Confesso que cheguei a O Morro dos Ventos Uivantes pelo caminho mais moderno possível: o trailer do filme com Margot Robbie. Achei lindo, fui direto buscar o livro e ainda tive a sorte de encontrá-lo numa baita promoção na Amazon — em torno de 15 reais. Um mês depois, terminei o bendito. E olha, saí de lá com um turbilhão de sentimentos que vou tentar organizar aqui.
A História e Quem a Conta
O livro é narrado em camadas. Tudo começa com Lockwood, um homem urbano que serve como porta de entrada para o leitor. Mas é Nelly Dean, a governanta, quem assume o protagonismo da narração e carrega a história nas costas. E que diferença de estilo entre os dois. Enquanto Lockwood é mais direto e narra o que vê literalmente, Nelly tem toda a energia de uma fofoqueira das brabas — o que, dependendo do dia, pode ser cansativo ou extremamente divertido de acompanhar.
Essa estrutura de narradores em camadas é um dos traços mais marcantes da obra. Não é uma narrativa linear e simples. É preciso se entregar ao ritmo proposto por Emily Brontë para que a história comece a fazer sentido. Agradeço a minha companheira de leitura, a Doka, por já me alertar sobre isso.

O Cenário Como Personagem
Uma das coisas que mais gostei no livro é a dualidade entre a vida campestre e a vida da cidade. Isso fica bem explícito ao longo de toda a trama. A região da Granja Thrushcross — nem sei falar isso direito kkk — e a casa no Morro dos Ventos Uivantes funcionam como um bolsão isolado do mundo — é difícil qualquer coisa externa influenciar o que acontece por ali, a não ser que venha por meio de algum personagem, como no caso do misterioso Heathcliff.

Essa oposição entre os dois ambientes é, na verdade, a espinha dorsal estrutural do livro. O Morro dos Ventos Uivantes representa o selvagem, o tempestuoso e o violento. A Granja Thrushcross representa o civilizado, o passivo e o educado, se personificarmos em Catherine. Os personagens vivem se cruzando entre esses dois polos — e é nesse cruzamento que toda a tensão da narrativa se sustenta.

Heathcliff, figura central e enigmática, encarna essa dualidade de forma mais intensa. Sua origem misteriosa e sua aparência ambígua eram, para os leitores do século XIX, uma fonte de estranhamento profundo. Ele representa o “outro”, aquele que não pertence completamente a nenhum dos dois mundos — e é exatamente isso que o torna tão fascinante e perturbador ao mesmo tempo. Na minha fic, ele é um ser sobrenatural…
O Que o Livro Faz Muito Bem
Apesar de desafiador, O Morro dos Ventos Uivantes tem qualidades inegáveis. O ritmo da narrativa é ágil e agitado, sem momentos de estagnação prolongada. Quando a história engrena ali na sua metade, ela não para. A intensidade emocional é constante e opera em um nível elevado — não é um livro para quem quer uma leitura leve antes de dormir.
A riqueza de referências literárias também impressiona. Emily Brontë bebeu em Shakespeare, com ressonâncias claras de Hamlet, e falo isso por ter visto Hamnet recentemente, no folclore local, incluindo a figura do changeling e das fadas. Essa profundidade de camadas é o que torna o livro uma obra para ser lida várias vezes. Acredito que em cada releitura, novos detalhes surgem, novas interpretações se abrem.
Outro ponto que merece destaque é a segunda geração de personagens, que traz uma resolução mais serena para os conflitos. A educação e a leitura aparecem como ferramentas de reconciliação — o ato de ensinar a ler se transforma em um gesto de amor e reconstrução. É uma virada narrativa interessante, especialmente depois de tanto caos emocional nos capítulos anteriores.
O Que Exige Paciência do Leitor
Mas nem tudo é fácil. O livro tem seus pontos desafiadores, e é honesto falar sobre eles, já que quebrou minhas expectativas.
A violência da obra é intensa. Os personagens — e até os animais — frequentemente sofrem maus-tratos físicos, vivem em estado de insônia e angústia, e agem de formas cruéis uns com os outros, com muitas picuinhas. O pequeno Linton Heathcliff, por exemplo, é descrito sem meias palavras como um verdadeiro crápula. Não é uma leitura confortável.
O ambiente confinado também pode pesar. Toda a história gira em torno de, basicamente, duas casas. Isso cria uma sensação de pesadelo claustrofóbico — o mundo exterior quase não existe, e os personagens parecem presos em um universo próprio onde as regras sociais comuns simplesmente não se aplicam. A obra funciona quase como um espaço psíquico, um sonho — ou um pesadelo — em que a lógica da vida cotidiana fica do lado de fora. Acho que é uma característica forte de um romance gótico.
E tem a questão dos nomes. Os nomes se repetem muito — e isso não é acidente. É uma escolha proposital que cria um clima onírico, mas que também gera uma confusão danada, especialmente na segunda metade do livro, quando além de se repetirem, os nomes e as identidades começam a se misturar de formas que exigem atenção redobrada. A dica que dou é ter em mãos um diagrama ou uma árvore de personagens para não se perder. Só não coloco aqui por conta de spoilers, mas ajuda muito.
Contexto Histórico que Enriquece a Leitura
Vale saber que, na época do lançamento, romances como O Morro dos Ventos Uivantes eram vistos como entretenimento de massa para a classe média — comparáveis, em certo sentido, ao papel que o celular ocupa hoje. Não eram considerados “estudos sérios”. O tempo e as releituras foram os responsáveis por elevar a obra ao status de clássico da literatura inglesa.
Outro contexto histórico é você conhecer Wuthering Heights da Kate Bush (ou do Angra).
Mas e aí, vale a leitura?
Sim — mas com expectativas ajustadas.
O Morro dos Ventos Uivantes não é um romance de amor bonito e tranquilo. É intenso, violento, confuso por vezes e absolutamente envolvente. Acredito que uma segunda leitura traz muito mais clareza e uma experiência imagética bem mais rica, porque aí já se conhece o quebra-cabeça completo e é possível perceber as picuinhas e os detalhes que na primeira vez passam despercebidos.
Se você ainda não leu, aproveite uma promoção — como eu fiz — e mergulhe nesse clássico sem julgamentos prévios. O Morro pode te prender por um bom tempo.



