A noite de Baba Yaga, da autora japonesa Akira Otani, chega às livrarias pela Estação Liberdade com uma lista expressiva de prêmios internacionais e uma proposta que mistura thriller, drama psicológico e reflexões sobre poder, gênero e sobrevivência. O romance foi o primeiro livro japonês a vencer o CWA Dagger na categoria de ficção policial traduzida, em 2025.
Um romance de estreia premiado internacionalmente
Além do CWA Dagger, o livro conquistou o prêmio de melhor tradução pela escolha do editor no Crime Fiction Lover (2024) e o prêmio de romance de estreia no CrimeFest Specsavers (2025). Os reconhecimentos colocam Otani entre as vozes mais relevantes da literatura japonesa contemporânea.
A história: violência, proteção e dependência mútua
A trama acompanha Yoriko Shindō, uma mulher com habilidades marciais excepcionais e deslocada da sociedade, que é raptada pela Yakuza para servir como guarda-costas de Shōko Naiki — filha do chefe da organização, aparentemente frágil e envolta em mistério.
O que começa como uma missão de vigilância evolui para uma relação ambígua, marcada por tensão, fascínio e uma intimidade cada vez mais perigosa. Os papéis de vítima e agressora, protetora e prisioneira tornam-se intercambiáveis à medida que as duas personagens se aproximam.
Imagem Divulgação / Estação Liberdade
Escrita enxuta e atmosfera densa
A prosa de Otani é descrita como crua e cortante, mas capaz de momentos de inesperada delicadeza. A autora constrói uma atmosfera que espelha o estado emocional das personagens, explorando os limites entre proteção e dominação, liberdade e aprisionamento.
O título do romance remete à figura do folclore eslavo de Baba Yaga — entidade sobrenatural cujas ações, boas ou más, dependem de quem a encontra. A referência reflete o espaço moral instável que o livro habita, onde perigo e afeto coexistem.
Quem é Akira Otani
Nascida em Tóquio em 1981, Akira Otani começou sua carreira escrevendo para a indústria de jogos eletrônicos. Estreou na literatura em 2018 com a coletânea de contos Kanpeki ja nai, atashitachi (Nós não somos perfeitas), seguida do livro de ensaios Douse karada ga meate desho (2019). Sua obra transita entre o noir, a literatura psicológica e o romance literário, com foco em questões de gênero e relações humanas.
São essas palavras que abrem os episódios de Shiboyugi. A ideia da obra não é nova, um misto de battle-royale com suspense que lembraria talvez um Mirai Nikki ou Danganronpa, pra citar dois exemplos mais marcantes. Quem é mais de assistir séries achará paralelos bem nítidos com Round 6, ainda mais com a questão de participar de uma série de jogos mortais pra conseguir escapar da penúria. Porém já deixo o disclairmer de que o autor destas linhas é um zero à esquerda quando o assunto são séries, então cesso minhas comparações de imediato.
De fato, história é a menor das preocupações da adaptação para anime da novel de Shiboyugi, ou “Jogar Mortais para Colocar Comida na Mesa”. Sua sinopse não ajudou a deixar o anime mais previsível. Mas, cracudo de maid que só, o poster estonteante de lindo ligou meu alerta. Um vem e vai daqui e um vem e vai de lá não sabia se assistia pelos visuais ou deixava a preguiça de arriscar topar com mais um anime edgy falar mais alto. Ui ui, sangue, olha como esse anime é de adulto…
Então veio a estreia de Shibouyugi e as pessoas piraram na internet. Fui ver o que aconteceu pra ter causado toda aquela comoção online.
E pirei junto.
UM ANIME FORA DO CONVENCIONAL
Por que? Porque Shiboyugi foi tudo menos convencional. O anime mostrou que tão importante quanto que história você quer contar é o como você vai contar. E a direção de Souta Ueno, que rendeu elogios pela abordagem original em Gimai Seikatsu, atingiu níveis de criatividade em Shiboyugi que me confrontou com uma triste realidade: os animes são mais previsíveis em suas fórmulas do que gostaríamos de admitir, dando alguma razão a Hiroki Azuma no seu famoso livro Otaku: Japan’s Database Animals. Com nossos gêneros, arquétipos, clichês, todos bem documentados e encabeçado em fanbases, formam uma cultura otaku que se autoreferencia numa intensa autofagia que tem a desvantagem de ser bem menos inovadora quando sobreposta à cultura cinematográfica (e aqui uso num sentido de cinéfilo mesmo).
Souta Ueno definitivamente tem o mesmo ardor pelo cinema de um Hideo Kojima da vida; de quem já viu de tudo um muito e expandiu pra muito além de Hollywood e Cannes. E essa paixão é aplicada em suas direções em animes (vá saber como!), formando uma experiência audiovisual completamente fora da curva. O que se espera de um anime, ainda mais nestes anos, é ação a rodo, aura a rodo e muito material para edit de TikTok poder divulgar o trabalho da produção internet afora.
Imagem Divulgação / Kadokawa
ASSISTIR É CONTEMPLAR, PERO NO MUCHO
Shiboyugi não tem nada disso. Na verdade, o seu extremo oposto. Porque enquanto Frieren volta e meia é elogiado por trazer de volta o elemento contemplativo à experiência de assistir animes em tempos de lapsos constantes de atenção, Shiboyugi cai naquele meme do cinéfilo e sua predição pelo cinema iraniano em preto e branco. Fotografias panorâmicas que não se importam em detalhar as personagens, longuíssimos momentos estáticos que te obrigam a se colocar no ritmo do anime (principalmente no quinto episódio!), a dinâmica desse anime realmente não é pra qualquer um. Ele tem lá suas cenas de ação, mas no todo é vagaroso, o que rende algumas reclamações de espectadores mais ansiosos. E o pior de tudo é que não dá pra reclamar de quem não gosta, pois como eu disse, não é pra qualquer um. Escrevo isso com uma risada no rosto, lembrando o comentário de um amigo que “esqueceu que meu anime favorito é Mushishi”.
Sim, a experiência contemplativa soma pontos pessoais à experiência. Mas não é porque este colunista gosta de viajar vendo anime. Souta Ueno constrói suas cenas no passo certo para criar a tensão das situações vividas pela Yuki e as demais jogadoras dos jogos mortais. E não somente! Shiboyugi é os jogos vividos, morridos e sobrevividos pelas personagens, bem como o peso dos traumas e remorsos pós-jogo.
A ESTRUTURA DO ANIME
Com um primeiro episódio de quase cinquenta minutos digno de aplausos pois absolute cinema, o anime de Shiboyugi se presta a apresentar, na medida do possível, o universo da light novel em formato audiovisual. Se adaptar um mangá já vem com seus percalços, adaptar uma light novel eleva essas dificuldades à décima potência. Pra listar aqui algumas delas, quase sempre um anime vai adaptar uma obra inacabada e quem viu Gintama sabe como isso é arriscado. Outro problema está no público, que quase sempre entende patavinas sobre a diferença entre mídias e esperará a mesmíssima estrutura narrativa de um texto transplantado vis-a-vis à estrutura narrativa audiovisual. No todo, vira uma dor de cabeça generalizada. Vira bagunça, vira discussão online… nessas horas é melhor desligar o celular e esperar o hate em Fate Strange Fake passar.
Minto, Shiboyugi. É sobre Jogos Mortais Moe que falávamos. Pois bem. Após o primeiro jogo, o resto do anime apresenta o restante dos jogos em partes, o que é inevitável quando se está preso a um formato de vinte minutos. Há mais um jogo para introduzir uma rival à Yuki, um quinto episódio primoroso demonstrando um acesso de culpa do sobrevivente numa personagem cujo objetivo final é completar noventa e nove jogos. Quando ela finalmente consegue completar seu trigésimo jogo, Shiboyugi finaliza com um flashback; um dos primeiros jogos de Yuki, particularmente traumático e que apresenta as razões da protagonista.
Imagem Divulgação / Kadokawa
SURPRESAS POSITIVAS
Por que um jogo macabro num mundo doentio poderia ir além e virar um trauma, como é o caso desse último jogo? A imagética de Shiboyugi pode ajugar a explicar. Numa palavra, as personagens (vítimas?) do jogo não sangram. No lugar de sangue, há pelúcia; como se essas meninas fossem bonecas em meio a um jogo sádico. Aqui admito que esse elemento me atraiu ainda mais à obra. Carioca sou e de sangue meu dia a dia é cheio. Qualquer portal de notícias de rede social daqui terá todo o tipo de sangue e gore e piadas sádicas a um click na palma da mão. (hihi, morreu de covid kkkkk)
Se algum dia gostei de gore, esse dia não durou mais que doze horas. Por isso acho uma tremenda injustiça viver num mundo onde Blood C seja mais lembrado que Blood+, sendo que o primeiro marcou por causa de uma sanguinolência sem rima nem razão, enquanto no segundo havia Saya, Diva e Hagi. É a vida, pão e circo. Por isso bocejei com a proposta de Shiboyugi no começo. Um desperdício de beleza destinada à morte, o que, parando pra pensar, é o destino de toda a beleza, já diriam os budistas.
A quebra de expectativa em ver pelúcia ao invés de sangue, uma mecânica existente de fato na light-novel que garante a cura de qualquer ferida não letal (como a reposição de braços ou de pernas), dá um alívio inicial que permite a este espectador em particular, imerso num mundo violento e sanguinolento, a se permitir algum grau de alienação. Não dá pra ser cítrico o tempo todo.
Porém porém!!! Alguns episódios depois na psique de Yuki e as pelúcias passam a ter outro sentido: a visão de alguém que se acostumou a matar, se acostumou a deixar quem fosse preciso morrer e se acostumou a fazer da morte seu ganha pão. Isso não é feito sem um mínimo de dessensibilização, o que nossa protagonista “fantasma” definitivamente o é. O que não significa que Yuki seja uma assassina, mas uma sobrevivente. A diferença é fundamental nos últimos episódios. A sobrevivente mata porque é preciso para viver o dia seguinte; a assassina ganha gosto pela coisa. E não há pelúcia que consiga disfarçar a selvageria servida pela principal antagonista desta primeira temporada.
CONCLUSÕES
Adverti de primeira e segunda e advertirei de terceira: Shiboyugi não é pra todo mundo. Não foi feito para os impacientes. No mínimo do mínimo eu peço para que todos assistam o primeiro episódio, uma gema em si mesma. O restante do anime não diminui de qualidade; só requer a atenção e imersão nas medidas certas para apreciar com justiça este trabalho de animação completamente original.
O quinteto feminino de Rock Visual-keiexist†trace confirmou sua primeira turnê na América Latina, ‘CHANGE THE GAME’ para abril de 2027. A turnê acontece em colaboração com a banda HEAD PHONES PRESIDENT e deve passar por vários países latinos, incluindo o Brasil.
Então, esta será a primeira vez de uma banda feminina de visual-kei se apresentando na américa Latina. A turnê é uma produção exclusiva da R.I.T Agency (Right in time Brasil), produtora que tem sido responsável por trazer diversos artistas da cena visual-kei para as américas.
Por fim, ainda não foram divulgadas informações sobre as vendas de ingresso, mas devem acontecer em breve, com comunicados nas redes sociais da banda e da produtora, então fiquem de olho.
Ouça ‘WHO I AM’, último mini-álbum do exist†trace lançado em novembro de 2025!
A banda japonesa de Rock Visual-keiDIR EN GREY lançou no dia 8 de abril seu 12º álbum ‘MORTAL DOWNER’. Este é o primeiro álbum completo da banda quase quatro anos, desde o lançamento de “PHALARIS”, em 15 de junho de 2022.
Sendo assim, ‘MORTAL DOWNER’ foi um sucesso em sua primeira semana de lançamento alcançando a 4ª posição no Oricon Charts. Com 14 faixas, o álbum inclui também a canção ‘The Devil in Me’, lançada anteriormente (2024) como single.
Edições limitadas e deluxe do álbum incluem como bônus uma seleção de áudios ao vivo de sua turnê Europeia ‘TOUR25 WHO IS THIS HELL FOR? [mode of VULGAR & Withering to death.]’, além também de um Blu-ray com o vídeo ao vivo do show ‘TOUR25 Kagetsu’ realizado dia 10 de dezembro de 2025 no Zepp Haneda, em Tóquio.
Ouça ‘MORTAL DOWNER’ em sua plataforma de música favorita!
A Pearl Abyssanunciou nesta quarta-feira (15) que Crimson Desert superou a marca de 5 milhões de cópias vendidas em todo o mundo. O resultado reforça a posição da desenvolvedora sul-coreana entre as principais empresas globais do setor de games.
Recepção e desempenho no Steam
O jogo de ação-aventura de mundo aberto vem sendo elogiado pela crítica e pelos jogadores desde o lançamento. No Steam, Crimson Desert registrou pico de 276.261 jogadores simultâneos, número que reflete o engajamento expressivo de sua comunidade.
Entre os principais destaques apontados estão os visuais do jogo, desenvolvidos com a BlackSpace Engine, motor gráfico proprietário da Pearl Abyss, além do mundo aberto rico em detalhes e do sistema de combate imersivo.
Atualizações previstas para abril a junho
A Pearl Abyss revelou na última semana um panorama das próximas atualizações do jogo. As melhorias foram planejadas com base no feedback dos jogadores e incluem desafios ampliados, refinamento de jogabilidade e aprimoramentos de sistemas. As implementações estão previstas para o período entre abril e junho de 2026.
A ASUSanunciou o lançamento do Zenbook S14 no mercado brasileiro. O notebook é o primeiro da marca no país equipado com o processador Intel Core Ultra Série 3 e chega com tela OLED de resolução 2.8K, espessura de apenas 1,1 cm e peso de 1,2 kg. O preço parte de R$ 14.999 na Loja ASUS.
Design ultrafino com material exclusivo
Apesar do perfil compacto, o Zenbook S14 foi construído para durar. A tampa é feita em Ceraluminum, material exclusivo da ASUS que combina a leveza do alumínio com a resistência da cerâmica, garantindo durabilidade sem comprometer a portabilidade.
Desempenho e inteligência artificial integrada
O notebook roda o processador Intel Core Ultra 9 da Série 3, que entrega 40% mais desempenho multithread e 10% menos consumo de energia em relação à geração anterior. O chip ainda oferece até 50 TOPS de capacidade de processamento para tarefas de inteligência artificial.
Por ser um Copilot+ PC, o Zenbook S14 executa aplicações de IA localmente, sem depender de conexão com a nuvem. Isso resulta em respostas mais rápidas, maior privacidade e menor gasto energético.
Bateria que dura o dia todo
A bateria de 77 Wh garante até 27 horas de autonomia. Para recarregar, basta um cabo USB-C comum: em 49 minutos, o notebook recupera 60% da carga, sem necessidade de carregadores com conectores proprietários.
Conectividade completa
Mesmo com o design fino, o Zenbook S14 não abre mão das conexões. O modelo conta com duas portas USB-C Thunderbolt, uma USB-A 3.2 Gen 2, saída HDMI 2.1 e entrada para fone e microfone. A conectividade sem fio inclui Wi-Fi 7 com certificação ASUS WiFi Master Premium e Bluetooth 6.0.
Journal with Witch, ou Ikoku Nikki daqui pra frente, foi uma das estreias mais imperdíveis do recém-nascido ano de 2026. Sensível, tão tão sensível. Sensível e compassivo, porque foi impossível passar pelos episódios do anime alheios às dores e questões de seus personagens no geral e na dupla Asa e Makio, em particular.
Para este texto, algumas palavras sobre essa travessia no deserto que chamamos de vida, que o anime ilustra tão bem e a riqueza de suas protagonistas.
O CHOQUE
Nas últimas semanas, assistimos ao desenrolar de uma trama sobre trauma. Trauma e o processamento dessa quebra abrupta de realidade. A princípio Ikokku Nikki é uma história sobre luto, mas esse luto se insere num desafio mais amplo e universal: como viver bem?
A vida de Asa gira em 180 graus quando, sem rima nem razão, um acidente de trânsito ceifa a vida de seus pais. Como absorver o fato em plena adolescência? Não é como se houvesse Aquele apego romantizado à família; era um apego tão somente… normal. Uma família normal, que se parece com qualquer outra; um misto tolstoiano de uma família feliz que se parece com todas as outras e uma família infeliz que o é à sua própria maneira, do mesmo jeito em que alternamos entre a felicidade e a tristeza. No seu centro, o normal.
Dependendo do nível de elo que haja entre quem lê estas letras e sua família, a própria hipótese levanta lágrimas aos olhos. Uma hora seus pais estão lá. Outra hora não está mais. Não dá pra imaginar o que é mais doloroso, a perda repentina ou visualizar de pouco a pouco a lenta marcha rumo à velhice e o fim inevitável a nós todos. Seja como for (eu realmente não quero fazer esse exercício mental), a história do anime começa a partir da tragédia e temos uma Asa assustadoramente normal, alheia aos cochichos de terceiros até no funeral da família, onde os cochichos e as fofocas ainda importam mais do que a órfã.
Para o desgosto de uma única mulher.
VIDA À PAR
Quem aparece na vida da jovem menina é sua tia, Makio, completa antítese do normal. Atípica em vários sentidos, Makio, que sempre viveu à par de tudo e de todos, não segurou o desgosto em ver tanta indiferença a uma menina que sequer sabe do que será a vida daqui pra frente. “Pra onde ela vai agora?”, “Não sei”, muito cochicho pra pouca atitude. Isso irrita profundamente a tia de Asa, que ironicamente viveu boa parte da vida alheia aos outros até então, principalmente à própria família.
Reagindo ao Absurdo testemunhado, Makio irrompe em Revolta, leva Asa para a sua casa e simplesmente a acolhe. Sem maiores pretensões; Makio não será uma mãe, pois ela própria nunca foi e muito provavelmente jamais será (tem ainda a questão se isso é uma escolha dela, mas isso é outra conversa). E acolher sua sobrinha tem o peso de revisitar assuntos que até então moravam na poeira de lembranças mal vasculhadas: sua relação conturbada e traumática com a irmã. Como sentir afeto e nutrir bons momentos com a cria de alguém que lhe feriu tanto? Sendo mãe e filha, é inevitável que certos traços da irmã de Makio se reflitam em Asa.
Makio nunca soube expressar essas dores. Seu refúgio no deserto foi a escrita. Domar a língua, expandir o seu mundo e os modos como expressá-lo expandindo sua linguagem; estas seriam as estratégias que levariam Makio a fazer da escrita o seu métier e, por acidente, sua carreira. Ao longo dos episódios, a escrita também virará arma na mão de Asa, que sempre nutriu um gosto pelo canto. Cantar por que? Escrever por que? Para quem? Para si e porque sim.
Sim sim, autismos e neurodivergências, eu sei que esses paralelos já devem ter sido feitos à essa altura. Eu diria até, para somar nesse sentido, que a fobia social de Makio muito lembra a de Bocchi, mas num estágio mais sóbrio, ciente de que o mundo não está nem aí e você tem que dar seu próprio jeito. Em Bocchi The Rock chega perto de ser fofo, mas aqui temos a realidade nua e crua. Tem que se fazer dar certo e ponto final.
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RECONCILIAÇÕES
O passar das semanas e dos meses entre Asa e sua tia vem com o pacote completo do processo de adaptação entre duas pessoas, cada uma ferida ao seu modo. Uma pelo luto, outra pelo rancor. Em Asa, temos um comportamento errático, que antes mesmo que se permita processar a morte dos pais, ainda tem que resolver uma questão que muitos jovens não conseguem responder plenamente aos 16 anos:
Meus pais me amavam?
A severidade da mãe da Asa, a austeridade do pai, esses comportamentos tão estranhos, como reagir a eles? Do pai pouco ou nada sabemos. Sequer sabemos por que ele aceita cuidar da filha com a mãe, mas se recusa a casar. E o estigma social (este digníssimo que habita as preocupações de tantos!) de não estar casado depois de certa idade, como a irmã da Makio lida com isso? Logo ela que sempre recriminou Makio por ser tão diferente de todo mundo?
Há uma pista, o diário deixado pela mãe para os 20 anos da Asa. Seu nome, significando “amanhã”, foi escolhido com os desejos de que ela se tornasse quem ela quisesse ser. Um desejo típico de uma mãe à sua prole. Mas o que uma folha pode te dizer? Qual a garantia de que aquele “Eu te amo” seja verdadeiro. O que a mãe da Asa pode dizer na cara da filha? Nada. Ela não pode dizer mais nada. E então a ficha cai…
Aujoud’hui, maman et papa est morte
Os episódios de Ikoku Nikki nos levam pouco a pouco a caminhar os passos de uma garota que, somado aos desafios típicos da juventude, que tenta buscar a si e saber que “Eu” é esse, ainda tem de fazê-lo com o peso do luto nas costas, até o momento em que ele irrompe num choro de rasgar o peito, que te leva a chorar junto. Mamãe e papai se foram. A irmã, outrora odiada, se reflete no choro da avó que teve que enterrar uma filha e conviver com essa nova realidade. E no fim disso tudo, de tantos personagens distintos e com suas próprias tristezas, a pergunta que não quer calar.
Como lidar com a dor?
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A VIDA CONTINUA
“Asa, você acha que sua vida acabou?”. A pergunta vem direta como uma bala de canhão. É o tipo de pergunta que te faz acordar pra vida e essa é a resposta mais curta e grossa que a história tem para nos contar. A vida é uma despedida atrás da outra; sucessão de lágrimas, mas também sucessão de risos. Não há outra coisa a fazer senão sermos quem somos.
Este último ponto é tocado em Ikoku Nikki de maneira calorosamente sensível. Vários personagens entram em conflitos pessoais e sociais para poderem enfim ser quem elas verdadeiramente sentem, naquele momento, que são. E esses comentários sociais são feitos sem aquela necessidade de soar um palestrinha condescendente que te dá lição de moral com um ar esnobe. Eles são feitos com o pé no chão de quem entende que tratam-se de dores reais e pessoais, ao invés de idealizadas e conjunturadas.
Enquanto supera-se um problema após o outro, a vida apresenta seus prazeres. A arte, a música, a escrita, esses pequenas talhas do espírito humano sobre o mundo, que nasceram, nascem e continuarão a nascer da tragédia, da reflexão, da contemplação e de tantas outras experiências humanas, sejam elas parecidas com algum dos personagens de Ikoku Nikki, sejam eles diferentes.
E tais coisas testemunhamos sim em Ikoku Nikki. Saímos dessa experiência um tanto melhores pela qualidade e fina sensibilidade do anime, que é mais que recomendado, principalmente por ter começo, meio e fim, Coisa rara! Joia rara!
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QUANDO MENOS É MAIS
Antes de fechar este texto, uma nota póstuma. Póstuma porque uma entrevista com a diretora de Ikoku Nikki acendeu uma discussão interessantíssima na internet, que me jogou de volta às pressas para este texto.
Não é gratuito que nada tenha sido dito até agora sobre produção, animação, etc. Não é que Ikoku Nikki tenha sido mal produzido; nada mais longe disso! As alegorias que se sobrepõem às situações passadas por Asa não são nada aquém de brilhantes! A passagem no deserto para representar a travessia incerta e árdua da vida, o olhar para o abismo ao se perguntar sobre os sentimentos da falecida mãe, a sensação de estar numa terra estrangeira ao testemunhar duas mulheres adultas conversando; artisticamente a animação do anime não deixa nada a desejar. Ela só não é o foco.
“Se a animação se destacar demais, ela pode nos distrair da história, então eu evitei exagerar, mas fiz questão que a animação fosse meticulosa. Não é uma obra que se apoie em animações chamativas.
Claro, é bom que haja boa qualidade, mas quando há movimentos demais, nossos olhos são voltados para esse movimento. Mesmo nas cenas onde eu quero que a atenção esteja voltada para a performance dos atores ou na música, se a animação é excessiva, ela rouba nossa atenção. Talvez seja isso o que alguns chamam de sakuga (animações incríveis), mas às vezes não é isso que quero passar. Decide onde mover as coisas e onde não movê-las é algo do qual sempre estive ciente desde a fase de roteiro” (tradução nossa)
O sábio comentário da diretora levantou um ponto que já foi levantado em outros textos nossos, principalmente na review mais recente sobre Shiboyugi: tem vezes onde menos é mais. É o tipo de pensamento repudiado por um Malmsteen da vida; mas, a arrogância de um guitarrista tão virtuoso quanto infeliz como o Malmsteen não deve ser considerada. Então avancemos no raciocínio:
O comentário reacendeu uma discussão sobre até que ponto um bom anime pode ser resumido pela soma de seus frames. Ele tem lutas épicas? Ele farma aura? Ele rende edits com trocentas visualizações no TikTok? É claro, ninguém há de negar que exista sakuga (o oitavo episódio de Frieren, meu Deus!), que ele é bom e que existam comunidades de fãs dedicados ao seu apreço. Comunidade essa que não raramente consegue falar sobre animação com muito mais fluidez do que este que escreve.
Mas nem sempre o sakuga é apropriado. Nem toda história o exige. Você pode ter um excelente anime com uma animação mais austera, mas nem por isso menos impactante no uso de suas animações. Timing é tudo. E o tipo de história que tivemos em Ikoku Nikki demanda o tipo de atitude cada vez mais em falta no nosso dia a dia inundado de distrações, mas nem por isso menos importante:
Eu não conhecia o Dirty Honey antes do festival. Ouvi o disco homônimo de 2022 nos dias que antecederam o Monsters of Rock 2026 — e acabei chegando lá já fã. No palco, a banda confirmou tudo o que o álbum prometia: mais maduros, mais densos e com uma entrega de veteranos que contrastou bem com a abertura do Jayler logo antes.
A apresentação começou às 12h30, no pico do calor. Era impossível ignorar a temperatura, mas o Dirty Honey ignorou. E quem estava na grade, suado e de cerveja na mão, também esqueceu o sol rapidinho.
Marc LaBelle: o frontman que desceu ao público e ganhou o festival
O grande nome da tarde foi o vocalista Marc LaBelle. Com uma energia que evoca Axl Rose nos anos de ouro, ele não ficou parado atrás do microfone e até desceu para o público mais de uma vez.
LaBelle impressionou nos tons ultra-agudos, bem na vibe setentista mesmo. Ao lado dele, gostei demais do guitarrista John Notto, com riffs quentes e cortantes, se é assim que posso dizer. Justin Smolian no baixo e Jason Ganberg na bateria não fizeram feio, e completaram na cozinha muito bem.
De Minecraft ao Monsters of Rock: como “When I’m Gone” chegou a uma nova geração
Um dos pontos mais curiosos da apresentação foi o impacto de “When I’m Gone” entre o público mais jovem. A música entrou na trilha sonora de Um Filme Minecrafte ganhou fôlego renovado, atraindo uma fatia de ouvintes que talvez nunca tivesse chegado ao hard rock pelos caminhos tradicionais. No festival, isso foi visível: rostos novos cantando junto uma banda que muitos descobriram pelo jogo.
Não é à toa que São Paulo é a segunda cidade no mundo que mais escuta o Dirty Honey no Spotify. Fazia muito sentido!
Repertório coeso e uma inédita que animou o público
O setlist equilibrou bem hits consolidados como “Rolling 7s” e “When I’m Gone” com músicas mais frenéticas, como “Won’t Take Me Alive”. O momento mais curioso ficou por conta de “Lights Out”, inédita que deve integrar o terceiro álbum de estúdio da banda.
Alguma crítica existe, claro. O Dirty Honey ainda trabalha dentro das fórmulas estabelecidas do hard rock clássico, sem grandes rupturas com suas influências. Mas no contexto de um festival deste porte, casou bem e soou mais como consistência do que limitação.