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A era dos vikings é um dos temas históricos que mais fascinam o mundo da cultura pop. O mundo das séries já viveu seus tempos de ouro com Vikings e a subcultura que se formou no Brasil e afora de fãs da cultura nórdica cresceu a ponto de não ter mais nada de “sub” nessa cultura: virou mainstream e o sucesso da série mencionada antes é prova cabal disso.

E quanto a cultura pop japonesa? Levou tempo, mas finalmente sua cota normanda foi preenchida com Vinland Saga. Mangá aclamadíssimo por seus leitores, os 24 episódios que percorreram essa adaptação consegue explicar bem o porquê de tanta admiração. O anime supera expectativas, tanto para novatos quanto para leitores assíduos. A narrativa inacreditavelmente bem construída, soma-se uma direção que soube tocar naquilo que o mangá quis passar para seus leitores.

O resultado é um anime de temática histórica da mais alta qualidade: que te emociona, que te deixa com raiva, que te deixa mal e que te deixa maravilhado, de tão bem feito. Pra complicar: tudo isso junto e misturado, o que é a definição literal de “mixed feelings”.

VINLAND SAGA FAZ O DEVER DE CASA

O comportamento é muito comum entre historiadores, mas eu definitivamente não gosto de ser aquele cara chato do rolê que vai apontar cada errinho em algo que se baseia num passado histórico. O mínimo inevitável, entretanto, é chegar com as expectativas baixas, esperando um abuso mínimo das liberdades poéticas que o autor vai usar e que sem elas a obra ficaria, de fato, chata.

E isso não é de todo ruim. Como para a vida num geral, qualquer surpresa para quem tem zero de expectativas é lucro. E que lucro!

Makoto Yukimura parece ter pelo menos consultado duas peças de literatura histórica sobre os normandos: o Heimskringla e o Jomsvikings Saga. O primeiro é uma história dos reis da Noruega, dentre eles, Olaf Tryggvarsonm. O mesmo Olaf que se tornou o pai do bastardo Askeladd? Improvável, mas certamente inspirado. Já Jomsvikings Saga é um conto bem mais famoso sobre a jornada de um grupo de guerreiros nórdicos. São eles quem aparecem lutando em meio a tempestade no primeiro episódio, na Batalha de Hjröungavágr, com Thorkell e Thors integrando o fronte.

Thors é tão fictício quanto Askeladd. Já Thorkell O Alto foi uma pessoa plenamente documentada em mais de uma ocasião. Assim como em Vinland Saga, Thorkell faz resistência contra o Rei Sueno na Inglaterra e mais tarde se torna comandante de seu filho Canuto. Essa história e outras envolvendo saques, pilhagens e conquistas são descritas em registros como o poema anônimo Liosmannaflokkr (que fala da conquista da Inglaterra pelo Rei Canuto), o Encomium Emmae (uma história do reinado de Canuto escrita em 1041) e as Crônicas Anglo-Saxônicas.

Yukimura recria à sua própria maneira a história da ascensão do rei Canuto, um dos reis mais bem sucedidos da Idade Média. Sua história é um pouco ofuscada pelo fato das campanhas de Guilherme O Conquistador terem acontecido poucos anos após o fim de seu reinado. Mesmo assim, no que diz respeito aos reis normandos, Canuto foi o ápice dessa história; de um reino que conseguiu mesclar Inglaterra, Finlândia e Noruega, ainda que por pouco tempo.

Vinland Saga

A CRUZ, A ESPADA E O REI MODERNO

Uma palavra sobre o mundo que Makoto Yukimura recria em Vinland Saga: a era dos vikings pode ser facilmente bem fantasiada. Mas enquanto nós simplesmente enxergamos pilhagens como uma sucessão de eventos, abstraindo-os numa linha do tempo sem sal, Yukimura põe em evidência os horrores desses anos onde a violência é um lugar comum e ninguém está a salvo. Homens são mortos, mulheres são estupradas e vendidas como escravas e não há nada nesse passado recriado que possa ser simplesmente chamado de maravilhoso.

Nisso, é curioso ver como Yukimura foge um pouco do cliché comum à cultura pop ao colocar a cristandade como uma gota de tentativa de escapar dessa situação predatória. Dos aldeões rezando à mesa, ao bêbado missionário atordoado pelo sofrimento até o jovem príncipe cristão, essa recriação de um mundo medieval não deixar escapar à sua lente o papel da cristandade no dia a dia de pessoas que não contavam com coisas hoje em dia tão comuns a nós, como direitos humanos ou sistemas jurídicos que protegem a vida numa escalar indubitavelmente maior do que no século XI.

Mas eu digo que foge um pouco, pois Yukimura, pessoa contemporânea como todos nós, inevitavelmente acrescenta sua própria dose de modernidade ao retrato dessa religiosidade medieval. Por um lado, o missionário Willibald consegue mostrar um dos métodos mais sutis pelos quais o cristianismo se espalhou pelo norte até pegar toda a Europa no século 10: pela oralidade andarilha. Andando sem destino, falando de um “amor” incompreensível aos que não creem num “Deus mais fraco que Thor”, eventualmente um soldado ou outro demonstrara curiosidade. Como num pequeno buraco em uma grande barragem, foi por essas peregrinações (e por muitos martírios) que esse mundo medieval foi se cristianizando. É bem inusitado ver uma precisão dessas numa obra de ficção.

E por outro lado, Willibald é moderno a ponto de se tornar um monge ateu ao testemunhar o sofrimento de aldeões massacrados impiedosamente. Canuto, implorando à figura da Cruz que se ergue sobre os túmulos dos mortos, eventualmente decide se rebelar contra Deus e criar um reino que não precise de sua ajuda. Esse tipo de pensamento secular é sequer possível para o mundo medieval? Ele está muito próximo do Iluminismo e ainda mais próximo de nós.

Mas verdade seja dita, uma ficção 100% medieval seria simplesmente um saco, reconheço. Yukimura está escrevendo uma história que se passa no século 11, mas para pessoas do século 21. Se alguma coisa eventualmente não comunicar a nós em pé de igualdade, com as convicções do nosso mundo como Canuto o faz, seu apelo como personagem simplesmente definharia.

“NINGUÉM TEM INIMIGOS”

Muito bem. O criador de Vinland Saga soube bem criar um prólogo que pega desde uma das mais famosas batalhas da histórica nórdica até a coroação do Rei Sueno. Ele cria sua própria sequência de acontecimentos para que tudo se encaixa na excelente narrativa que ele quer contar. E essa narrativa só faz sentido nos personagens extremamente bem escritos por Makoto Yukimura.

Comecemos por Thors. Um guerreiro entre guerreiros, que foi capaz de apagar Thorkell, aquele armário humano, no soco. A sua figura de maturidade existe graças a uma revelação súbita durante a Batalha de Hjröungavágr; um entendimento que surge no meio da guerra e lhe faz largar a espada para sempre. De repente Thors percebe a futilidade de seguir matando, matando e matando. Não por covardia, pois seu olhar sempre permaneceu o de um guerreiro. É por ter entendido o que era ser realmente um guerreiro, que ele deserda dos Jomsvikings e migra para as terras gélidas longe da conquista e da invasão.

Nas terras gélidas da Islândia, Thors refaz sua vida com Helga e o pequeno Thorfinn. O frio é rígido, mas o vilarejo distante conhece a paz por anos até os antigos Jomsvikings reencontrarem Thors e intimá-lo a guerrear novamente. Há um contraste bem interessante entre ele e todos os demais homens que vão acompanha-lo. Sendo o único com experiência na guerra, Thors definitivamente não consegue glamourizar ter de lutar como conseguem os mais jovens que sonham com as glórias da vida guerreira, ignorante de seus terrores. Thorfinn, cansado de ser tratado como criança (como toda criança), furta uma adaga guardada em sua casa para sair à guerra com seu pai. Desse momento, segue-se um dos momentos mais ricos do anime.

“Para quê você precisa disso?” / “Para matar o inimigo” / “Ouça bem Thorfinn. Ninguém tem inimigos.”. Essa resposta deixa o menino confuso, ao mesmo tempo em que chocado, quando seu pai deixa bem claro para que serve uma lâmina ao segurá-la com a mão e deixando o sangue escorrer.

O fato é que Thorfinn jamais pensou bem nas palavras de Thors. Sua impulsividade o levou a viajar escondido pra fora do vilarejo, onde ele nunca mais retornaria pelos próximos dez anos. O testemunho da morte do pai e o desejo raivoso de vingança fez da pequena criança um barco sem vela, à deriva num mar de sentimentos primitivos. Durante todo o anime, Thorfinn jamais pensou sobre sua própria situação; antes, via todo seu resquício de humanidade construída pela sua família na infância ser esmigalhado no convívio com os demais vikings, em meio a saques e batalhas. Por toda a mocidade, Thorfinn é uma máquina de matar, que grunhe e xinga, mal percebendo seu talento como guerreiro herdado do pai.

vinland saga

APENAS UM ANTAGONISTA? SOBRE ASKELADD

Dito isto sobre Thorfinn, não resta muita dúvida de que o principal protagonista deste grande prólogo que foi Vinland Saga foi Askeladd. Mas sua construção como personagem é confusa. Não no sentido de ser ruim, longe disso, mas porque o enredo puxa sua percepção para várias direções e no fim das contas consegue até te deixar um pouco mal com isso.

Recapitulemos. Askeladd começa como o líder de um bando de mercenários, cuja única função é pegar trabalhos sujos e pilhar vilarejos até o inverno chegar. Ainda mais, ele é o culpado por matar covardemente Thors, um dos maiores Jomsvikings. Podemos ver como Askeladd vai tutorando Thorfinn de um jeito bem heterodoxo; e ao mesmo tempo em que acaba o criando, ele claramente o manipula para fazer os serviços mais pesados. Pra piorar, nunca fica explícito se ele joga o garoto na cara do perigo por pura indiferença se ele vive ou morre ou por reconhecimento de seu potencial como guerreiro sendo filho de Thors. A nossa percepção, como espectador, de Askeladd é tão ambígua, que chegamos a vibrar com esse bastardo enquanto ele saqueia todo o tesouro de um forte francês ou mesmo nos emocionar enquanto ele apresenta a Thorfinn os restos de uma grande civilização recentemente perdida para eles.

Mas como uma machadada bem dada na nuca, Vinland Saga não quer simplesmente brincar com ambiguidades. No episódio 14, todos nós somos muito bem lembrados, depois de episódios seguidos acompanhado o lado dos vikings, quem realmente Askeladd é. Para poder alimentar seu exército no meio do inverno, não há hesitação alguma em massacrar um vilarejo inteiro. A direção impecável desse episódio faz questão de te mostrar como esse massacre indiscriminado, entre homens e mulheres ou idosos e crianças, é de uma frieza bem maior do que a facilidade banal que se teve de matar inúmeros de uma vez como se conseguiu em nosso último século, numa escala industrial do apertar de um botão. O episódio 14 de Vinland Saga te bota olho no olho da vítima com o algoz. Do som de cada pescoço sendo decepado e cada corpo sendo amontoado numa mesma vala.

Se essa descrição soa desconfortável, é porque assisti-la o é ainda mais. Claro, houve quem vibrasse com esse momento também. Vida viking, etc. Também é possível conjecturar que Askeladd matou por misericórdia, pois aquelas pessoas acabariam mortas de fome e frio de qualquer jeito. Não sei se a frieza de seu olhar dizia realmente isso. Talvez a direção tenha mesmo me manipulado com maestria, porque visto nos mesmos olhos da garota que furtou um anel e teve o azar de sobreviver à matança, nada daquilo podia ser visto senão como uma enorme selvageria.

O impacto traumático desse episódio só aumenta quando pensamos na diferença do que é matar séculos atrás, para o que é matar nos dias de hoje. É verdade que muito foi dito sobre a barbaridade onde a humanidade caiu nos últimos cem anos onde foram criadas máquinas de assassinato em série: as grandes guerras, os campos de concentração, as câmaras de gás, os centros de “reeducação”; muito foi dito sobre como conseguimos chegar em um ponto da história onde a multidão de mortos deixou-os sem rosto. Mas, paradoxalmente, por essas vítimas não terem mais um rosto, matar virou apenas um procedimento, um protocolo, tal qual os dias da semana onde você tem de botar o lixo para fora. Por isso que Eichmann não era um super-vilão como todos esperavam em seu julgamento, mas apenas um homem medíocre.

Já a vila pilhada por Askeladd, personagem fictício num momento real da humanidade, era feita de pessoas poucas, facilmente discerníveis umas das outras. Seus algozes não só podiam como de fato olhavam nos seus olhos implorantes por misericórdia. E a morte não foi suavizada por algum protocolo burocrático ou promessa revolucionária, mas feita do jeito mais cru, a espadas e machadadas, sem distinção de idade ou sexo. Porque esse era o dia a dia dos pilhadores, matar para sobreviver. E essa rotina significava a destruição instantânea de um povoado, como um maremoto que varre uma cidade para fora do mapa.

Isso quer dizer que Askeladd é um vilão ou mesmo um antagonista? Não é nada simples assim. Ele é herdeiro de uma experiência história que lhe é profundamente assimilada em segredo. Como filho bastardo de uma escrava britânica, Askeladd viu de perto sua mãe sonhar esperançosa com o retorno do Rei que libertará seu povo de seu sofrimento até o último dia de sua lucidez. Sua habilidade como guerreiro não é apenas questão de dom. Vinland Saga consegue passar para nós a mensagem de que um guerreiro consegue se destacar dentre os demais quando ele incorpora em si suas convicções e estas tomam forma em sua postura. É verdade para Thors e é verdade para Askeladd.

Trata-se de um dos personagens mais bem desenvolvidos que existem. Vilanesco ao mesmo tempo em que pôde ser um servo leal para Canuto. Astuto, ao mesmo tempo em que conseguia lutar como um autêntico guerreiro mesmo velho. Impiedoso, mas que mesmo assim empurrou um jovem Thorfinn para fora de sua vingança desiludida antes de morrer. Ao mesmo tempo em que é inegavelmente um antagonista, Askeladd é quase como um reflexo mais velho de Thorfinn, refletindo seu próprio protagonismo sendo o principal motor dos acontecimentos do anime.

UM CONVITE IRRESISTÍVEL AO MANGÁ

Já disse em outras ocasiões, mas geralmente não dou muito certo com mangás. Admiro quem consiga vibrar com cada página lançada como acontece com fãs de One Piece, por exemplo. E digo com total sinceridade! A falha é minha que não consegue imaginar os mesmos gritos de ódio que Shizuka Ishigami dá ao pequeno Thorfinn, ou a voz estridente de Thorkell dada pelo grande Akio Ootsuka, o mesmo Iskandar de Fate (e pensar que Thorkell acabou sendo o mongol gigante que eu pensei que Iskandar seria). E eu definitivamente não teria a mesma criatividade da direção que pensou em animar a adaga de Thorfinn caindo lentamente enquanto faz um flashback de tudo o que aconteceu no anime refletido na lâmina. Eu sou atraído por boas atuações, por boas animações e por boas direções como abelhas às flores.

Mas Vinland Saga simplesmente vai ser uma exceção. Ainda que todas as linhas de ação num mangá shounen me soem como um grande Teste de Rorscharch (a falta de imaginação é ruim a esse ponto), o verdadeiro ouro de sua obra está em sua narrativa excepcional. Vale lembrar: em 24 episódios, uma história inteira foi criada, desenvolvida e finalizada para ser chamada apenas de “Prólogo”. Apenas!!!

Não dá pra simplesmente ficar parado, com o mangá tendo atualmente cerca de cem capítulos a mais de onde ele parou no anime. A gente vai querer ver como anda o reinado de Canuto e como ele cresceu. E Thorfinn? Como ele vai se recuperar desse choque? Ele vai dar um tempo na sua vida errante de matanças e iniciar sua “Farmland Saga” para enfim amadurecer? Ele vai ganhar o mesmo olhar para o Além que seu pai e Canuto conseguiram? O mesmo olhar que separar os comuns dos que se elevam?

Há casos onde essas perguntas podem esperar uma segunda temporada, ou um filme (como já foi anunciado). Esse não é um desses casos. O convite para ler Vinland Saga é irresistível e o inicio agora mesmo, terminando este longo Review enquanto dou um dos 5 Suquinhos mais certos para esta que é uma masterpiece entre animes e com certeza o Anime do Ano de 2019 para mim.

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EXTRA: O mangá de Vinland Saga, que conta com 25 volumes até o momento, lançou há pouco um capítulo em colaboração com o novo Assassin’s Creed: Valhalla. Ele é um breve spin-off que se passa durante os anos de Thorfin com o bando de Askeladd. Nessa situação, Thorfin persegue o Assassino viking Eivor, que está em fuga e que é visivelmente mais habilidoso em escapadas. Após nocautear Thorfin numa emboscada, Eivor segue seu destino ao lado de seu corvo, ambos detalhadamente desenhados pelas mãos talentosas de Makoto Yukimura. LEIA AQUI.

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