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Além do Lacinho Rosa | O catálogo de Demi Lovato sem filtro Disney

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Demi Lovato passou boa parte da carreira tentando sobreviver à própria imagem. Enquanto o algoritmo insiste em prendê-la para sempre num acampamento de verão em Camp Rock ou numa coroa de plástico em Programa de Proteção para Princesas, a filmografia dela fora do império do Mickey é um estudo e tanto sobre intensidade, trauma processado em tempo real e um autodeboche que poucos artistas dominam tão bem.

A fase dramática na TV que você provavelmente esqueceu

  1. Prison Break (2ª Temporada, Ep. 4 – First Down)

  • O papel: Danielle Curtin.
  • O momento: 2006, pré-fama global, aparição do tipo “se piscar, perdeu” cruzando o caminho de T-Bag. O curioso não é a cena em si, é a distância entre essa adolescente qualquer de seriado policial e a Demi que, poucos anos depois, estaria cantando pro mundo inteiro em turnê própria — como se a indústria tivesse testado o produto em escala pequena antes de lançar a versão definitiva.
  1. Grey’s Anatomy (6ª Temporada, Ep. 22 – Shiny Happy People)

  • O papel: Hayley May.
  • O momento: o episódio mais citado da lista, e com razão. Ela interpreta uma adolescente diagnosticada com esquizofrenia que tenta arrancar os próprios olhos pra escapar de um ruído constante — até descobrirem que o problema é uma perfuração no ouvido interno, deixando-a ouvir a própria circulação sanguínea o dia inteiro. Rendeu People’s Choice Award aos 17 anos, e há algo quase premonitório em ver Demi, ainda tão jovem, interpretando alguém convencida de estar “louca” quando na verdade só estava sofrendo de um jeito que ninguém sabia nomear direito. A ficção, nesse caso, chegou primeiro.
  1. Will & Grace (11ª Temporada)

  • O papel: Jenny.
  • O momento: mãe de aluguel de Will, com um timing cômico adulto que não deve nada ao tom caricato das sitcoms teen que a formaram. É o tipo de participação pequena que só funciona porque a atriz já não está mais tentando provar nada a ninguém — o oposto exato da postura ansiosa dos papéis anteriores.

O salto para o cinema independente e a dublagem

  1. O drama independente: Tow (2025)

  • Direção: Stephanie Laing | Elenco: Rose Byrne, Octavia Spencer, Dominic Sessa.
  • O papel: Nova, moradora de um abrigo para pessoas em situação de rua.
  • Por que importa: selecionado para seleção oficial do Festival de Tribeca, o longa marcou o retorno de Demi à ficção dramática em cinema depois de seis anos fora das telas. Nada de vaidade aqui — é papel coadjuvante, sem arco de redenção pessoal, sustentando o filme de dentro pra fora em vez de roubar cena. Depois de uma carreira inteira sendo o centro de qualquer narrativa sobre si mesma, há algo quase radical em aceitar ser só mais uma peça funcionando bem dentro do conjunto.
  1. As animações fora do padrão

  • Os Smurfs e a Vila Perdida (2017): dá voz à Smurfette, injetando energia bem mais autônoma numa personagem que, por décadas, existiu só pra preencher a cota de “a única garota da vila”. A ironia de uma mulher que passou a vida sendo reduzida à própria imagem dublar justamente a personagem historicamente reduzida à própria existência feminina não passa despercebida.
  • Encantado (Charming, 2018): dubla Lenore, ladra cética que zomba de conto de fadas — o oposto quase cômico da própria trajetória de Demi dentro do universo Disney, que viveu (e sobreviveu) o conto de fadas por dentro. Também assinou a produção executiva da trilha.

A estreia na direção e o desmonte da narrativa

Child Star (2024) — Documentário (Hulu / Disney+)

  • A premissa: codirigindo ao lado de Nicola Marsh, Demi investiga os custos psicológicos e financeiros do estrelato precoce.
  • O elenco de entrevistas: conversas sem blindagem com Drew Barrymore, Christina Ricci, Raven-Symoné e outros ex-astros mirins.
  • O diferencial: a recusa ao papel de vítima perfeita. O documentário funciona quase como metalinguagem da própria carreira dela — a habilidade rara de dar uma entrevista admitindo que a entrevista anterior era só fachada, e fazer isso com autoironia suficiente pra convencer quem assiste em vez de simplesmente cansar. É o tipo de honestidade que só existe depois de já ter mentido sobre a própria vida em público repetidas vezes e ter aprendido, na marra, o preço disso.

O veredito

Fora do circuito de coroa de plástico e acampamento de verão, a trajetória de Demi Lovato no audiovisual revela algo mais interessante do que só “artista pop que também atua”: um estudo de caso sobre o que sobra de uma pessoa depois que a indústria já extraiu dela tudo o que queria extrair, e ela resolve usar o que sobrou pra contar a própria versão da história. Não é uma sobrevivência discreta. É sobrevivência com crédito de direção.

Turnê “It’s Not That Deep”

A cantora Demi Lovato traz sua turnê “It’s Not That Deep” ao Brasil. A apresentação acontece no dia 15 de setembro na Suhai Music Hall, em São Paulo. Os ingressos estão à venda pelo site www.ticketmaster.com.br.

A era “It’s Not That Deep” retoma o som dance-pop de álbuns anteriores de Demi, celebrando liberdade e desinibição. O projeto foi precedido pelos singles “Fast”, “Here All Night” e “Kiss” — este último deu origem ao título do álbum, com o verso “não é tão profundo assim, a menos que você queira que seja”.

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Ana Duarte
Ana Duarte
Jornalista. Metida a crítica audivisual. Amante da sétima arte. A garota levemente viciada em séries. Consumista de cultura POP e filmes clássicos da Disney

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