Batendo recorde de aprovação na Crunchyroll, The Rising of the Shield Hero (Tate no Yuusha no Nariagari) dividiu opiniões na Temporada de Inverno 2019 e empolgou alguns que esperaram por meses até o aguardado julgamento.

Neste Review, vamos tocar um pouco em alguns desses motivos que fizeram do anime um tópico recorrente, bem como se perguntar se suas polêmicas valeram de alguma coisa ou foram coisas do momento.

Valeu a polêmica?

A coisa toda era pra ter sido apenas a história de um homem buscando limpar o seu nome de uma acusação injusta, mas alguns cantos aqui e lá da internet se exaltaram por duas coisas: primeiro, pelo anime colocar seu protagonista como uma falsa acusação de estupro; segundo, por esse herói renegado e tornado um pária ter recorrido à ajuda de um vendedor de escravos. Segundo alguns, o autor (ou a autora, não sabemos) de Shield Hero cometeu o terrível crime de usar de ficção numa obra de… ficção.

Antes de continuarmos, um comentário importante sobre a questão: até o final do anime, não fazíamos a menor ideia do quão de nicho ou não eram essas discussões a ponto de nublar o valor do anime como um todo. O tempo foi passando e a impressão que se tinha era que o anime estava sendo muito bem apreciado, obrigado, porque não era muito difícil enxergar que havia mais no anime do que supostamente desmerecer vítimas de crimes hediondos ou apologias ao trabalho escravo. Essa impressão virou certeza quando o IntoxiAnime noticiou o suporte inédito ao staff de Tate no Yuusha, com nada mais nada menos do que trinta mil comentários apoiando o time e pedindo por uma segunda temporada. É mais de oito mil! Então adiantando: as polêmicas não valem uma resposta elaborada; um breve comentário sobre cada um desses dois pontos basta.

Quanto ao primeiro motivo de ultraje, da Myne ter inventado uma acusação de estupro contra Naofumi, por um certo tempo tivemos socos desferidos em ponta de faca: “a situação é real” versus “isso é um exagero de algo tão raro que nem merece ser dada a importância”. Como a arte imita a vida e esta, por sua vez, imita a arte de volta, o escândalo envolvendo Neymar e as confusões de sua acusadora em manter sua acusação coesa e coerente voltaram as atenções para Shield Hero, ou “Tama no Yuusha”, a lenda de Neyfumi, o “Heroi da Bola”. Assim, tivemos uma pá de cal jogada no assunto.

 

Agradeço ao xará, @ErikTanimura, por permitir a reprodução

A outra questão trata da escravidão. A situação é um pouco espinhenta, mas um ajuste de foco no jeito como enxergamos o anime facilmente dissipa qualquer má visão da coisa toda. Se enxergarmos Shield Hero com uma lente globalizante, vemos a história de um homem que, para sobreviver, recorre à compra de uma escrava para poder ter alguma chance em batalha. Mas, se largarmos os vícios que o abuso da semiótica em excesso costuma trazer, evitamos uma miopia interpretativa (ou superinterpretativa, como receava Umberto Eco) e conseguimos apreciar a obra pela qualidade de seus personagens em suas particularidades e não por aquilo que eles possam ou não representar de bom ou de ruim.

Vemos então, finalmente, a história de Naofumi Iwatani, que tem seu destino ligado ao da pequena Raphtalia, que será a única pessoa que irá amá-lo genuinamente num mundo hostil por todo canto.

Então consideradas todas as coisas: a traição que Naofumi sofre, a desconfiança crônica que ele desenvolve por isso, o fato dele ter sido demonizado e isolado por todo o reino, dificultando ter algum aliado e o fato dele ter apenas um escudo e nada mais como arma, todas essas coisas o levaram a esse último recurso: uma aliança moralmente dúbia com um mercador de escravos que mesmo até agora não sabemos nada sobre de onde vem ou quais são seus motivos: mais material para desenvolver em temporadas futuras. Nada disso configura uma apologia à escravidão, pelo amor do bom senso, mas um cenário dentre inúmeros que só a imaginação possui a total liberdade de aplicar à sua ficção.
E se mesmo assim nada disso parece convincente, apenas assistam o episódio onde Raphtalia enfrenta seu carrasco. As imagens falam por si.

Vencendo o Ressentimento

Quando Naofumi resolve comprar Raphtalia, sua atitude revela um ressentimento contra todos, fazendo com que enxergue todos como uma ameaça pronta a conspirar contra ele no primeiro descuido. Ao invés de tentar as guildas de aventureiro, ele precisa de uma certeza de ter alguém que não irá traí-lo e o Selo de Escravidão é a sua certeza. De fato, por muitos episódios, Naofumi não consegue enxergar Raphtalia além de uma ferramenta para sobreviver, mas ao mesmo tempo em que imperava essa indiferença, ele mantinha um cuidado para a demi-humana, pois via nela uma semelhança: alguém vista com desconfiança, quando não com hostilidade, aos olhos de todos. Como dito numa entrevista com a equipe de Shield Hero, Naofumi é um espelho moral que age de acordo com quem age com ele.

Em certo ponto, o ressentimento de Naofumi deixa de ser apenas um traço de sua personalidade para virar uma arma feroz e altamente destrutiva quando ele absorve o cadáver de um dragão amaldiçoado, que ganha força com todos esses sentimentos reprimidos no interior do Herói do Escudo. Quem teve o prazer de assistir Jigoku Shoujo (Hell Girl) aprendeu com Enma Ai que “o ódio é uma faca de dois gumes”, que fere igualmente alvo e usuário; com Naofumi não é diferente. Seu poder amaldiçoado lhe confere grande poder, mas que consome mais e mais de si, quase o matando na luta contra o principal conspirador dessa temporada.

O jeito como foi desenvolvida a confiança e o afeto entre Naofumi e Raphtalia, como ele relutantemente foi cedendo ao carinho de quem cresceu admirando as histórias que seu povo contava sobre o Herói do Escudo e como ele viria na hora da necessidade, essas coisas culminam num momento bastante emocionante, onde Raphtalia segura e conforta Naofumi em seus braços, abraçando toda a dor causada pela traição. O duelo farsante contra o Herói da Lança, o típico idiota bem intencionado que abdica de qualquer neurônio para ser o cavaleiro branco pronto a proteger a donzela em perigo, marca o momento de Naofumi e Raphtalia como um dos melhores casais da temporada. Ainda que, é claro, a expectativa de um romance sempre fique na expectativa, já que Naofumi, além de denso, trata a companheira mais como uma filha a ser protegida do que como um par romântico.

A relação entre os dois é a ponta maior de uma lança que também envolve a amizade com a Philo, uma pequena menina, descendente real de uma espécie de aves chamada “philolial” e a Melty, que dá a Naofumi alguma prova de virtude dentro do Reino de Melromarc. Conviver e lutar com essa equipe faz com que Naofumi vença seu próprio ressentimento e passe a ser um Herói capaz de confiar novamente. E assim, a ameaça de um dragão de ódio consumi-lo é apaziguada.

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Julgamento Catártico

A catarse é uma expressão comum no teatro grego e abundante no teatro de Shakespeare. Apesar de bem conhecido, a interpretação de katharsis é uma celeuma sem fim, mas mesmo assim continua sendo concebida como uma noção de uma descarga emocional, de um herói que passa da felicidade para a infelicidade, para então chegar ao momento catártico, ao momento em que “prestamos contas” com a tragédia.

E meus amigos, se esse julgamento no episódio 21 não foi uma catarse por excelência, eu não sei mais o que é! Depois de 20 episódios mentindo, manipulando e conspirando, aproveitando-se da boa fé de um idiota (desculpa gente, Motoyasu não dá) e chegando ao ponto de planejar a morte da irmã, ter cada uma de suas mentiras expostas em público e sua imagem levada ao nível que merece, simplesmente foi difícil não pular de empolgação, coisa que há anos não acontecia comigo vendo um anime!

Que me perdoem os xiitas de mangá, mas o julgamento no anime passou uma impressão melhor do que no mangá. Claro, isso é puramente pessoal, mas não vou apenas dar uma cartada de “é minha opinião” sem explicar nem nada. Esse tipo de preguiça mental não me desce bem.

O que me fez apreciar mais o julgamento no anime foram duas coisas: primeiro, o fato de o julgamento ter ido às vias de fato, com guilhotina e tudo, quando no mangá tudo se resolveu na sala do trono. E segundo, o que foi ainda mais impactante, foi o momento em que a Myne resolveu implorar por sua vida. Quando ela vê que seu cavaleiro branco não tem como contrariar as ordens da Rainha e o fio da navalha está logo prestes a decepar sua cabeça, num instante de desespero o “diabo do escudo” vira Naofumi-sama! Sama! Isso acompanhado de uma expressão muito bem reproduzida do mangá, de submissão desesperada pela própria vida. Nessa hora o sangue chega a subir a cabeça, mas Naofumi entende que morrer é fácil demais. Morrer não bastaria para expiar toda a humilhação que ele passou: vemos então nascer a ex-princesa Vadia, de codinome Biscate, filha do ex-rei Lixo. A humilhação foi paga não com sangue, mas com humilhação vitalícia. Catarse teatral no seu sentido mais famoso!

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The Rising of the Shield Hero (Imagem Divulgação)

Conclusões

O episódio 21 terminou com cara de final de temporada, mas o anime pretendeu encaixar mais um curto arco até o episódio 25. Foi apressado, mas funcionou o suficiente para que Shield Hero implorasse por uma segunda temporada. Existem muitas coisas para serem explicadas: os heróis antepassados, essa aparente “guerra dos mundos” entre os Heróis das Ondas e os Heróis que protegem o mundo das Ondas, isso sem falar no Naofumi, agora novo lorde das terras do vilarejo da Raphtalia, reconstruído e com novos sonhos.

Como dá pra ver, a lenda do Herói do Escudo só acabou de começar. A primeira temporada foi apenas a luta para limpar o seu nome e toda a mitologia deste mundo, já bem explorada em mangás e visual novels, está aí para ser trabalhada em novas temporadas. Coisa que a Crunchyroll, uma das principais parceiras desse projeto, parece já bem motivada para realiza-la. Esperemos!

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