O debate sobre a pirataria voltou com tudo há poucos dias. O que começou como uma discussão interessante para várias das partes envolvidas, logo decaiu naquilo que as redes sociais fazem de melhor: briga, contenda e trocação de farpa. Nisso, estamos com Kei Urana, autora de Gachiakuta: entendo o lado de vocês, mas por favor entenda o nosso também.
Para começarmos a entender o lado da autora, que também não deixa de ser o lado japonês, é preciso mergulhar nos diferentes entendimentos sobre lei, arte e cultura que são historicamente desenvolvidos de forma distinta em cada canto do mundo, por mais globalizados que sejamos. O assunto não é fácil, é impossível cobrir tudo num texto só, tem material relevante que acaba sendo deixado de fora durante a escrita, mas o esforço de construir pontes de entendimento é preciso.
Se me sinto à vontade para tentar o esforço, o mérito não é meu, mas dos anos que passei estudando e promovendo a cultura japonesa nas Academias Nipo-Brasileiras do ICBJ e nas atividades culturais encabeçadas pelo Grupo de Estudos Japoneses da UFF desde 2015. Mas ainda que o mérito não seja meu, meu será todo e qualquer equívoco eventual daqui pra frente.
Então senta que lá vem história…
O GERME DO CAOS
Tudo começou com um anúncio inocente. Como o jogo mobile, NieR Reincarnation, havia encerrado suas atividades em 2024, um grupo de fãs criou um servidor offline para que o jogo não se perdesse. Na mesma linha da cultura das fansubs dos anos 2000 que disponibilizou horas e horas de animação para um público estrangeiro sem acesso à custo zero, apenas pelo amor à coisa, os arquitetos dessa versão offline de NieR tinham tão somente o desejo de preservação de uma mídia digital que, por não ser física, não está efetivamente na mão de ninguém senão da Square Enix, que fechou as portas a sete chaves.
Nada de novo sob o fronte. Seria apenas mais um dia rotineira na prática corriqueira de preservação digital, se o Twitter não tivesse implementado há uns dias antes uma hábil reencarnação da Torre de Babel no começo de abril que uniu lusófonos, hispanófonos, russos, coreanos, taiwaneses, indonésios entre outros, mas, principalmente, japoneses. A lua de mel global foi linda, mas a lua de mel com os japoneses durou pouco. A réplica de NieR Reincarnation, anunciada em público, foi um escândalo! Os estrangeiros estão roubando uma propriedade intelectual pertencente à Square Enix!
Desse fato, seguiu-se uma longa discussão, que começaria produtiva para logo em seguida cair na hidrofobia, sobre direitos autorais, uso justo e os limites da reprodução digital. A nível da superfície foi o que aconteceu. Algumas camadas abaixo do aparente, algo ainda mais fascinante acontecia diante dos olhos reais e automatizados e milhões de contas ao redor do mundo: a nova Torre de Babel muskeana uniu as línguas, apenas para escancarar severas discordâncias de visões. Sejam elas sobre o valor da arte, o direito de quem a detém, ética de uso, e a relação de confiança ou hostilidade entre empresa e público.
O que visualizo nessa situação pode ser enxergado com os olhos da geografia. A unificação das línguas sob o Grok formou a confluência de vários rios distintos, com nascentes diferentes e percursos diferentes. São diferenças históricas, econômicas e – dessa vez sem medo de soar genérico – culturais em jogo.
É preciso entrar nesse confluente com calma. De baixo pra cima. A origem da tensão toda é que de um lado, não se admitia que um objeto, retirado de circulação, fosse posto em circulação novamente sem a permissão de seus donos; e de outro, não se compreendia o dano de disponibilizar um produto já fora de circulação. Uma parte da discussão entendia que esse ato ilegal come os lucros de seus produtores; outra parte julga impossível perder lucro sobre algo que sequer está em circulação.
De primeira, temos um desentendimento de uso. Você só pode usar algo se esse algo for devidamente adquirido pelos seus meios legais, sem mas nem poréns. Isto é a norma sobre pirataria, um crime. Este colunista não pretende ser um especialista de nada, mas é muito oportuno apontar o legado valiosíssimo de um pensador como Miguel Reale, referência mundial pela sua versão da teoria tridimensional do Direito. Porque além da norma e do fato (a lei e a infração factual), o Direito também lida com a dimensão do valor, ou nesse caso, o valor atribuído ao fato da pirataria. É aqui onde começam algumas zonas cinzentas. Pois o valor que boa parte do mundo imputa à norma da pirataria é bipartite, dividido entre o malandro, que transgride e ao mesmo não transgride, e o infrator confesso, que transgride e se orgulha de sua transgressão. O último é criminoso e ponto final. Pouco discutível e bastante rechaçado tanto por japoneses quanto não-japoneses. Já o primeiro, condiciona um valor justo ao fato da infração da norma: o trabalho voluntário (pois não pretende lucrar em cima do trabalho de outrem) e a preservação do patrimônio artístico (visto como um bem público a partir do momento que a obra vem ao mundo)
E disso vem outra questão altamente divisiva: de quem é esse patrimônio? Do artista e da empresa produtora (eles se confundem?!) ou do mundo? Calma que a gente chega lá.
CRIME E PECADO, A REALIDADE DE UM SINÔNIMO
Antes que possamos tatear a superfície desse poço, é interessante observar que a média das respostas japonesas sobre o que acabou-se de escrever é bem mais retilínea, como se a noção popular de Direito por aquelas bandas fossem mais bidimensionais: há a norma e o fato. O valor se confunde com o primeiro, porque só pode infringir a norma, aquele que é mau. O raciocínio simplista é o berço das comparações um tanto bizarras com roubo de bicicletas, dessacração de cadáveres, violação sexual ou ainda o ápice da viajação na maionese, que é imputar a ilegalidade a um Outro imaginário, chineses e coreanos hipotéticos, que convenientemente dispõe dos mesmos olhinhos puxados de seus acusadores.
Mas é verdade, o legalismo é uma realidade social forte. E não pensem que não a conhecemos! Temos aqui no Brasil o Sr. Tanaley, moço tão nobre quanto ingênuo, que é incapaz de discutir o valor da lei porque já confundiu a lei como um valor em si mesma com o seu previsível “Tá na lei!”. O legalismo não é uma excentricidade japonesa, assim como a maioria das supostas excentricidades que achamos que o Japão possui.
Tá, talvez o roubo de calcinhas, mas-
A situação da lei versus moral, um tanto rara no Japão, é observável até na linguagem. No universo histórico cristão (ainda que contemporaneamente laico, mas ainda influente por vários de seus preceitos históricos) Jesus nos convida a dar a César o que é de César e dar a Deus o que é de Deus, ou ainda, com Santo Agostinho, visualiza-se a realidade pública na distinção entre a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. A moral pode ser refletida pelas leis, como bem também as leis eventualmente entram em choque com o que se entende como justo, a exemplo de quando Francisco de Vitória, séculos antes dos movimentos abolicionistas, prega contra a dominação dos indígenas. Legal e justo aparentam ser sinônimos, mas não faltam situações da vida imprevistas por lei mas deploráveis pela moral pública.
Mas quando tanto o criminoso quanto o pecador, aquele que infringe respectivamente a lei e o mandamento moral são atendidos pelo mesmo zainin (罪人), estamos diante de um horizonte linguístico mais propenso a tratar lei e justiça como sinônimos, como sugeriu por séculos um neoconfucionismo que moldou a espinha da ética pública japonesa desde, pelo menos, os anos do shogunato Tokugawa. Antes que dedos sejam apontados a uma suposta sugestão de generalização do pensamento japonês, insisto na ênfase à palavra “propenso”. Porque é claro que na história japonesa há exemplos de transgressões, seja no caso famoso do MangaMura, seja na genialidade com que o povo comum driblava algumas leis ridículas de uma classe samurai ávida em manter seu prestígio em declínio.
A questão aqui não se trata sequer de sugerir que uma mentalidade seja menos transgressora que a outra, ainda que, de certa maneira, seja perfeitamente possível afirmar e se surpreender com a segurança de um lugar onde é possível perder suas coisas e encontrá-las intactas no mesmo lugar onde as deixou (se esse “algo” não for um guarda-chuva, claro). O que importa é prestar atenção nas atitudes diante da infração. Como dito há pouco, no Japão há uma propensão a confundir a lei com moral. E isso tem até o mérito de criar uma chamada high-trust society, ainda que ao custo do conformismo social.
E quando a atitude é oposta? E quando é o caso de uma sociedade ser mais receptiva às nuances, ao caso a caso, ou mesmo a elevar a suspeição como base de conduta diante das normas estabelecidas? A atitude não é particularmente nova, sendo tão antiga quanto a lenda de Robin Hood. Um olhar cuidadoso sobre a literatura ocidental verá nas obras de Victor Hugo (Os Miseráveis, O Conde de Monte Cristo), Franz Kafka (O Processo) ou, historicamente mais recente, Albert Camus (O Estrangeiro, A Queda) várias histórias que exploraram a natureza vacilante do poder estabelecido e das instituições de justiça e que ajudaram a semear uma atitude cínica diante destas. A época dessa literatura do século XIX é paralela ao surgimento dos três mestres da suspeita: Marx, Freud e Nietzsche, cuja influência nas letras filosóficas seria tamanha, a ponto do cinismo filosófico virar uma espécie de atitude padrão esperada de qualquer um que se engaje com as humanidades. No limite, o século XX chegaria a conhecer o niilismo de cátedra, limite extremo da desconfiança institucionalizada. E na raíz de tudo isso, possivelmente, está o legado socrático da kritike (Κριτική) grega. Criticamos porque desconfiamos e desconfiamos porque somos historicamente críticos. Sim, a crítica não é um fato biológico dado, mas uma benesse/maldição histórica.
A LEI E A MALANDRAGEM
Essa atitude varia de lugar para lugar, mas tomemos o caso mais extremo e familiar para todos nós: o Brasil, terra da malandragem. Se no Japão nos surpreendemos com um lugar onde as coisas tendem a permanecer no lugar onde elas são deixadas, nada poderia ser mais distante de nossa realidade.
Não é que o roubo em si seja glorificado na terra do malandro. No mais extremo dos limites ele até o é, afinal, se for só pra uma cervejinha, que mal tem? Só que a própria sabedoria popular sabe que malandro é uma coisa e vagabundo é outra. Ou por outra, “malandro demais vira bicho”, diria a canção. A questão maior aqui que vinga no imaginário brasileiro é se dar bem, levar vantagem. O que alguns leitores podem interpretar, raivosos, como um menosprezo da brasilidade ou uma nova faceta da Síndrome de Vira-Lata (assim chamado todo acesso de pensamento crítico sobre seu próprio país), a malandragem é um conceito consagrado nas nossas ciências sociais a partir da antropologia de Roberto DaMatta, onde seu “Carnavais, Malandros e Heróis” continua uma leitura mais que recomendada para qualquer masoquista que tenha interesse em entender o Brasil. O malandro é aquele que olha a norma e calcula se aquela norma é justa ou não. Se ela deve ser cumprida ou driblada. O ethos dessa malandragem é chancelado pela famosa Lei de Gerson e por outros tantos ditados populares presentes na cultura popular: alguns mais novos e jocosos como o “hihi levei vantagem”, outros mais antigos como “achado não é roubado, quem perdeu foi relaxado” (curiosamente, catar coisa jogada no lixo é considerado roubo no Japão) e, ainda mais significante, “todo dia sai de casa um malandro e um otário; quando eles se encontram, sai negócio”.
E por que esse último dito é tão significante? Porque na sua raiz revela um entendimento bastante peculiar sobre a natureza de um empreendimento: se alguém faz negócio, alguém está querendo se dar bem em cima de otário, de mané. A ideia de negócio justo é ridicularizada como uma ingenuidade, no mínimo e má-fé no máximo. Se existe uma empresa, ela se sustenta pela exploração e não pelo seu trabalho. Se uma editora vende mangás ou livros em geral, isso quer dizer que ela se dá bem às custas do mangaka e do autor. E não há zona cinzenta nessa espécie de marxismo de boteco. Lógico que essa dramatização sobre o mundo dos negócios está longe de ser um consenso global.
DO ARTISTA OU DO MUNDO: DE QUEM É A OBRA?
Recapitulando até aqui: tentei esboçar alguns abismos de entendimento entre o Japão e o mundo. O primeiro deles foi sobre o entendimento da lei e seu cumprimento. No final, apontamos para uma consequência no mundo dos negócios. Isso servirá de ponte para outro assunto muito importante e muito discrepante: o papel do artista na sociedade e a valorização da arte.
Parte do apego coletivo aos direitos autorais por parte dos japoneses, mais que a média mundial de certa maneira, vem de uma noção popular que é o inverso da morte do autor. Se no nosso mundo antropofágico, a obra lançada ao mundo deixa de pertencer ao autor e passa a pertencer ao mundo que o lê, interpreta e reinterpreta (onde, no limite, pouco importa o que é a história contada e a interpretação vigente), no Japão o autor é absoluto. A palavra original usada, zettai (絶対), indica isso: a palavra do autor é a palavra final. Dono ou dona do mundo fictício criado, o autor é, em outras palavras, soberano.
É importante que essa noção não seja levada de forma levianamente cínica como “mero discurso”, porque ela chega a ditar as formas como adaptações e suas conduções são levadas no entretenimento japonês. Se tomarmos uma obra como Oshi no Ko de exemplo, existe um arco inteiro dedicado a usar das tensões envolvidas nessas negociações como ponto de enredo, como o Arco do Teatro. Como já tive a oportunidade de expor numa das edições do Anime Friends, Oshi no Ko tem o mérito de inserir nos entremeios de sua ficção, uma interessantíssima radiografia do entretenimento japonês. Tanto é que, no pior dos casos, o destrato de uma obra pode custar a vida de seu criador.
Se a reprodução indireta de obras no mercado interno japonês já é motivo de contenda entre os japoneses, pior ainda quando essa reprodução escapa ao mercado formal japonês e entra, de um jeito ou de outro, no mercado informal global e seus gargalos de demanda. Sim, gargalos estes provocados, sem sombra de dúvida, pela própria deficiência dos modelos de negócio japoneses em exportar seus produtos de forma eficiente para o exterior. Mas para muita gente isso não importa: o autor é soberano e, dessa vez, quem morre não é o autor, mas o leitor. Se não está disponível, é porque não é para ser visto, então shouganai (しょうがない). Essa última palavra é uma das mais repetidas atualmente na vida pública japonesa, que demonstra ao mesmo tempo o vício do conformismo e a virtude da resiliência.
Antes de podermos criticar, é preciso estar atento à chance nada desprezível de que por trás dessa defesa intransigente da vontade do artista, não mora apenas um legalismo cego às nuances, mas a própria defesa de um aparato legal que garante a proteção e, acima de tudo, a valorização do fazer artístico. Se isso parece absurdo ou mera desculpa esfarrapada, vale a pena refletir sobre algumas provocações bem pertinentes que apontam para o seguinte: nos países onde mais se declama pela pirataria, onde mais se exalta sua suposta virtude de ser um veículo de marketing, é justamente nesses mesmos países onde, por um curioso acesso de coincidência, menos se criam obras de relevância e demanda internacional para o pirateio. Dito de forma mais franca e bruta: a cultura da pirataria tende mais ao parasitismo do que a uma suposta antropofagia cultural. Não à toa “consumimos mídia”, ao invés de assistir, ler e escutar. Pior para nossos artistas locais, que acabam, na prática, desvalorizados.
Isto posto, o público que contesta a rigidez legal dos japoneses levanta uma objeção bastante válida: é justo que a obra simplesmente suma? Ao passo que somos obrigados a lidar com outra questão: será que essa preocupação nossa chega perto de ser universal?
ENTRE A CONSERVAÇÃO E A EXPERIÊNCIA OU, A QUERELA SASORI-DEIDARA
Nosso entendimento é de que uma obra de arte merece ser preservada como um patrimônio cultural humano. E de patrimônio, entendemos! Somos obcecados sobre. Tudo deve ser preservado. Museus são erigidos há mais de dois séculos para que nada se perca. No limite, essa preocupação se confunde com o próprio legado de uma civilização que herda o legado grego. Heródoto, quando funda a História, é categórico nas suas primeiríssimas linhas:
“Esta é a exposição dos resultados das investigações de Heródoto de Halicarnasso. Seu propósito é prevenir que os vestígios dos eventos humanos sejam apagados pelo tempo e preservar a fama dos grandes feitos produzidos tanto por gregos como bárbaros; entre as questões abordadas está, em particular, a causa da hostilidade entre os gregos e persas.” (tradução livre)
Daí que pelo menos desde a ascensão do Renascimento e a produção artística que sobreviva seu autor pelos tempos, até a formação dos Estados-nacionais que farão dos museus, entre outras coisas, peças de identidade nacional, popularizou-se historicamente a ideia de que os feitos humanos devem ser preservados. Por uma série de motivos que não cabem aqui, porque isso implicaria em começar a discutir o porquê de estudarmos História. E é claro, existem museus no Japão também. Mas até aí o Japão é um Estado-moderno globalizado como qualquer outro, que joga as “mesmas” regras do jogo internacional. Há alguma gradação por lá que evite o sentimento de tragédia que sentimos quando visualizamos vestígios do passado sendo destruídos? Quem nos dá essa pista é o historiador François Hartog, que em um texto primoroso sobre a mania de conservação e patrimonialização a partir da queda do Muro de Berlim, notou o seguinte detalhe na terra de Amaterasu:
Está prevista a reconstrução periódica de certos edifícios religiosos. O fato de que eles são edificados em madeira não explica tudo, pois a reconstrução é idêntica e se faz segundo um calendário fixado antecipadamente. É em particular o caso do grande santuário d´Ise. O templo da deusa Amaterasu, ancestral mítica da casa imperial, é reconstruído de forma idêntica em madeira de cipreste do Japão a cada 20 anos. Instaurada no século VII, o rito continuou até hoje (sem dúvida, com períodos de interrupção). A próxima reconstrução está prevista para 2013. Conta sobretudo a permanência da forma. O dilema ocidental “conservar ou restaurar” não existe. Em compensação, um japonês que visita Paris será (mais exatamente teria sido outrora) chocado pelo esforço desenvolvido para conservar os objetos e os monumentos históricos contra o desgaste do tempo. De fato, a política cultural japonesa não tinha por primeira preocupação nem a visibilidade dos objetos nem a manutenção desta visibilidade. Ela repousava sobre uma outra lógica que era a da atualização. (HARTOG, François. Tempo e Patrimônio. VARIA HISTORIA, Belo Horizonte, vol. 22, nº 36: p.261-273, Jul/Dez 2006)
O longo trecho escancara que, no fazer artístico japonês, a ideia de “conservar” é um estrangeirismo recente. Sim, os templos, as cerâmicas e as pinturas conservam em si uma forma, com seus próprios desenvolvimentos ao longo do tempo, em tema e em estilo. Mas, por mais paradoxal que isso seja, o horizonte estético da arte de uma nação permeada por preceitos budistas é o da impermanência. Tudo aquilo que É, eventualmente deixará de Ser. Os versos que abrem o clássico da literatura japonesa, Heike Monogatari, não deixam sombra de dúvida:
祇園精舎の鐘の聲、諸行無常の響き有り / Os sinos do Templo de Gion declaram a impermanência de todas as coisas
Dois conceitos traduzem esse horizonte estético na experiência japonesa com a arte: wabi-sabi e mono-no-aware. Os dois conceitos são mais vividos no lençol freático do cotidiano do que minuciosamente explicados, traduzidos na sensação de impermanência inerente a todas as coisas e a necessidade de viver aquele instante que jamais voltará, o que a cerimônia do chá de Sen no Rikyu entronizou no conceito de Ichigo Ichie. Cada encontro é único, cada experiência é única. Por isso “a arte é uma explosão”, no famoso dizer de Deidara. O ápice da arte mora no momento fugaz e único da explosão, ou, de modo mais geral, da experiência estética vivenciada. Isso está em um patamar completamente distante à lógica industrial do “consumo”.
Por isso faz todo o sentido quando François Hartog afirma que a lógica da política cultural japonesa seja a da atualização. Não se preserva os objetos em si, mas sim a forma estética que as possibilita em primeiro lugar. Assim como você não conserva a “flor de fogo” (花火) dos fogos de artifício, mas sim o modo de manejar a pólvora e tudo o mais envolvido em sua confecção, para que explosões atualizadas sejam possíveis no futuro, a cada ano novo ou a cada matsuri.
E se essa lógica da atualização também serve às histórias contadas? Há pouco líamos aqui neste site que a inspiração para Ise Katsura escrever Onani Master Kurosawa veio de uma história de amadurecimento chamada Gummy Chocolate Pine, do músico Ohtsuki Kenji. História essa que não li, você provavelmente não leu, mas que qualquer um que leu o mangá sobre Kurosawa e seu processo de amadurecimento, teve contato com um espírito narrativo semelhante ao de Gummy Chocolate Pine, ainda que nenhum de nós o tenha lido. Logo, conservar tanto faz.
É por isso que no final das contas sou tentado a comparar toda a discussão envolvendo preservação ou não da cultura pop com uma discussão entre Sasori e Deidara, a dupla artística da Akatsuki que se bicava por causa de seus ideais do que seria a meta da arte. Dadas as devidas proporções, é claro. Se a perspectiva de Sasori nos parece mais familiar, pelo seu apego à ideia de criar artes eternas, entender a arte explosiva, a arte do instante de Deidara vira um enigma a princípio. Mas um pouco de familiaridade com alguns conceitos artísticos japoneses e o suposto enigma vira uma faceta da arte humana bem mais reconhecível. Não só isso, ela vira fonte de aprendizado. Pois no mesmo texto de François Hartog, ele repara num paradoxo desconcertante sobre o anseio de colecionar patrimônios públicos:
O século XX é o que mais invocou o futuro, o que mais construiu e massacrou em seu nome, o que levou mais longe a produção de uma história escrita do ponto de vista do futuro, conforme aos postulados do regime moderno de historicidade. Mas, ele é também o século que, sobretudo no seu último terço, deu extensão maior à categoria do presente: um presente massivo, invasor, onipresente, que não tem outro horizonte além dele mesmo, fabricando cotidianamente o passado e o futuro do qual ele tem necessidade. Um presente já passado antes de ter completamente chegado. Mas, desde o fim dos anos 1960, este presente se descobriu inquieto, em busca de raízes, obcecado com a memória. À confiança no progresso se substituiu a preocupação de guardar e preservar: preservar o quê e quem? Este mundo, o nosso, as gerações futuras, nós mesmos. (HARTOG, ibid.)
Quanto mais nos apegamos no patrimônio, mas estendemos um presente redundante em si mesmo, que finge preservar em nome de um passado que na prática nos é indiferente e em vista de um futuro que nunca chega. Preservamos e guardamos visando apenas a nós mesmos. O sintoma prático dessa nossa condição histórica são as pilhas de livros que se amontoam, jamais sequer folheados. Ou a listagem de filmes, séries e animes que são assistidos mais para marcar presença no nosso perfil no MyAnimeList ou sites congêneres. Sobra performance, falta experiência. Experiência essa que pode ser resgatada por uma mudança de ponto de vista sobre a arte. Nisso, a experiência japonesa pode ser (e pessoalmente tem sido) fonte de aprendizados originais.
Fechando essa seção, basta apontar, portanto, que essa lógica da atualização, que opera no lugar da nossa lógica de conservação, permite ao público receber de forma mais coesa a soberania do autor. Perder uma obra para o esquecimento pode ser triste, mas a vida continua, pois nada permanece e tudo é efêmero.
MAS E AÍ, O QUE FAZER?
A conversa toda ficou abstrata demais, mas é impossível ser diferente. Antes que se tente fazer algo a respeito sobre a pirataria no futuro, de um jeito mutuamente sustentável, é preciso entender a fundo as distintas realidades históricas que foram costuradas do dia para a noite em dois níveis. O primeiro deles, na globalização. O segundo, com a internet e a digitalização da sociabilidade humana. Pode-se escolher ignorar o problema, mas o problema se faz presente quer queira ou não.
Afinal de contas, a parte pé-no-chão da discussão é unânime: pirataria é um crime. O ideal é não ter. Mas o próprio Japão reconhece que seus efeitos são heterogêneos. Se um estudo profissional chega a essas conclusões, o que dizer do autor dessas linhas que sequer sistematizou sua escrita.
Ao invés de largarmos de mão e cair num lamentável “cada um no seu canto”, o que essa situação toda causada pela união das línguas e a desunião dos conceitos nos mostra é que estamos diante de um cenário de oportunidades. Há demanda! As pessoas querem apoiar seus criadores favoritos para além do mero tapinha nas costas. Mas é preciso um esforço mútuo. É preciso que o modelo de negócios japonês acorde para sua realidade globalizada e tente sair de sua teimosia provinciana e é preciso que não japoneses ao menos comecem a entender que a arte tem um valor não só simbólico, mas material também. Que entenda de uma vez por todas que lucro e faturamento são coisas diferentes e editoras também são parte fundamental do esfoço para que ideias criativas ganhem forma e circulação material, o que implica em riscos. Enxergar os negócios como mera movimentação de explorador malandro para cima de otário explorado, é uma simplificação grosseira de sonhos, ambições, trabalho e muita manga arregaçada.
Outra coisa, bastante importante, é que seja qual solução vier para a informalidade, é importante que ela respeite a cultura com a qual ela trabalha, ao invés de desdenhar. A briga entre japoneses e não-japoneses cessou tão logo uma agência internacional que há muito protesta contra a cultura do mangá de repente começou a promover ela própria um mangá, baseando-se em mentiras sobre a participação feminina na indústria, que desde o início foi tudo menos marginal. Caso esse respeito não for mantido, caso a insistência na localização como maquiador cultural persista, não haverá distribuição oficial que seduza os fãs daquilo que é genuíno. Não dá para tapar o Sol com a peneira e fingir que as pessoas são incapazes de distinguir o autêntico do inautêntico.
Do lado de cá, é preciso que as conversas sejam francas e diretas. O Brasil é um país pobre, apesar do seu PIB sugerir o oposto. Além de pobre, é caro, então as preocupações econômicas giram muito mais em torno do essencial (comida, medicação, vestimenta) do que o não-essencial do ponto de vista da sobrevivência (livros, eletrônicos, assinaturas digitais, etc). Há muita boa vontade no exterior para entender essa realidade econômica que nos empurra a pirataria. Diante disso, é importante que sejamos compreendidos sem maiores romantizações. Não há um Robin Hood hipotético em cena. Se tentarmos justificar a pirataria, no final estaremos dando razão à malandragem nociva que, de desculpa em desculpa, nos joga para o oposto daquela segurança generalizada que tanto se admira no Japão, em oposição às demais low-trust societies.
E por último, mais importante ainda, é a boa-vontade. Se nos pautarmos pelo ruído provocado pelas redes sociais, pelos escandalosos de cá e de lá, cairemos na mesma posição patética da mariposa que acha que a lâmpada é a lua. Nossa realidade não se resume às telas.


