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Heróis dos tokusatsus visitam o Rio de Janeiro pela primeira vez! Walter Jones, o Ranger Preto (Might Morphin Power Rangers) e Kihachiro Uemura, o Green Flash (Flashman) bateram um papo bem rápido com a gente na véspera do Rio Matsuri 2020. Confira mais logo abaixo!

Walter, seja muito bem vindo ao Rio! Estamos entrando agora em 2020 e nesse ano você completa 50 anos com a mesma cara de quando gravava Power Rangers o que confirma quando você diz: “Zack don’t crack”. De lá pra cá, você atuou em muitos projetos, até mesmo em Star Trek, então eu queria saber: com uma carreira rica dessas, o quanto você se sente realizado e se ainda existem outras ambições que você queira explorar pela frente.

Walter Jones: É, eu estou muito feliz com as coisas que vieram em minha carreira. Fiz programas de TV que ganharam Globos de Ouro e óbvio, os Power Rangers. Sabe, só com o que essa série conseguiu de merchan com jogos, pogs, action figures e bonecos em vários países importantes pelo mundo, acaba sendo muito difícil superar esse sucesso. E como ator, eu tenho amado a qualidade da atuação com a qual vim trabalhando; gostei muito de trabalhar em The Shield, participei de outros seis ou sete filmes, estou participando de mais um que ainda vai estrear chamado Memoirs of a Fighter. Ele vai ser filmado internacionalmente e estou bem ansioso por isso!

Eu espero poder talvez produzir e dirigir mais no futuro. Tem histórias de minha infância e da minha vida que quero contar, dessa coisa toda bem louca de se passar que foi crescer em Detroit, que era um lugar perigoso e eu era meio bonzinho demais no meio daquela situação. Sabe, ter passado por essa jornada na vida, viajando pelo mundo e conhecendo tantas pessoas incríveis… é eu acho que é isso, escrever e produzir para contar essas histórias.

Isso seria ótimo! Eu tinha pensado em perguntar algo nesse sentido, mas sabendo disso agora eu prefiro muito mais esperar por essas histórias vindas de você mesmo. Eu estive lendo e ouvindo algumas entrevistas suas, pois quero evitar repetir as mesmas velhas perguntas de sempre. Ouvi por exemplo, de suas visitas a hospitais, de como você já fez a alegria de crianças que foram visitadas pelo Ranger Preto e tem uma coisa que eu não vi muito nessas entrevistas e que eu queria saber de você é essa: quando foi que você começou a perceber que estava começando a participar de algo grande? Você já entrou em Power Rangers confiante de que havia chegado a sua hora, ou perceber esse sucesso foi um processo mais lento?

Walter Jones: Acho que isso veio bem aos poucos. Cada projeto que você pega, você vai esperar que ele dê certo, que faça sua marca no mundo de alguma maneira, ou que influencia na vida de alguém. Logo na primeira semana de Power Rangers, diziam para nós que éramos o número um, “Vocês estão num show número um!”. Só que a gente não sentia isso, não tínhamos como saber sabe… eu só fui reconhecer isso nas ruas, quando eu passava por revistas ou guias de televisão e de repente eu aparecia e ficava “Olha, sou eu!” *risos*.

Foi vendo esse tipo de coisa que definitivamente me fez pensar “Oh, isso aqui tá indo bem!”, mas só depois de anos que iria perceber a influência que isso teve. As crianças eram pequenas, foram crescendo e me contando suas histórias. Elas me diziam “Eu fui inspirado por você pra ser o que eu sou hoje” e esse tipo de cumprimento é… de arrepiar! Coisas como “eu virei um bombeiro pois queria ser um herói como você” sabe?

Uma vez eu conheci um cara que nasceu com uma doença nos ossos, ele não podia fazer muitas coisas e ficou boa parte da infância assim. Ele gostava tanto de Power Rangers, que os pais dele o colocaram pra fazer artes marciais; o garoto não podia lutar contra ninguém, tudo o que podia fazer era socar e chutar. Mas ele fez tanto isso, várias e várias vezes que os músculos em volta dos seus ossos enrijeceram a ponto de hoje em dia ele ser o dono de sua própria academia e hoje é um professor de artes marciais! Então são esses tipos de histórias que me fizeram pensar, “Uau, nós realmente fizemos uma diferença”.

Uemura-san, em primeiro lugar, obrigado por sua visita ao nosso país e espero que tenha uma excelente estadia aqui! Agora, o quanto você conhecia dessa paixão que a América Latina tem por tokusatsu?

Uemura: Ah, Facebook! Contact. Many many. Yes! *risos*

Okay, deu pra entender, mas pode responder em japonês sem problemas *risos*

Uemura: Sim sim *risos*, então, muita gente daqui me pediu solicitação de amizade no Facebook e ontem mesmo havia muita gente me perguntando, “Você está mesmo aqui no Brasil não é?!”. Era tanta gente falando e meu telefone tocava tanto que só fui dormir lá pra umas 4 da manhã!

Vou aproveitar a fala do Walter Jones sobre esse impacto de Power Rangers na vida das pessoas e queria saber como você enxerga essa influência de histórias de super-heróis no Japão. Eu sei que em 2012 você foi muito elogiado por ter salvado a vida de um senhor na estação de Akihabara com primeiros socorros e muitos fãs aqui rapidamente associaram o seu ato de heroísmo com a sua atuação em Flashman. Como você vê essas histórias de heróis da justiça influenciando os jovens japoneses?

Uemura: Fiquei pensando muito tempo sobre o tipo de mensagem que eu queria passar quando eu fazia o Green Flash. Eu era um herói, então que tipo de influência eu podia dar para o público? Será que eu estava passando alguma coragem para as pessoas? Eu queria fazer alguma coisa por elas com o meu trabalho, mas ficava sempre me perguntando se eu estava sendo bem sucedido nisso. No meio dessas preocupações, fui aprender a fazer primeiros socorros e ensinar esse conhecimento a outras crianças, visitando escolas de ensino fundamental e médio e foi durante esse tempo que aconteceu esse caso de Akihabara. Fiquei muito feliz por ter salvado uma vida. Na hora eu vi muita gente passando pela estação, mas ninguém sequer parava pra ver se a pessoa estava bem.

Cheguei naturalmente naquela pessoa, perguntei se ela se sentia bem e foi quando eu vi que precisava aplicar aqueles primeiros socorros. Depois da massagem cardíaca e da respiração boca a boca, ela pôde ser levada ao hospital, mas com aquele aprendizado foi tudo bem natural pra mim.

Naquele momento eu pude dizer que havia sido um herói e essa situação foi capaz tanto de me dar esse sentimento de coragem como de passar esse sentimento para outras pessoas.

E você acha que no Japão faltaria mais essa vontade de socorrer por parte das pessoas que passam ou saber como dar esse socorro?

Uemura: Acho que é mais falta de ter esse sentimento de socorrer a outra pessoa. Tem muita gente no Japão que conhece procedimentos de primeiro socorro, mas que precisa ter mais dessa atitude.

Bom, como o nosso tempo é curto, uma última pergunta para o Walter Jones. Aqui no Brasil, a dublagem é uma profissão bastante prezada pelo público e você na sua carreira chegou a dar voz para alguns monstros em Power Rangers. Como um ator que já atuou tanto em frente às câmeras quanto por trás delas, eu queria saber como você sente e percebe essa diferença de dublagem e atuação mais convencional?

Walter Jones: Sobre essa diferença, bem, ambas são atuações. Tem técnicas diferentes; ao criar um personagem sem estar em frentes às câmeras, geralmente você usa o corpo pra ajudar a contar uma história, mas nesse caso você tem que ser mais um pouco mais enfático no uso da voz, dar diferentes nuances, enfim, usar sua voz de um modo que você consiga explicar ao público o que está acontecendo, a excitação do momento, como aquele personagem está usando seu corpo e seus movimentos, tudo isso que você não pode mostrar usando o corpo naquele momento.

No entanto, é um pouco mais difícil quando você está em frente às câmeras, porque nesse caso você leva muito mais técnicas de atuação de uma vez. Ao invés de narrar falas, você tem que manter um ritmo, manter uma noção do que acabou de fazer. Pode ser por que você vai ter de repetir num close, ou num enfoque à distância, ou sobre os ombros, coordenando com outra pessoa que esteja lá, tudo isso é num ambiente que você está criando naquele momento, naquele instante. Comparado a dar uma voz à distância, você não tem nada disso. Você não está necessariamente trabalhando junto com algum ator; eles já colocaram as vozes deles lá, você vai colocar a sua e o grosso do trabalho nessa produção fica com a equipe de edição. Como não é você quem vai ter o controle daquele momento, fica ainda mais importante que você dê o seu melhor.

O Suco agradece ao Nippon Rio Matsuri pela oportunidade única desse bate papo e ao All Dubing Group pelo auxílio com os intérpretes durante a entrevista!