Já faz um tempinho que Black Hole, lançado pela Darkside Books, está entre nós da redação. Até já havia lido, mas um REVIEW ainda não tinha saído. Eis que lhes trago, uma das maiores obras do renomado Charles Burns.

No Brasil, esta é a segunda vez que o quadrinho chega às prateleiras, anteriormente em dois volumes pela Conrad entre 2007 e 2008, agora sob o selo Darkside Graphic Novel, está em um volume único, capa dura e 368 páginas. Um detalhe bacana é que a tradução continuou com Daniel Pellizari, mantendo o ótimo trabalho que já conhecemos com a editora.

Domínio no Preto: Chales Burns

Black Hole foi concebido por Charles Burns num intervalo de 10 anos, entre 1993 e 2004, em 12 edições e mostra toda o contraste pesado do preto do autor -é difícil de imaginar uma obra como esta nas mãos de outro autor.

Com um design chapado, abuso das sombras marcadas, o drama de consciência que ele trabalha em cada uma das personagens fica mais evidente – principalmente na questão das anormalidades que elas acabam adquirindo (falarei mais sobre isso adiante).

Burns, vencedor do Eisner e de tantas outras premiações, sagra-se um dos melhores artistas com domínio no preto que já vi (junto a Takehiko Inoue, por exemplo) e dá gosto de acompanhar quadro a quadro em Black Hole. Pela questão do tempo em que teve de trabalhar, praticamente uma década inteira, é notado o nível de detalhe que ele pôde alcançar – o que acabamos não vendo com os grandes artistas e desenhistas em obras mais mainstream.

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Black Hole pela Darkside (Foto: Suco de Mangá)

Atmosfera e Dramas Pessoais

Em Black Hole estamos na década de 70, mais ou menos no fim dela. Digo “estamos”, pois a sensação imersiva é evidente, seja no traço, na ambientação e na dinâmica da trama.

Ali, a juventude vive uma época de liberdade exacerbada; parece que tudo tem de ser além do limite. O sexo, as drogas alucinógenas, a violência, tudo isso são pilastras que dão cor no drama pessoal dos personagens.

O principal cerne ali, é de que uma doença sexualmente transmissível – algo próximo do que vemos com a AIDS – está contaminando diversos adolescentes e jovens de uma pequena cidade.

Com medo do bullying social e do preconceito de outras pessoas da sociedade onde vivem, acabam se unindo e tendo diversas ações em comum, seja morando junto, usando drogas ou nadando e acampando numa flores próxima.

O bizarro e o gore da obra é de como essa doença age na pessoa. Cada um, como uma espécie de Sina, um fardo, acaba desenvolvendo uma espécie de mutação. Um dos principais, por exemplo, desenvolve uma segunda boca abaixo da região da traqueia. Outra, um rabo acaba crescendo como uma extensão de sua coluna.

Dinâmica de Enredo

Por se tratar de um HQ adulto, não só pelo teor da trama, mas sim como ela é de fato contada, precisa-se entender dois pontos: primeiro de que não há uma linearidade dos fatos. O autor vem e vai como bem entender, além de trabalhar com alucinações, sonhos e tudo que deixam a linha do tempo heterogênea.

Outro ponto que deixa a obra mais complexa é com relação a sua dinâmica de enredo. Até a metade da obra, você não consegue assimilar muito bem o que está acontecendo. Em sua segunda metade, quando as “janelas” e núcleos vão se cruzando e fechando, tudo começa a fazer mais sentido e aquele sentimento de “acho que precisarei ler mais uma vez para entender melhor” se esvai.

Um Buraco Sem Volta

No momento em que você inicia a leitura, se já estiver habituado com este tipo de obra, é um caminho sem volta.

Mesmo com a estranheza logo de início, seja com as bizarrices, a não-linearidade dos fatos, a arte pesadíssima – espaço branco? Esquece! – o chamariz para seu desfecho aumenta a cada página, com sua ânsia em querer saber dos “porquês” desta obra e do acometimento em cada um dos personagens.

Com certeza, um dos melhores quadrinhos lançados pela Darkside e um dos mais pesados e interessantes que já li. Pronto para encarar este pesadelo alucinógeno e grotesco?

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