A China está provando ser grandiosa na sétima arte, e em plena temporada de premiação, se fez presente mais uma vez, A Despedida (The Farewell) trabalha a simplicidade familiar em tons de comédia com o drama de uma doença grave, utilizando de uma mentalidade triste e macabra que rodeia a família chinesa em questão, uma obra magnífica que explora todo um mundo desconhecido para alguns de uma forma divertida, além de uma aula de roteiro para os filmes modernos.

Uma comédia dramática que te conquista de alguma forma, isso porque o cômico não é o extrapolado ou piadas estereotipadas, servem apenas para acrescentar ao drama da doença da vovó, junto com todo o segredo que se passa por trás de algumas ideologias da família, e por mais escancarado que esteja em tela, algumas frases bem colocadas nos diálogos explicam para todos que não sacaram, sem ser algo dúbio.

A Despedida é algo maior do que se mostra e incrível do que se desenvolve, a ideologia de união de famílias chinesas não é algo impressionante para quem ama a própria família, mas se mostra brilhante pelos tempos de pessoas vazias e famílias destruídas por ideologia política, choque de gerações e muitos outros fatores banais, ou não, que resultou em um relacionamento desgastado entre os próprios familiares, o qual é outro detalhe trabalhado nesse filme.

Nossas Origens

Muitas vezes esquecemos de onde viemos, rejeitamos nossas origens e vivemos tão ocupados com nossos futuros, que deixamos o passado de lado, esquecemos de pessoas que estiveram conosco, o crescimento com nossos irmãos, a atenção dos nossos pais e avós e até uma infância vivida com os tios e primos, claro que nem todos esses elementos fizeram parte da vida de todos, mas algum deles foi o que te moldou para a vida, o que te faz pensar, qual foi a última vez que sua família se juntou? Sem ser ano novo ou natal? Ao pensar e ver a realidade, se mostra um choque tremendo, e A Despedida trabalha de forma sutil, isso porque não é o principal plot do filme.

A brincadeira com aqueles conflitos familiares de diferença de pensamento se mostra engraçado no início, mas escala para níveis mais dramáticos e até um pouco triste, eis que a genialidade da simplicidade e da diversão muda para a melancolia e reflexão, algo muito bem explorado no cinema asiático, não só o chinês como japonês, sul-coreano e entre outros consegue trabalhar a junção de gêneros e desenvolver o roteiro para que se transforme de um para o outro feito a mudança da lagarta para a borboleta, ambas têm uma beleza pessoal e uma personificação diferente, e mesmo assim ambas podem te encantar.

A simplicidade do filme está em forma de personagem, Nai Nai (Lu Hong) é o plot, o alívio cômico, às vezes a protagonista e praticamente o filme inteiro, isso não significa que os outros foram maus ou apagados, aliás pelo contrário, o elenco foi maravilhoso, acima da média, mas Nai Nai trás as raízes de volta a família chinesa que esqueceu quando se mudou para os EUA, ao mesmo tempo que as raízes são relembradas, velhos costumes são repetidos dentro daquela família a qual coloca em debate entre eles e para todos nós que estamos assistindo.

a despedida the farewell

Baseado em uma mentira contada

Como dito no início do filme: “Baseado em uma mentira contada”, essa idéia de não contar para Nai Nai que estava doente é algo grave, e no próprio filme mostra que isso é normal dentro da família, já foi feito com outros integrantes, caso tivessem sido tratados, estariam curados da doença? Será que algumas tradições não devem ser mudadas? A frase que inicia o filme é algo chocante após assistir A Despedida, e trás toda essa reflexão do pensamento tradicional para algumas ideologias dentro das famílias chinesas, por mais que eles têm um tipo de cultura lá, ela pode estar ultrapassada e precisa ser modificada, desconstruir esses padrões se mostra necessário quando o caso atinge não só o adoecido, mas todos da família.

A Despedida está sendo ignorada demais nas premiações, é apagada por sua simplicidade, mas têm com certeza um dos melhores roteiros da última temporada, até mais que todos que disputaram o Oscar de Melhor Filme, uma história linda e emocionante que ensina e educa a todas as idades, precisa servir de exemplo para pessoas vazias, e uma aula de produção para filmes ruins.