o outro engolido pela rotina e cego pelo próprio senso de autopiedade e sofrimento. Ou seja, sabe que tem uma vida medíocre, mas pensa que milagrosamente ela irá mudar, na hora certa.

Então, indo atrás de indicações sobre uma misteriosa loja que compra tempo de vida, ele recebe uma proposta. Poderia vender os 30 anos que teria pela frente em troca de 300.000 ienes (cerca de 10 mil reais, na cotação de 2026). Conformado com a sua própria mediocridade, Kusonoki fica com o dinheiro e mais três meses e três dias de vida.

I Sold My Life For Ten Thousand Yen Per Year Editora JBC
Venda da vida | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Nesse tempo, Miyagi, uma monitora fria e melancólica irá vigiá-lo 24 horas por dia, para garantir que ele não faça nada criminoso. Porém, nenhuma outra pessoa consegue enxergá-la a não ser ele. Assim, se desenrola uma história sobre decepções, busca por sentido e compreensão da beleza de estar vivo.

Fidelidade

Sinceramente, me surpreendi com o quanto o mangá é fiel à novel. Todos os acontecimentos importantes estão ali e as adaptação necessárias foram mínimas. Além disso, o desenho de Souichi é belíssimo, tem traços delicados que dá gosto de ler.

I Sold My Life For Ten Thousand Yen Per Year Editora JBC
Primeira noite com Miyagi | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Claro, uma ou outra coisinha ficou de fora, mas nada que prejudique o sentido original da obra. Também, algo que eu amei e achei super simbólico são as máquinas de venda automática no começo de cada capítulo. O mangá conta ainda com alguns extras, que se aprofundam um pouco mais no “valor” da vida.

Fiquei muito feliz em perceber que a adaptação mostrou as cenas exatamente como eu as imaginei lendo a novel. Ou seja, pra mim é um atestado de qualidade tanto do original, que tem uma narrativa maravilhosa, quanto de Shouichi que captou exatamente o que a autora do original quis transmitir.

Cumplicidade

Você já gostou genuinamente de uma pessoa? Já quis fazer coisas pelo único motivo de saber que ela vai gostar? Ou já sentiu a sensação de que os problemas e angústias da vida diminuem quando ela está do seu lado?

Em I Sold My Life For Ten Thousand Yen Per Year esse sentimento tão genuíno aparece com tanta sutileza que quase nem percebemos ele começando. A dinâmica entre os personagens é natural, cheia de química e entrelinhas. Eles se entendem mesmo sem a necessidade de falarem o que estão pensando.

I Sold My Life For Ten Thousand Yen Per Year Editora JBC
Desenrolar dos sentimentos | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Por isso, trago esse afeto como um dos pontos mais altos da história, é uma relação de respeito, cuidado e dedicação que dá uma aula de romance. Porém, esse sentimento vem com um preço alto a ser pago pela pessoa que continuará vivendo quando a outra já tiver partido.

Vale a pena?

Eu já rasguei elogios pra essa história na outra review, então se você quiser saber mais profundamente sobre a história, pode ler o outro texto.

De qualquer forma, se estiver se perguntando se vale mais a pena comprar o mangá ou a novel, te digo que eles funcionam muito bem juntos. Mesmo assim, minha recomendação é: leia primeiro Três dias de Felicidade e depois I Sold My Life For Ten Thousand Yen Per Year.

A novel é mais detalhada, entendemos melhor algumas motivações, pensamentos mais profundos, enfim, é mais rica em conteúdo. Já o mangá adiciona essa riqueza visual e a sensação de ler sabendo o que vai acontecer, prestando atenção nos personagens, nas expressões, é maravilhosa e torturante.

Então, pra tentar não ser tão prolixa, apenas repito: pra mim, essa deveria ser uma leitura obrigatória. Tenho certeza de que, de uma forma ou de outra, a história vai fazer você refletir sobre a forma que você enxerga o mundo e vive a sua vida. Espero sinceramente que ela te ajude assim como me ajudou. Boa leitura!

I Sold My Life For Ten Thousand Yen Per Year Editora JBC
Capas | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Conheça o mangá

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CCXP26 confirma presença do mangaká taiwanês Chang Sheng no Artists’ Valley

Chang Sheng
Imagem Divulgação

A CCXP26 anunciou a participação do mangaká taiwanês Chang Sheng no Artists’ Valley. O artista estará no maior festival de cultura pop do mundo entre os dias 3 e 6 de dezembro de 2026, no São Paulo Expo, em sua primeira visita ao evento. A participação acontece em parceria com a Editora Comix Zone.

Uma trajetória fora do convencional

Nascido em Taiwan em 1968, Chang Sheng chegou aos quadrinhos de forma incomum: após 15 anos de carreira na publicidade, decidiu aos 35 anos se dedicar exclusivamente à arte. O resultado é um estilo próprio que une narrativas de fantasia e ficção científica a um tratamento visual realista, com mulheres frequentemente no centro das histórias.

Premiações internacionais

A trajetória de Chang Sheng acumula reconhecimentos expressivos no circuito internacional. Em 2011, venceu o Golden Comic Awards com o mangá Baby. Em 2013, Oldman lhe rendeu o Bronze Award no Japan International Manga Award, competição organizada pelo Ministério das Relações Exteriores do Japão. Em 2017, The Hidden Level conquistou o Grand Prize no Kyoto International Creators Award.

Artists’ Valley na CCXP26

O lineup do Artists’ Valley segue crescendo. Além de Chang Sheng, já estão confirmados Todd McFarlane, Mark Waid, Mark Brooks, Howard Chaykin e Shintaro Kago, além de vários artistas do Universo Absolute da DC Comics: Javier Rodríguez, Jock, Rafa Sandoval, Rafael Albuquerque, Marcelo Maiolo, Carmine Di Giandomenico e Frank Martin. Outros nomes ainda serão divulgados.

A CCXP26 acontece de 3 a 6 de dezembro, no São Paulo Expo, em São Paulo.

baby chang sheng comix zone
Capa Divulgação

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Garota à Beira-Mar | Review

Garota à Beira-Mar Editora JBC
Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Procurando algo com conteúdos sensíveis para ler? Garota à Beira-Mar é a história de jovens que encontram nas margens da sociedade um novo sentido para viver. Uma publicação da Editora JBC, o autor da obra é Inio Asano, o mesmo de Boa Noite Punpun.

Com pouco mais de 400 páginas, o mangá me impressionou quase na mesma medida que decepcionou.

Adolescentes sem rumo

Bom, o enredo gira em torno de Koume, uma estudante do fundamental, e Isobe, o seu quase namorado. Ambos são jovens que estão à deriva, sem grandes motivações na vida, nem ambições e muito menos responsabilidades.

Mergulhados nas próprias desolações, eles procuram no outro um escape da vida, descontando em sexo e autosabotagens a falta de interesse na vida.

Garota à Beira-Mar Editora JBC
Relação bizarra | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Assim, enquanto Isobe nutre sentimentos por Koume, a garota deixa claro que está apenas usando o garoto, que aceita essa condição. Nesse contexto, acompanhamos mais ou menos um ano da vida desses adolescentes que não sabem o que fazer.

Prometeu muito, entregou pouco

Quando eu li a descrição de Garota à Beira-Mar estava esperando ler quase uma versão japonesa da série Skins, ícone dos jovens sem futuro dos anos 2000. Porém, o que eu encontrei foi uma história frágil com muitas red flags.

Primeiro, a protagonista. Que coisa sem sal nem tempero. Acredito que a intenção era sim fazer ela chata e completamente tóxica, mas por quê? Quais as motivações ou os dramas dela? Pois é, eu também não sei.

Entendo o Isobe, acho que a condição dele é totalmente compreensível, mas a Koume? Não li nada que me fizesse ter o mínimo de empatia ou entendimento do porque ela ser tão insossa e problemática.

Também, todos os aspectos mais chocantes e éticos da obra não merecem a devida atenção. O uso de drogas, abusos, sexualização precoce, abandono escolar, violência, todos são temas que aparecem com a profundidade de um pires. Tem uma questão óbvia sobre depressão e atentado a própria vida que mostra o impacto e as consequências disso. Mas é a única coisa que eu consegui absorver.

Garota à Beira-Mar Editora JBC
Conflitos | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Descreveria a história como meia bomba, pois quando você acha que vai engatar, toma um banho de água fria. Por exemplo, Koume foi abusada mais de uma vez, isso é mostrado, mas qual a dimensão disso? Não sabemos.

Problemático

De qualquer forma, o que mais me incomodou foi a quantidade de cenas de sexo. Garotas à Beira-Mar é para maior de 18 anos, então obviamente o público-alvo não tem a mesma faixa etária dos personagens da história.

Mesmo assim, de cada dez páginas, três devem ter uma cena explícita, nudez e momentos muito gráficos. Sim, a intenção é mostrar como esses jovens estão perdidos, negligenciados e feridos. Que eles encontram nos lugares errados um jeito de lidar com seus sofrimentos. No entanto, discordo da maneira que o autor desenvolveu isso.

Principalmente por se tratar de adolescentes, algumas coisas não precisavam ser tão abertas assim. É possível sim mostrar a mesma coisa, passar a mesma intenção sem o destaque que teve.

Garota à Beira-Mar Editora JBC
Marcador de páginas | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Na minha opinião, pareceu uma forma de o autor escrever um conteúdo adulto com a fachada de ser uma denúncia sobre problemas sociais. Podia ser muito melhor, muito mais profundo e muito menos problemático.

Vale a pena?

Olha, eu queria muito ter gostado desse mangá. Tem personagens que me afeiçoei, tem temas que me fizeram sim refletir, mas pra apreciar isso eu tenho que ignorar muitas outras coisas. Inclusive, profundidade narrativa.

Sei que o autor é famoso por abordar assuntos delicados e tem obras consagradas, porém, nesse caso, senti que ele atirou para muitos lados, ao invés de focar em um ponto e fazer ele bem-feito.

Não acredito Garota à Beira-Mar seja um bom exemplo de narrativa crítica sobre jovens vivendo nas margens da sociedade. Não me arrependi de ler, mas dificilmente é um mangá que eu leria de novo.

Garota à Beira-Mar Editora JBC
Capa | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Conheça a obra

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Três Dias de Felicidade | Review

Três dias de Felicidade editora JBC
Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Se você já pensou que prefere viver isolado do mundo, ou já sentiu que a felicidade foge de você, essa história vai mexer com sua cabeça. Uma história sobre tempo desperdiçado e a dificuldade de ver beleza no mundo, Três dias de Felicidade deveria ser leitura obrigatória.

Quem trouxe essa paulada para o Brasil foi a Editora JBC, tanto a novel original de Sugaru Miaki, e a adaptação em mangá I Sold My Life For Ten Thousand Yen Per Year. O livro tem 256 páginas, rapidinho de ler, e o mangá conta com três volumes.

Três dias de Felicidade editora JBC
Capa com Miyagi | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Agora, vamos falar sobre a novel Três dias de Felicidade!

Qual o valor de uma vida?

Primeiro, um clichê: quanto vale uma vida? Sem respostas como “a vida é inestimável” ou coisa assim. Aqui, pensamos em um valor monetário mesmo. Para isso, considere três fatores decisivos: quanto a pessoa contribuiu para a sociedade, o quanto foi feliz e o quanto é famosa. Com base nisso, você conseguiria estipular um valor para sua vida?

Bom, provavelmente a resposta não seria tão animadora quanto você pensa. Afinal, Kusonoki, um rapaz de 20 anos e, teoricamente, com toda uma vida pela frente, pensava o mesmo.

Vivendo no piloto automático e agarrado na esperança de que seu futuro seria melhor, Kusonoki se contentou com uma vida medíocre. Assim, cheio de dificuldades financeiras, ele descobre que poderia vender seu tempo de vida em troca de dinheiro.

Pensando que sua vida valeria uma boa quantia, levou um choque de realidade com a proposta que recebeu. Os 30 anos que ainda tinha valiam apenas 300.000 ienes (cerca de 10 mil reais, na cotação de 2026). Conformado e desesperançoso, aceitou a proposta sabendo que teria apenas mais três meses e três dias de vida.

Porém, para garantir que não causaria problemas para outras pessoas, deveria ser acompanhado por uma monitora. Assim, começa o final da história de Kusonoki na companhia de Miyagi, essa garota fria, distante e melancólica.

Três dias de Felicidade editora JBC
Marcador de páginas | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Sua vida não vai mudar

Posso começar a falar sobre minhas impressões com uma reflexão.

Quantas coisas deixamos de fazer na vida por pensarmos “ah eu tenho tempo”, “estou esperando o momento certo” ou “tenho certeza que algo incrível vai acontecer e mudar essa situação”?

Ou pior ainda, quando nos tornamos as pessoas que encontram felicidade e conforto no próprio sofrimento? Que pensam e se contentam com pensamentos como “eu não mereço ser feliz”, “nunca vou conseguir ser feliz” ou “esse mundo não tem lugar pra mim”. Inclusive, que sabotam a própria felicidade, enxergando o mundo como um sofrimento eterno e qualquer sinal de melhora já acham os caminhos de volta para a infelicidade.

Basicamente, a autora fala que essas pessoas (como eu sou muitas vezes, e talvez você também) são tolas. O mundo não vai mudar para nos aceitar ou consolar. As pessoas não serão mais gentis porque você está sofrendo (na verdade, todo mundo está sofrendo). Esperar algo incrível ou fantástico acontecer, esperar um sinal do universo pra mudar seu destino é o mesmo que sentar e esperar a morte.

Não sabemos quanto tempo ainda nos resta, quantos dias temos pela frente, nem as alegrias e tragédias que a vida vai nos trazer. Por isso, Sugaru fala que não tem qualquer intenção de falar sobre o valor da vida, mas na chance de poder encontrar beleza no mundo antes que a morte finalmente chegue.

Seu tempo está acabando

Na verdade, um dos objetivos da história é mostrar a vida por uma nova perspectiva, sem as amarras que criamos por pensarmos que o tempo é ilimitado.

Por exemplo, pense por alguns segundos: o que faria se você tivesse apenas mais 30 dias restantes? Como enxergaria suas motivações e ações até aqui? Teria orgulho de conquistas ou se lamentaria pelas suas decisões? Continuaria achando que está em um inferno, ou se abriria para ver a beleza que existe no mundo?

Porque, na verdade, existe beleza em tantas coisas que, vendados com a rotina e com a ilusão da longevidade, apenas as ignoramos.

Três dias de Felicidade, ao meu ver, fala sobre as alegrias da vida a partir da perspectiva da morte. E, para mim, não tem nada mais belo e trágico do que isso. Essas lições, Sugaru passa com sensibilidade, bom humor e severidade.

Três dias de Felicidade editora JBC
Lista de afazeres | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Apego ao passado

Uma das grandes características de Kusonoki é a romantização do passado, se agarrar em uma ideia infantil e não se permitir enxergar o mundo além disso. Também, é buscar em pessoas que um dia já foram importantes um significado e alívio para a vida. É claro, isso se mostra ser uma fonte inesgotável de decepções.

Sinceramente, durante toda a história Kusonoki leva um tombo atrás do outro, sempre maior do que foi o anterior. Com isso, senti um misto de pena e justiça, pois são as consequência das escolhas que ele fez.

Amor em pequenos (ou nem tanto) gestos

Para além disso, quero falar sobre Miyagi, essa garota também de 20 e poucos anos, que tem uma história e personalidade muito parecidas com as de Kusonoki.

Obrigados a passarem 24 horas por dia juntos, os dois começam com uma relação de hostilidade. Miyagi é fria, direta e observadora. É quase uma sombra seguindo ele. No entanto, uma sombra que somente Kusonoki pode ver. Ninguém além dele consegue enxergá-la, algo muito importante para o desenvolvimento da história.

Assim, convivendo juntos, conhecendo a solidão do outro e suas histórias, os dois desenvolvem afeto pelo outro. Kusonoki vê nela alguém que o salva da sua solidão, já Miyagi encontra uma pessoa que se importa com ela. Porém, ela carrega o peso de que, dali a três meses, essa felicidade será substituída pela dor eterna do luto.

Sinceramente, a relação dos dois é uma das coisas mais lindas dessa história. A sinceridade e cumplicidade que eles desenvolveram pelo outro, a química e a relação que se desenrolou tão naturalmente. Começa com pequenos gestos — um convite para beber, interagir em público, fingir que está dormindo. Então, se transforma em sacrifícios pelo outro que faz de Três dias de Felicidade uma história tão linda quanto trágica.

Três dias de Felicidade editora JBC
Folha de guarda sem Miyagi | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Zona cinza

No entanto, existe um ponto que eu não posso deixar de levantar. Os personagens não são perfeitos e, principalmente o protagonista, é um poço de falhas.

Logo em uma das primeiras partes da história, Kusonoki teve pensamentos e atitudes completamente erradas. Ou melhor, criminosas, nojentas e covardes. O que ele quase fez com Miyagi me deu vontade de abandonar a leitura e condenar não só o personagem quanto a autora.

Porém, o desfecho foi para um caminho diferente, o que me fez refletir sobre as intenções da história. Três dias de Felicidade fala muito sobre falhas humanas, como somos egoístas, magoamos e ferimos o outro sem remorso. Também, fala sobre o poder de mudar nossa vida com ações que podem ser pequenas.

Por isso, apesar de essa parte da história ter feito eu odiar o Kusonoki, também evidenciou um ponto muito importante. Somos pessoas, não animais. Portanto, controlamos nossas vontades, por mais perversas e impulsivas que sejam. Não existe outra justificativa para nossas ações que não seja “eu escolhi fazer isso”.

Todos podem sim se controlar. A responsabilidade das suas ações é apenas sua. Jogar a culpa em outra pessoa é apenas mais uma escolha covarde.

Vale a pena?

Bom, o que eu posso falar é que quando eu terminei tanto o livro quanto o mangá, mandei mensagens em prantos falando que nunca ia superar.

Eu amo uma tragédia, amo fechar o livro e sentir que meu coração foi esmagado (seja de amor ou de dor) e essa história entrega os dois. Na minha opinião, teve um final feliz. Não é o padrão de final feliz, mas teve felicidade, então pra mim já é o suficiente.

Foi realmente uma leitura que mexeu comigo, me fez repensar a forma com que eu lido com a vida e mudar alguns hábitos. Três dias de Felicidade entrou para o meu Top 10 de histórias, então, se eu já indiquei leituras aqui no Suquinho, essa é a principal. Leia de coração e mente aberta, pois ela tem muito o que nos ensinar.

Três dias de Felicidade editora JBC
Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

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