Sou lovatic desde 2009, o que significa que passei quase duas décadas acompanhando a trajetória de uma artista que nunca conheci pessoalmente como se, de algum jeito, ela também fizesse parte da minha. Meu primeiro show veio só em 2022, na Holy Fvck Tour, em Belo Horizonte, quando fui credenciada pelo Suco de Mangá. Desta vez, a credencial não saiu. Fui do mesmo jeito, porque simplesmente não existia nenhuma versão de mim que aceitasse perder a chance de ver de perto o encerramento da turnê brasileira.
O dia 16 de setembro resolveu lembrar que São Paulo sabe fazer frio quando quer. Eu, por outro lado, tinha me vestido para combinar com a estética de It’s Not That Deep, não para enfrentar uma fila de horas. Passei boa parte da espera me arrependendo das minhas escolhas até as luzes da Suhai Music Hall apagarem. Depois disso, o frio deixou de importar. Só voltou quando o show terminou e todo mundo precisou encarar a rua de novo.
Era o trigésimo show de Demi Lovato no Brasil, número que ela fez questão de repetir mais de uma vez durante a noite. Perguntou quem estava ali desde Camp Rock, quem chegou anos depois, durante a fase de Holy Fvck, e reforçou que nunca cogitaria deixar o país de fora de uma turnê. Trinta apresentações não são discurso de compromisso; são um histórico difícil de fingir.
Presença de palco confiante e leveza artística aos 34 anos
O que mais me chamou atenção, comparando com 2022, foi o quanto Demi parecia confortável no palco. Na Holy Fvck Tour, ainda dava para sentir uma artista tentando reencontrar o próprio lugar depois de anos turbulentos. Eu queria amar aquele show incondicionalmente, mas saí com a sensação de que ela ainda estava se procurando. Não era falta de entrega, muito pelo contrário: havia intensidade, voz e vontade. Mas parecia existir uma artista descobrindo novamente como ocupar aquele espaço.
Desta vez foi diferente. Aos 34 anos, Demi parece finalmente habitar o palco sem precisar provar nada para ninguém. Dança mais, conversa mais, brinca mais e transmite uma leveza que não nasce de menos intensidade, mas de uma relação mais confortável consigo mesma e com o público. A mudança não está apenas na performance, mas na forma como ela ocupa cada espaço, olha para a plateia e parece aproveitar o próprio show.
Quem assistiu ao show no Rock in Rio pegou uma versão reduzida da turnê. Em São Paulo, veio o espetáculo completo, e isso faz diferença. A estrutura é simples, mas funciona muito melhor numa casa de shows como a Suhai Music Hall do que competindo com a grandiosidade de um festival. O resultado é um show mais próximo, mais dançante e muito mais coerente com o espírito do álbum.
Estreia histórica de In Case e dinâmicas da apresentação
Meu momento favorito aconteceu justamente onde ninguém esperava. A música surpresa da noite foi “In Case”, tocada ao vivo pela primeira vez na carreira de Demi. Dias antes, fãs brasileiros organizaram uma campanha para colocar suas faixas favoritas nas primeiras posições do iTunes, numa tentativa de mostrar à equipe quais músicas gostariam de ouvir. “In Case” liderou o movimento e acabou aparecendo no palco. Em determinado momento, Demi comentou que sabia exatamente qual música o público queria escutar. É esse tipo de gesto pequeno que explica por que a relação dela com o fã brasileiro continua parecendo tão diferente do discurso automático de outros artistas.
Outro momento bonito veio durante “Let You Go”, uma das minhas favoritas do álbum. No meio da música, Demi interrompeu a apresentação ao perceber que alguém na plateia precisava de ajuda. Esperou até tudo estar sob controle, sorriu, disse um simples “from the top” e recomeçou a canção do zero. Quem gosta da faixa acabou ganhando duas versões pelo melhor motivo possível. E eu, particularmente, não reclamo de ouvir “Let You Go” duas vezes na mesma noite.
Nem tudo foi perfeito. A ordem das músicas parece, às vezes, brigar consigo mesma: o show constrói uma sequência energética, desacelera com várias baladas seguidas e, logo depois, tenta recuperar o ritmo como se nada tivesse acontecido. Não chega a comprometer a experiência. O público cantou praticamente tudo do começo ao fim. Mas fica a impressão de que a curva emocional poderia ser mais bem costurada.
Também senti que o show acabou cedo demais. Talvez seja impressão minha, acostumada a artistas que passam mais tempo em cima do palco, mas tive aquela sensação rara de olhar para o relógio e pensar: “Já?”. Em alguns momentos, também dava para perceber um certo desgaste vocal. Demi tossiu algumas vezes durante a apresentação e parecia economizar a voz em trechos específicos. Nada que comprometesse o show ou diminuísse a potência da noite, mas um lembrete de que uma turnê inteira também cobra seu preço.
Uma observação que vai além dos lovatics: impressiona como assistir a um show virou, para muita gente, sinônimo de gravá-lo inteiro. Tinha celular erguido praticamente o tempo todo. Eu também gravei alguns momentos. Seria hipocrisia dizer que não. Mas percebi que minhas melhores lembranças da noite continuam sendo justamente aquelas em que esqueci que estava com o telefone na mão.
Em 2009, quando comecei a ouvir Demi Lovato, jamais imaginei que um dia pisaria num show dela como jornalista, muito menos que voltaria anos depois apenas como fã. No fim das contas, descobri que isso faz menos diferença do que eu imaginava. Algumas histórias continuam importantes independentemente de onde você as acompanha.
Depois de trinta shows no Brasil, Demi ainda encontra um jeito de fazer cada apresentação soar como um reencontro. Desta vez, pelo menos para mim, o reencontro também aconteceu com uma artista diferente daquela que vi em 2022: mais segura, mais livre e mais confortável no próprio palco. E eu espero, sinceramente, estar no próximo.




