A Temporada de Verão 2026 dá os primeiros sinais de adeus com a conclusão de uma das melhores estreias do ano na Crunchyroll. Jaadugar: A Witch in Mongolia (Tenmaku no Jaadugar) encantou públicos dos lugares mais diferentes e das mais diferentes posições de maneira unanime.
Ficção histórica de alta qualidade? Drama de vingança e ressentimentos ambíguos? O covil das bruxas que não puderam queimar? Ou apenas mais um trabalho dedicado de corpo e alma à uma adaptação sublime que a Science Saru entrega como poucos? Por ter ganhado tantos corações, pelos mais variados motivos, é fato que projetadas não faltarão. Mas por ora, falemos sobre o que vimos.

O FATO MONGOL
Jaadugar consegue um feito e tanto ao reproduzir um dos períodos mais turbulentos e violentos da história humana com um estilo cartunesco, sem em nada suavizar o impacto dramático de sua história. Como vimos em Angolmois, a expansão mongol no século XIII foi um horror para chineses, coreanos e japoneses. Nestes últimos, as histórias das invasões mongóis ganharam forma mítica; os ventos divinos que destroem os barcos e frustram as investidas dos khans rumo ao extremo oriente inspiram a lenda do kamikaze, que ganharia conotações mundialmente traumáticas em 1941, com o atentado a Pearl Harbor. Além disso, a expulsão dos mongóis foi pedra fundamental no prestígio do que viria a ser o samurai, que a partir desse conflito se dedicará não somente à arquearia, como ganhará a forma tão conhecida de espadachim.
Porém, a aurora mongol foi sentida ao ocidente. Na cidade de Tús, no atual Irã, o assassinato de um mensageiro mongol pelas tropas do Xá selará o destino de incontáveis homens mortos e mulheres e crianças escravas. E entre estas últimas, Sitara, a protagonista de Jaadugar. Se o Islã foi conhecido pelas suas conquistas por todo o Oriente Médio, o norte da África e parte da Europa até a Reconquista, não faltaram momentos onde muçulmanos passaram de dominadores para dominados, de maioria impositiva à minoria submetida.
UM MUNDO AMACIADO?
O próprio anime não dá muito bem essa dimensão no seu primeiro episódio. A cidade de Tús, pacífica, harmônica, rica em vida cultural e intelectual, reluz tanto o brilho de Alah ao ponto da escravidão soar um mero passatempo, com a fileira de crianças sorridentes torcendo para serem compradas por Fátima, a recém viúva que procura uma criada para acompanhar sua experiente escrava loira de olhos verdes como esmeralda (que por isso mesmo, é chamada de Zumurrud).
Se a convivência de Zumurrud e Fátima é amistosa, como foram amistosas muitas relações entre senhores e escravos ao longo da história, isso em nada diminui o fato violento que funda a escravidão. No caso de Zumurrud, onde ela e o irmão são mencionados como vindos “do extremo oeste, nas terras que beiram o mar”, tudo indica que eles são dos balcãs, próximo ao Mar Negro. E, na história da região, bastante indiferente para o nosso dia a dia, milhares de eslavos e eslavas caíram em mãos otomanas, raptados como escravos. Foi essa realidade histórica que a equipe croata do Eurovision 2026 demonstrou em “Andromeda”. Se nos dias atuais, a tatuagem é um escândalo evangélico, as mulheres sicanje tinham na tatuagem o lembrete de quais terras cristãs pertenciam essas cativas.

E quanto à ciência? Se em anos mais recentes o mundo islâmico ficou conhecido pelo obscurantismo e, como um todo, é conhecido por apagar os traços das civilizações antigas por onde passam, Jaadugar tem o mérito de resgatar e popularizar um fato do mundo muçulmano: sua riquíssima tradição intelectual e científica. No jovem Mohammed, amigo que desperta a curiosidade de Sitara, enxergamos como a fé não deixa de ser um motor para a busca da verdade. “Creio para entender e entendo parar crer” disse Santo Agostinho, condensando a realidade da teologia não só cristã, como geral. Entendendo o mundo e a verdade como benesses reveladas por Deus, o mundo pré-laico não deixava de se encantar e perseguir as verdades de um mundo criado por um Deus verdadeiro. Daí o nome antigo da ciência: filosofia da natureza. E os centros intelectuais do mundo persa não faltaram com contribuições marcantes nas mais variadas ciências: matemática, anatomia, medicina, astrologia (que historicamente é bem diferente de saber o horóscopo do dia), contribuições essas que a própria ciência moderna, do alto de sua pomposa arrogância, é obrigada a reconhecer até hoje.

É nesse ambiente que Sitara desperta para o encanto do mundo e seus mistérios, lendo clássicos gregos traduzidos e preservados pelo mundo muçulmano, como Euclides. Só é uma pena que um fato histórico tão elementar do mundo medieval só tenha seu reconhecimento reservado ao mundo islâmico. Quando as ficções históricas voltam seus olhos para o mundo feudal, como em Orb e qualquer isekai de inspiração medieval, a curiosidade científica dos monastérios é ocultado com o mais puro suco de mito da Idade das Trevas, exagerando um obscurantismo religioso pintado e panfletado pelo Iluminismo que o sucedeu.
O DIREITO DE ODIAR
Mas se o blá-blá-blá de um historiador tentando enxergar além das frestas que Jaadugar deixa aberto tende mais à irritação do que qualquer outra coisa, talvez um comentário sobre aquilo que Jaadugar sem sombra de dúvidas expõe de melhor seja melhor recebido. Pois no drama de Sitara, que arroga para si o nome de sua ama assassinada, Fátima, sobreviver sob o cativeiro mongol significa jamais esquecer da dor infligida pelos seus invasores, muito menos deixar esfriar a chama do ódio que clama por vingança.

É assim que Fátima conseguirá se aproximar de Töregene, uma das esposas de Ogedai Khan e vítima da dominação sobre as várias tribos da região da Mongólia, unificadas violentamente sob Genghis Khan. As duas se unem pela dor da perda de seus entes queridos e pelo sentimento odioso de viver em terras inimigas. Se em Vinland Saga aprendemos que ninguém tem inimigos, Fátima e Töregene juram pelos seus passados trágicos ser o fogo que atiçará um barril de pólvora sobre o império mongol.
Desse encontro, Jaadugar passa os últimos episódios mostrando as intrigas políticas entre os mongóis após a morte de Genghis Khan. Os conhecimentos químicos de Fátima ajudam a orquestrar uma conspiração para matar um homem forte demais para continuar vivo. Concubinas, servas, mães, as longas tendas exploram os bastidores da política pelos manejos de mulheres que, ao lado de generais, comandantes e imperadores, orquestravam os rumos para onde o poder seria executado.

E se por vezes o convívio com os mongóis arrisca que Fátima naturalize sua nova condição de vida, a memória dos Elementos de Euclides manchados de sangue renovam suas energias. E Jaadugar é intransigente com esse sentimento. Afinal, a vítima do absurdo, o inocente que sofre a injustiça, tem o direito de odiar? É fácil imaginar que sim, pois a vingança é praticamente um instinto. Nenhuma criança pronta a apontar o dedo com um “foi fulano quem começou!” deixa mentir. O ato de responder e se legitimar diante de uma violência prévia (real ou imaginada) é quase que marcada no DNA, de tão instintivo e automático que soa.
Mas conforme assistia a revolta de Fátima e Töregene, exemplos concretos de vítimas reais reivindicando o direito de não perdoar e seguir odiando a injustiça sofrida vieram à mente. Falo, sobretudo, de Jean Améry, sobrevivente do holocausto nazista que, diferente do otimismo esperançoso (e necessário!) de um Viktor Frankl ou de uma análise visceral da vida sob Auschwitz de um Primo Levi (“É Isto Um Homem?” é leitura obrigatória), Améry, numa coleção de ensaios autobiográficos chamado de “At The Mind’s Limits”, expõe o óbvio de vários corações que decerto ressentiram em silêncio.
Pois o que um judeu tem em comum com uma muçulmana? O mesmo que um apache tem com um visigótico, ou um chinês com um japonês, ou um haussá com um alemão. Todos os povos um dia foram vítimas da violência ao longo de suas histórias. Sem exceções. Os algozes um dia foram vítimas e as vítimas podem perfeitamente virar carrascos no futuro incerto. O que torna o testemunho de Améry dilacerante é a forma crua com que ele expõe suas razões do porquê odiar. Peguemos um curto trecho:
“Wajs, o homem flamenco da SS que – inspirado pelos seus mestres alemães – me batia com o cabo de uma enxada na cabeça cada vez que achava que eu não trabalhava rápido o bastante, sentia que o cabo era apenas a extensão de sua mão e os golpes apenas a manifestação de uma dinâmica da física. Só eu possuía, e ainda possuo, a verdade moral dos golpes que até hoje ecoam em meu crânio e, por isso, tenho mais direito de julgar não só o culpado como a sociedade – que pensa apenas na preservação de sua existência. O corpo social se ocupa apenas em se resguardar e não está nem aí para uma vida que foi danificada. No melhor dos casos, ela cuidará do futuro, para que essas coisas não se repitam. Mas meus ressentimentos estão aqui para que o crime vire uma realidade moral para o criminoso, a fim de que ele seja arrastado para a verdade de sua atrocidade” (AMERY, 1980, p.70)
Se trocarmos o homem da SS por, digamos, Tolui, para quem a conquista, a pilhagem e o assassinato é um fato tão natural quanto respirar. Quem dirá que não é Sitara quem detém a verdade moral de seus feitos, que viu seu lar destruído e seus entes queridos mortos? E não é Sorghaghtani, ignorante dos custos do livro que recebe de seu marido, quem entende a verdade moral da morte apenas quando Tolui morre vítima de uma conspiração assassina?

No mesmo espírito de quem reconhece o direito de não perdoar, por mais escandaloso que isso seja para o senso comum, Thomas Brudholm escreve sobre as virtudes do ressentimento a partir de sua leitura de Jean Améry, um tanto cansado de tanto se falar em “reconciliação”. Reconciliar por que? E com quem? Por mais absurdo que seja exigir do ressentido que se volte no tempo e se desfaça o que aconteceu, é exigida justiça pelos crimes cometidos. E no caso de Fátima, sua justiça será feita com a cumplicidade de Töregene; o intelecto de uma com a influência de outra. Elas serão “as bruxas” que trarão justiça à Mongólia. Declaração oportuna, uma vez que a admiração pelas bruxas voltou à moda.
CONCLUSÃO: O FÓSFORO DA REVOLTA
Jaadugar dá um final catártico a uma história difícil de reproduzir. Muitas espectadoras se empolgaram com a ideia, tão revolucionária quanto gasta, da girlboss que samba na cara da sociedade e grita altas verdades na cara do khan. Muitos fiéis se empolgaram com a representação fiel dos costumes islâmicos, ainda que num momento de derrota. E para manter o momentum, é importante expor o ímpeto dessas mulheres aptas a corroer o mundo por dentro. Jaadugar acaba de punho em riste, expondo a chama cintilante da revolta feminina.
E é bom que pare por aqui. O mangá continua, mas havendo uma segunda temporada, já pipocariam indícios do destino da revolta, que acende como um fósforo para terminar queimado e retorcido. Quem quer que já tenha pesquisado o fim dessa história, sabe que não importa o quão Fátima tenha sido influente e justificada em seus anseios por justiça, a revolta não poucas vezes atua como a antessala da tragédia. E tão trágico como mórbido foi seu fim nas mãos do filho de sua aliada.
Como quer que seja, todos os pensamentos remexidos na cabeça e exposto nestas linhas dão prova da riqueza de Jaadugar, um anime que nos convida a falar além de mongóis e matemáticos. Ele traz o melhor de uma ficção histórica: a aproximação das pessoas que o assiste com sua dimensão histórica, uma vez que esses passados são de pessoas comuns a nós, pois também sangram, ri, choram e vivem, assim como nós, por enquanto, vivemos.
APÊNDICE: A ALEGRIA DE MISAKI KUNO
Não consegui enfiar esse comentário no meio do texto, mas não dá pra enviar essa review sem falar da empolgação de milhões da Misaki Kuno, dubladora da Sorghaghtani e que pela primeira vez em sua carreira dublou uma mulher adulta! Pobre Kuno, seu maior talento virou-se contra si. A dubladora de 33 anos possui, ao lado de Natsumi Haruse e Maria Naganawa, uma das melhores vozes para dublar crianças desta geração. Ela fez a Dou de MaoMusu na temporada passada, uma explosão de fofura, uma protagonista forte em Hikari no Ou, e a passarinho mais fofa de Fate Grand Order, Beni-Enma. Mas com Sorqhaqhtani, Kuno finalmente pôde dar esse passo à frente na carreira, interpretando uma mulher adulta, esposa e mãe. Não faltaram palavras de agradecimento da atriz pela oportunidade, desde a estreia até o último episódio de Jaadugar!

Do mesmo jeito que os papéis de Misaki Kuno mexeram nos instintos paternos do autor destas linhas, é com sentimentos quase paternos que desejo que esse passo se multiplique no seu futuro!




