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Há 25 anos, o mangaká Naoki Urasawa estreava “MONSTER”, uma obra que o consagraria como um dos autores mais criativos em narrativa que essa indústria já presenciou.

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Apesar da formação de Naoki Urasawa em economia (o que geralmente não é lá bem associado com pessoas imaginativas), não se enganem: sua pessoa já era íntima da arte desde o colegial, quando músico, paixão que mantém até hoje; e a inspiração do grande Osamu Tezuka foi decisiva para colocar suas inspirações em balões de fala e painéis, ofício que exerce desde 1982, quando da estreia de “Return”.

Isso seguiu pela sua vida universitária, deu forma aos seus sucessos (não esqueçamos também de 20th Century Boys) e sua obra tornou-se o tema da nova exposição da Japan House, “Isto é mangá – A arte de Naoki Urasawa”, em homenagem ao autor que completará 60 anos logo em janeiro.

Como já fizemos um extenso (mas longe de um completo) review sobre o anime de Monster, nossas perguntas focaram mais na história do Dr. Tenma, além de detalhes sobre a exposição e sua recepção. Só temos a agradecer imensamente ao pessoal da Japan House, pela Satomi Maeda-san e pelo próprio Naoki Urasawa-sensei pela atenção prestada.


Você fez uma profunda imersão na influência da Guerra Fria e da queda do Muro de Berlim na Alemanha na história de “Monster”. Trabalhos sobre a “Guerra Fria” são comuns no Japão? Ou é um interesse que lhe é particular?

Não criei a trama pensando em trabalhar especificamente com a Guerra Fria. No caso de “MONSTER”, a primeira ideia foi “e se um garoto que foi salvo por um médico genial se tornasse um humano capaz de cometer homicídio em série…? ”. A partir dessa ideia, investiguei o cenário que poderia ter gerado esse garoto e as razões que o levaram para isso. O resultado dessa investigação dos fatos em sequência temporal, deu origem ao pensamento de que poderia ter sido gerado pela situação do mundo pós Segunda Guerra Mundial.

Como sabem, esse mundo foi criado pelas ações humanas. Tanto coisas boas quanto coisas ruins foram geradas por humanos. Acredito que a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria e muro de Berlim, são os exemplos de atitudes mais energúmenas da humanidade.

Personagens de várias nacionalidades (alemão, tcheco e japonês) desenhados por você são feitos de um jeito que te permite saber de onde estes vieram apenas observando suas características físicas. Você os cria com essa comunicação visual em mente? E como você chegou nesse processo?

Sempre me dizem que ilustro as pessoas de diferentes países com contrastes distintos. Claro que reproduzo as diferenças étnicas tais como o tamanho dos olhos, sobrancelhas ou barbas grossas, etc., porém quanto a outros aspectos, apenas desenho me aprofundando em cada um dos personagens. Me dizem com frequência que o personagem alemão desenhado por mim realmente se parece com um, até mesmo aos olhos de um alemão. Porém, pode ser que ao contrário da expectativa, se os personagens são ilustrados de forma consistente, qualquer pessoa de qualquer país acaba reconhecendo alguma característica humana das pessoas do seu país. Pode ser que essa característica humana seja algo em comum em todo o mundo.

O visual de Johan, o antagonista principal de “Monster”, teve alguma inspiração no cantor David Sylvian, da banda britânica Japan?

Não tive uma inspiração especifica para o Johan. Nas minhas obras não aparecem tantos personagens considerados belos. No “MONSTER”, resolvi desafiar isso e ilustrei um rapaz que seria o mais belo para mim. Eu conhecia a banda Japan desde a época da estreia, mas quando foi decidido que a música do David Sylvian seria utilizada como tema do anime “MONSTER”, fiquei muito surpreso!

Os cenários desenhados (Praga, Düsseldorf, Munique, Frankfurt, etc.) são retratados em grandes detalhes, como se você mesmo já estivesse nesses locais várias vezes. Você chegou a viajar para essas cidades que entraram no mangá?

Para desenhar o “MONSTER”, viajei para Munique e Praga por uma semana. Naquele momento, a história já estava pronta e planejei a viagem conforme a história, mas é muito raro isso acontecer. A maior parte das obras são produzidos sem esse ter esse estudo do local. O Katsuhiro Otomo desenhou um mangá chamado “Sayonara Nippon (tradução livre: Adeus, Japão”) que retrata a vida de um japonês que vive em Nova Iorque. Quando li esse mangá, pensei que ele já tivesse vivido lá, mas na verdade, ele nunca visitou o local e desenhou apenas com um livro de fotografia de Nova Iorque. Acho que mangakás são pessoas que têm o talento de retratar locais aonde nunca foram como se já tivessem visitado.

Por fim, Urusawa-sensei, o que o senhor pensa dessa capacidade que o mangá tem de conectar públicos tão distantes e tão distintos como, por exemplo, o Brasil e o Japão

As pessoas dizem com frequência que Brasil é o país mais longe do Japão, mas talvez pela influência da imigração, se pensarmos no ponto de vista do intercâmbio cultural, temos muitas semelhanças. Além disso, a compreensão com relação ao mangá é muito boa e parece que os meus mangás, que são considerados complexos até pelos japoneses, são lidos com frequência. Entrelaçar as culturas ultrapassando a distância geográfica. Eu ficaria feliz se esse tipo de interação ocorresse cada vez mais.