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Demi Lovato abraça o synth-pop em “It’s Not That Deep”

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Depois da catarse sonora e guitarras distorcidas que definiram a era Holy Fvck — momento em que Demi Lovato expôs feridas acumuladas em um dos discos de rock mais viscerais de sua carreira —, o anúncio de It’s Not That Deep soou, em um primeiro instante, como uma mudança abrupta de rota. Trocar a raiva libertadora por sintetizadores cintilantes parecia arriscado. Bastam algumas audições, no entanto, para constatar que a artista não deu um passo atrás: deu um passo em direção à própria tranquilidade.

O novo trabalho não tenta competir com o peso do antecessor porque compreende que a urgência deu lugar à leveza. Sem a obrigação de provar maturidade pelo sofrimento, Demi constrói um álbum confiante, direto e focado na coesão da pista de dança.

Da intensidade dançante à superação cotidiana

O projeto engata logo nos primeiros momentos com faixas energéticas como Fast e Here All Night, que apostam em ritmos acelerados sem abrir mão da força melódica. Em Frequency, os sintetizadores sustentam um dos refrões mais grudentos do repertório recente da cantora.

O grande ápice emocional da obra, contudo, atende pelo nome de Let You Go. Longe dos clichês dramáticos das tradicionais power ballads, a faixa trata a superação como ela realmente acontece na vida adulta: não em um grande confronto épico, mas no instante sutil em que a rotina segue e a lembrança simplesmente deixa de doer. É uma composição que convida a cantar de janela aberta, com arranjos dinâmicos e sensação palpável de alívio.

O próprio título do álbum esconde uma ironia bem calibrada. Em canções reflexivas como Sorry to Myself, Demi revisita períodos conturbados do passado sem transformar cada cicatriz em um espetáculo trágico. A mensagem é clara: nem toda história precisa ser contada aos berros para manter sua relevância e verdade.

Its Not That Deep demi lovato
Capa Divulgação

Equilíbrio sonoro e os contrastes da versão Deluxe

O fluxo quase contínuo de energia do álbum padrão encontra um tropeço apenas em Ghost. Embora seja uma faixa bonita, seu encerramento carrega uma densidade melancólica que destoa do restante da narrativa sonora, soando deslocada do conjunto da obra.

Já a edição deluxe traz desdobramentos interessantes:

  • Low Rise Jeans: Um dos maiores acertos do projeto estendido, abraçando um pop nostálgico e assumido que evoca a era de ouro de Britney Spears, com batidas milimetricamente encaixadas;

  • Fantasy (feat. COBRAH): Apresenta uma dinâmica dançante, mas desliza ao soar mais atenta às tendências imediatas das redes do que à identidade coesa lapidada pelo restante do disco.

Veredito: A paz de não ter nada a provar

Durante anos, a discografia de Demi Lovato pareceu fragmentada entre personas conflitantes: a estrela mirim, a vocalista pop de rádio, a roqueira rebelde e a sobrevivente dos holofotes. Em It’s Not That Deep, essas facetas finalmente coexistem sem disputar espaço.

Se Holy Fvck foi o disco que a cantora precisava fazer para expurgar fantasmas, It’s Not That Deep é o álbum que ela gravou puramente porque quis. É o trabalho mais descontraído de sua discografia e, paradoxalmente, um dos mais maduros e prazerosos de se ouvir do início ao fim.

Ouça “It’s Not That Deep” no Spotify

Ana Duarte
Ana Duarte
Jornalista. Metida a crítica audivisual. Amante da sétima arte. A garota levemente viciada em séries. Consumista de cultura POP e filmes clássicos da Disney

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