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Welcome to NHK conta a história de Tatsuhiro Satou, um hikikomori de 22 anos, desistente da faculdade e que mal saiu de casa nos últimos quatro anos. Essa é a história de um sujeito perdido, que anda em círculos, até eventualmente chegar a alguma resolução minimamente satisfatória para a própria vida. Mas suspeito que até essa resolução seja fruto menos de sua própria vontade e mais da obrigação de uma história em 24 episódios que, eventualmente, tem que acabar.

A verdade, e isso o anime é honesto o suficiente em admitir, é que a história de Satou, história incerta e sem final definitivo, é a história possível de qualquer um de nós. Não só é possível como é a história real de muitos de nós, que talvez não estejam isolados dentro de um quarto, mas que podem estar isolados em espírito, mesmo vivendo vidas perfeitamente funcionais.

Para esse review, gostaria de falar de Welcome to NHK de um ponto de vista mais temático do que cronológico. Primeiro porque, evidentemente, dar spoilers dos eventos do anime não rola. E segundo porque eles acabam sendo meio que irrelevantes. Me vejo convencido de que as situações vividas por Satou ao longo do anime redundam no seu próprio desenvolvimento e no desenvolvimento dos temas trabalhados pelo anime. “Bem Vindo ao Recomeço!”, como diria o título de um de seus episódios.

CRÔNICA DE UM HIKIKOMORI

Welcome to NHK é talvez o primeiro anime que fala sobre o fenômeno hikikomori, que explodiu nos anos 90. Para ficarmos devidamente bem contextualizados, hikikomori é uma abreviação de “shakaiteki hikikomori” (社会的引きこもり) cuja tradução mais precisa seria algo nas linhas de “recluso da vida social”. O termo foi cunhado pelo psiquiatra Tamaki Saito em seu clássico livro de 1998 Shakaiteki Hikikomori (traduzido para o inglês como “Hikikomori: Adolescence Without End”) e lançou as bases para as futuras discussões dentro e fora da psicologia e da psiquiatria do que seria um hikikomori e o fenômeno da reclusão social como um todo. Geralmente afeta jovens, principalmente com históricos de transtornos mentais ou de abusos familiares e/ou escolares e que passam por experiências profundas de frustração ou sucumbem diante das pressões e expectativas de seus pares (seja na família ou na sociedade), vivendo seus dias trancados em seus quartos por meses ou anos a fio. Com esse breve resumo, tratemos um pouco de sua sinopse.

O anime conta a história de Tatsuhirou Satou. A crônica de sua vida começa com um episódio agudo de agorafobia, quando ele passa a sentir diversas ansiedades caírem sobre os ombros ao imaginar os olhares de reprovação e escárnio das pessoas ao seu redor. Essa sensação de insegurança e hostilidade no meio da multidão será uma constante em sua vida cada vez que precisar sair de casa. O anseio chega somado a experiências prévias na vida de Satou que vão sendo esclarecidas e aprofundadas ao longo do anime: os anos no clube de literatura com sua senpai, Hitomi Kashiwa, o amor que nunca foi; a surra que ele tomou de alunos mais novos tentando proteger um rapaz sendo agredido (e impressionar sua senpai); o arrependimento de ver sua mãe acreditando piamente numa mentira para livrar a própria cara. Gota a gota essas frustrações desmoronam durante uma aula da faculdade e Satou simplesmente abandona a tudo e a todos, passando os próximos quatro anos de sua vida isolado no próprio quarto.

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Um dia, após mais uma vez acordar ao som ensurdecedor das músicas de anime de seu vizinho, Satou recebe a visita de uma senhora acompanhada de uma menina, oferecendo mensagens de salvação e demais papos que a fazem o equivalente a uma testemunha de Jeová batendo de porta em porta. Satou não dá ouvidos, mas dá olhos à menina que o encara de um jeito peculiar. Após uma série de coincidências, entre elas descobrir que o vizinho barulhento que passa o dia inteiro ouvindo a mesmíssima música de anime era o aluno que Satou tentou proteger no ensino médio, uma carta chega à porta de nosso protagonista, convidando-o ao Projeto.

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O Projeto nada mais é do que a promessa para a cura de um hikikomori. Misaki Nakahara apresenta-se como a pessoa capaz de salvar Satou de sua condição patológica, mas é aí onde vemos um dos traços mais marcantes do protagonista: uma enorme tendência a autonegação e a mentir sobretudo para si mesmo, a fim de manter as aparências (disfarçando as evidências?). De todas as mentiras que Satou despeja a fim de negar a si mesmo que há algo de muito errado na sua vida, a mais significante de todas é a de que ele é um programador e um criador de jogos prestes a lançar um excelente jogo. Misaki demanda provas e esse é o começo da bola de neve que faz com que Satou comece uma parceria com seu vizinho otaku, Kaoru Yamazaki, criando os dois o seu próprio garuge (uma espécie de visual novel focada em garotas moe).

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UMA OBRA EM PRIMEIRA PESSOA

Daí em diante, Welcome to NHK embarca em várias historietas, quase todas elas causadas seja pela tendência de Satou em ir até às últimas consequências pelas suas mentiras, ou pela sua tendência a ser extremamente manipulável, como é o caso quando ele reencontra sua senpai (uma história com um desfecho absolutamente humilhante e com um dos gritos de desespero mais bem soltos por um dublador) ou sua antiga representante de classe. Dessas histórias você é capaz de apreender pensamentos sobre cultura otaku e escapismo, traumas que debilitam pessoas que nascem todas comuns, peladas e fofas como todo bebê, mas que algumas são separadas para destinos melhores e outras para destinos piores, como canta o poderosíssimo encerramento “Odoro Aka-chan Ningen”. A história tragicômica de Tatsuhirou Satou passa por agradáveis postos de sabedoria que rendem altas conversas, mas o nome desse personagem não está repetido à exaustão de graça. Pois não se enganem, todos os eventos e pessoas que passam pelos nossos olhos em Welcome to NHK redundam no próprio Satou, suas angústias e a inquietação de não saber o que fazer da própria vida em um estado de beco sem saída.

A visão em terceira pessoa engana, mas a verdade é que você, o espectador, É Tatsuhirou Satou.

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Que os eventos de uma história deem prioridade para o desenvolvimento do personagem que a protagoniza me parece auto evidente. Mas nem sempre o mesmo ocorre pelos personagens à volta do protagonista. Comecemos pela Hitomi Kashiwa. É até perdoável que a conclusão de sua história soe meio desleixada quando você entende que ela serve como um totem para os remorsos de Satou. Jougasaki, seu namorado e eventual marido, é um homem bem-sucedido, capaz, que move mundos e fundos, demonstrando completa competência e vigor como o homem e companheiro perfeito. Não só isso contrasta tremendamente ao imprestável (dame ningen!) que Satou se tornou, como esse estado de coisas martela constantemente em sua cabeça todas as oportunidades desperdiçadas de talvez poder ter construído uma relação frutífera com a mulher de sua vida. Mas nada disso aconteceu. Satou fraquejou, acovardou-se e tudo o que resta são cenários impossíveis, sonhos lúcidos e filmes imaginados de como seria a vida com sua senpai.

Passada a primeira marca de um futuro imprestável, que é a pilha de arrependimentos e remorsos que ele carrega nos ombros, vem o próximo passo, que é o escapismo. Nisso Yamazaki cumpre papel importante, mas não um papel estanque. Yamazaki introduz Satou à cultura otaku; e mesmo sendo ele próprio um “kimo-ota” (otaku nojento), Yamazaki tenta construir uma vida e um legado próprio em Tokyo, em rebelião à sua vida prévia decidida de antemão do começo, meio a fim. Seu caso possui certo equilíbrio, ainda que muito delicado. Mas quando Satou conhece o mundo do moe, onde a fantasia te supre as carências com mais segurança e certeza do que qualquer relacionamento no mundo real, bem, nesse caso ele cumpre com maestria o ditado popular “quem nunca comeu melado, quando come se lambuza”. Durante dias a fio sua vida passa a ser surtos de dopamina com visual novels e materiais de… “referência” para a criação da heroína de seu próprio jogo.

Mas muito além de servir como a porta de entrada para um escapismo ainda maior ao qual Satou já havia se submetendo nos últimos anos, Yamazaki cumpre um papel muito mais redentor. Não são poucas as vezes em que ele serve como a consciência de seu amigo perdido na vida; um amigo ao qual ele se apieda, pois, uma vez tendo sido salvo por Satou, agora Yamazaki se vê no papel de alguém que fornece apoio ao antigo colega de escola que decaiu muito além do imaginável. Seja confortando-o nas duras verdades sobre o amor, seja se afogando juntos no álcool, seja nas constantes brigas e resmungos, Yamazaki é aquele nosso amigo que muitas vezes nem faz isso tudo, mas apenas está lá, nos pequenos momentos banais do dia a dia, rindo e comentando alguma piada ou meme idiota. Parece pouca coisa, mas são amigos assim que fazem da mais desesperança das existências algo bem mais leve e agradável.

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A terceira personagem da nossa lista é a Megumi Kobayashi, antiga representante de turma da escola de Satou. Do encontro com ela, Satou ganha uma experiência de alteridade que há muito tempo ele não tinha por ser um hikikomori e que esclarece um pouco melhor o seu lugar na vida ao ver a vida de sua antiga colega de sala, antes aluna modelo, agora decaída numa golpista e seu irmão que também é um hikikomori. As circunstâncias que levaram Kobayashi a perseguir comportamentos predatórios para sustentar a si e ao seu irmão que se recusa a sair do quarto também ajudam Satou a perceber para qual direção o seu atual estilo de vida o levaria.

Apesar dos pesares, dos temores, dos arrependimentos e das ansiedades, Satou é um homem com um bom senso de certo e errado. Ele pode mentir para os outros, mas é o primeiro a saber, no fundo no fundo, que há algo de errado consigo. Mas o que fazer? Como mudar quando toda porta parece dar de cara num muro escrito “Fracasso”? No caso de muitos de nós, a solução é vaguear até o fim dos dias procurando e aperfeiçoando as próprias respostas. No caso de Welcome to NHK, para que a história não ficasse nem mórbida demais, nem monótona demais, temos a Misaki, a garota que chega como um milagre na vida de Satou e promete salvá-lo.

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MISAKI E A SALVAÇÃO QUE NÃO HÁ

Misaki merece uma seção à parte. Apesar de estar profundamente convencido de que Welcome to NHK é uma história extremamente centrada no seu personagem principal, Misaki é uma personagem sem a qual essa história não começa, não se desenvolve e não termina. Ela é importante não só dentro como fora da história do anime.

E por que isso? Porque dito do jeito mais curto e grosso possível: a Misaki não existe. Sim, a Misaki não existe, ela é uma personagem fictícia, mas escavemos esse poço a fundo. Welcome to NHK conta a história de um hikikomori que tem tudo para passar o resto dos seus dias num perpétuo estado de reclusão, situação esta que o anime simula de forma deplorável com um hipotético Satou cinquentenário, desfigurado pela idade e pela falta de cuidado próprio, com os pais idosos, aposentados e desesperançosos. A situação não só é real como tem nome no Japão: o “Problema 8050”, filhos reclusos na casa dos 50 anos contando com a ajuda de seus pais na casa dos 80.

Mas como estamos lidando com uma obra de ficção, alguma eventualidade, algum milagre, algum resquício de fantasia redentora que faça com que a vida valha a pena ser vivida é preciso para que uma história exerça essa função redentora em nós. E é esse o papel que Misaki cumpre, tanto na vida de Satou quanto nas nossas, por extensão. É ela o anjo da guarda que aparece na vida do rapaz e promete sua cura com o seu Projeto, que inclui lições de psicologia, conversação, interação social e demais conversas rotineiras às noites numa praça. É ela quem dá ares novos à vida de um miserável que por sua vez também dá sentido à vida dela (pois com o tempo descobrimos que justamente por ser um miserável, Misaki precisa tanto do Satou quanto ele precisa dela).

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A figura simples da Misaki não deixa de ser marcante, pois o ar à sua volta reproduz aquela meiguice e fofura feminina que fazem o ideal de uma protagonista de um anime. Ou seja, moe, aquele sentimento da qual o otaku é um faminto. De fato, é tão marcante a figura da Misaki, que faz todo o sentido do mundo que uma pessoa como o Yoshitoshi Abe a tenha desenhado para a capa da light novel de Welcome to NHK. Acaba sendo um casamento perfeito que o autor de Serial Experiments Lain dê vida a uma personagem tão alinhada à Lain no quesito aparência. E por ser uma encarnação de um ideal que habita a nós, público fã de cultura pop japonesa, Misaki acaba justamente sendo um contraste enorme de fantasia na duríssima e pesada dose amarga de realidade que o enredo de Welcome to NHK nos expõe como um todo.

E é por isso que a reação, quase instantânea, de quem vê a Misaki pela primeira vez aparecendo numa história que é em si mesma uma tragédia anunciada, não costuma variar muito além de algo como “Ah, então isso é mesmo uma obra de ficção. É bom demais para ser possível…”. O consenso geral é de que na vida não existe nenhuma Misaki; ela é a salvação que não há.

Porque a verdade que Welcome to NHK traz para todos nós antes de sua reta final é de que as pessoas eventualmente vêm e eventualmente todas se vão. No final da história, estaremos todos sós. Misaki é necessária para que a história possa ter seu desenvolvimento, seu clímax e sua eventual catarse. Mas sua não-existência é angustiantemente óbvia, pois sabemos que não existe milagre. Só há nós, sós. Que fazer então?

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GENEALOGIA DAS SOLIDÕES

Welcome to NHK é uma história sobre solidão. Ela expõe vidas solitárias, vidas aflitas, vidas enclausuradas em si mesmas ainda que na companhia de um eventual alguém. Apesar de ser uma história sobre solidão impulsionada por uma condição clínica reconhecida na psicologia e com efeitos distintos bem estudados e ainda bem pesquisados, ainda é uma história sobre solidão. Tamaki Saito foi prudente em descartar a tese de que o hikikomori é um fenômeno exclusivamente japonês; ele reconhece que coisas como o modelo familiar asiático e um sistema educacional predatório que joga jovens em feroz competição entre si sob fortes pressões psicológicas fazem com que indivíduos alinhados a uma definição de hikikomori aparecem em outros países como a China e a Coreia.

Mas acredito que podemos ir além. Se Saito estiver correto quando ele afirma em seu livro que o hikimori é “um estado que surge em resposta a dificuldades notáveis no caminho para a maturidade e independência emocional”, então não é gratuito que a tragicomédia de Tatsuhirou Satou seja tão relacionável para tantos de nós, que eventualmente vemos os amigos de infância e os amigos de escola seguindo seus rumos, alguns se casando, outros se mudando e, enquanto isso, tudo parece continuar o mesmo desde o fim dos tempos de escola. Se essa é uma história sobre solidão, que afirma a sua onipotência e que não temos outra escolha senão trabalharmos com ela um dia de cada vez, até o fim dos nossos dias, resta entender de que solidão estamos falando. Afinal, sozinho, solitário, isolado é tudo a mesma coisa?

E se o fato dessa história encontrar eco no coração de muitos ao redor do mundo não for acidente? E se essa solidão compartilhada e percebida por tantos estranhos entre si for também produto de um processo histórico ainda em curso nos últimos duzentos anos? É nessa hipótese que me vejo inclinado a acreditar e que pretendo esboçar nestes parágrafos: uma genealogia da solidão (ou das solidões), presente das cidades urbanizadas para nossos corações.

Genealogia das solidões, no plural. Pego o título dessa seção emprestado do excelente livro de José Guilherme Merquior, “Saudades do Carnaval: Introdução à Crise da Cultura”. Nesse capítulo, o ensaísta refletia, entre outras coisas, sobre os efeitos da Revolução Industrial nas interações entre as pessoas, que passavam a ser cada vez mais impessoais. Afinal, essa era a necessidade inédita da impessoalidade das novas relações de trabalho (afinal, não me interessa como padeiro matar sua fome, mas sim vender pão, ou não me interessa como farmacêutico desejar-lhe boa saúde, mas vender remédio, etc).

Merquior elabora um raciocínio complexo, mas muito bem estruturado ao longo de mais de 140 páginas para então afirmar que uma das novidades da Revolução Industrial (que lembremos, não foi um evento, mas um período de intensas transformações ao redor do mundo) foi a atomização das pessoas. O palavreado é complicado e posso estar sendo cruel em extrair uma citação inteira para o leitor, mas vale muito a pena trazer esse pedaço do livro à tona, palavra por palavra:

A sociedade industrial, consagrando a separação entre o âmbito profissional e o círculo da vida privada, expondo o indivíduo, na multiplicidade de contatos sociais característica da megalópoles, a uma contínua mudança de parceiros leva a impessoalidade do comércio humano a seu ponto extremo. O homo urbanus é, na maioria esmagadora de seus contatos ordinários com seus outros semelhantes, um outro anônimo e convencional: um átomo em trânsito, apenas entrevisto. ” (pag.145-146)

Um dos primeiros a perceber essa mudança, e que escreveu de um jeito mais belo (e melancólico) foi Alexis de Tocqueville (1805-1859). O que faz do pensador francês ser tão interessante é que por mais que seu clássico “A Democracia na América” seja famoso pelo seu elogio ao novo estilo de governo que inspiraria o novo século, ele não deixa de ter passagens bem desconfiadas, quando não pessimistas, de uma sociedade de pessoas indiferentes entre si, sem nenhum elo em comum que os unam. Prometo que esta é a última passagem que cito:

Vejo uma multidão de homens semelhantes e iguais que giram incansavelmente ao redor de si mesmos em busca de pequenos e vulgares prazeres com que preenchem a alma. Cada um deles, posto de lado, é como que estranho ao destino de todos os outros: os filhos e os amigos particulares formam para ele toda a espécie humana; quanto ao restante de seus concidadãos, está ao lado deles, mas não os vê; toca-os e não os sente; ele só existe em si mesmo e unicamente para si” (Livro II, p.389)

O mais assustador dessa passagem é que Tocqueville a anuncia como uma predição, uma hipótese de como os Estados Unidos, nesse novo estilo de vida poderia eventualmente acabar. E acabou que esse não foi o destino de um país, mas o destino das metrópoles no geral. Digo das metrópoles não só por causa da passagem de Merquior que acabei de citar, mas porque também Welcome to NHK também parece corroborar, implicitamente, que a solidão das pessoas não resiste aos modelos de vida mais tradicionais que sobrevivem no campo; como é o caso de Yamazaki, que eventualmente teve de voltar à terra natal e lá foi arranjado em casamento com uma pessoa da comunidade (num costume muito comum no Japão rural, o omiai) e lá aprendeu a apreciar uma nova vida que antes rejeitava.

NO PIOR DOS CASOS, SEJAMOS SOLITÁRIOS

Parece claro que existe um tipo de solidão específica do modo de vida das cidades, indiferentes ao toque e à visão de seus iguais. Essa solidão é fruto de um processo histórico da qual somos todos nós sujeitos e atores. Mas de que tipo de solidão estamos falando? É tudo a mesma coisa? No último capítulo de seu clássico livro “As Origens do Totalitarismo”, Hannah Arendt (1906-1975) chamou a atenção para diferenças fundamentais entre três expressões que, à primeira vista, parecem ser sinônimas. Nossa condição humana pode ser sozinha de pelo menos três jeitos: isoladas, solitárias e sozinhas. Em inglês a diferença é ainda mais gritante: isolation, solitude e loneliness. A pessoa isolada é uma pessoa incapaz de agir, mas ainda mantém contato com seus entes, ainda que à distância. Tal é o caso dos exilados; e é por isso que falamos hoje em isolamento social.

Já a diferença entre solitário e sozinho é um tanto mais tênue, mas ela existe. A pessoa sozinha pode estar em companhia com os demais, mas ela é incapaz de manter um contato não só com estes, mas, pasmem, consigo próprio! Para Arendt, a diferença fundamental entre ser e ser solitário é a relação que se faz com o Eu, com a própria consciência. Porque por sermos seres dotados de consciência própria, consciência com a qual podemos dialogar em pensamentos e reflexões (dialogar é a palavra-chave aqui), ainda que estejamos a sós seja num caminhar à noite, observando as paisagens tão comuns de dia completamente transfiguradas pelo anoitecer, ou na companhia de músicas ou filmes, ou de qualquer coisa edificante no geral, o entrosamento de si com sua consciência pode lhe evitar o pior, que a solidão de si próprio.

Se aceitarmos o raciocínio de Arendt, a diferença entre solitude e loneliness vira mais uma questão do quanto podemos ou não aceitar a companhia de si próprio, do quanto podemos nos aceitar e do quanto somos capazes de ter uma experiência significante independente da companhia de outrem. É uma tarefa dificílima e até mesmo insustentável no longo prazo, pois Arendt adverte que mesmo essa relação Eu-Consciência depende de um Outro para que esse Eu dividido em dois torne-se uma única pessoa novamente. Por isso até pessoas solitárias que sabem aproveitar a própria companhia correm o risco de se tornarem solitárias.

O propósito de ter quase transformado essa review de Welcome to NHK num ensaio sobre a solidão não vem apenas de uma afinidade extremamente pessoal com o assunto, mas porque é evidente pelo final que o anime é uma mensagem de perseverança em aberto, transbordante de incertezas. Lendo os três posfácios de Tatsuhiko Takimoto, que era ele próprio um hikikomori à época em que escreveu a novel, é possível ver que foi ele quem mais sofreu e mais lutou para lidar com os sentimentos desconfortáveis que afloravam da própria criação. A solidão é uma senhora conhecida por todos, mas entendida por pouquíssimos. O véu que lhe cobre o rosto nos deixa confusos e ansiosos, sem saber o que dizer-lhe face a face. E este autor não é uma exceção.

Ainda assim, nutro algum conforto em refletir sobre os temas que a ficção aborda; temas reais, vividos e angustiados no cotidiano. A relação de um solitário com o seu Eu, em perpétua conversação, é capaz de trazer algum esclarecimento sobre a época em que se vive e suas próprias circunstâncias. Somos nós todos seres históricos, afinal. A recomendação final acaba sendo esta: no pior dos casos possíveis, ao menos tente ser solitário. Existe um mundo de coisas interessantes lá fora, presentes, passadas e vindouras a serem lidas, assistidas, ouvidas, enfim, exploradas e discutidas consigo próprio, na vastidão dos próprios pensamentos.

“E só isso basta? ”, algum cético me questionaria. “Que diferença faz refletir e conhecer mais sobre o que quer que seja? Qual a diferença entre ser um miserável esclarecido e um miserável ignorante? ” Toda, respondo. Os alemães não chamavam o seu Iluminismo de Aufklärung de graça: o saber é o Clarão que ilumina o caminho à frente, ainda que sem resposta definitiva. Só o ato em si de saber algo sobre si (que está longe de ser um “só”, mas antes é um milagre de todo aquele presenteado com o milagre da consciência) é o suficiente para melhorar a condição humana. Para citar a Marimo, personagem de Muv Luv e que me conquistou à primeira vista (ou à primeira frase):

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“Ignorância é a raiz de toda a miséria. O conhecimento é a maior arma da humanidade, a única coisa que pode melhorar a condição humana. ”

E com isso, fecho estes pensamentos sobre Welcome to NHK, dedicado a todo aquele que enxerga em Tatsuhiro Satou um reflexo cruelmente constrangedor de todo o amargor, de toda a frustração e de todo o arrependimento colecionado em vida. Não desanime. No pior dos casos, sejamos todos solitários.

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"Um historiador apaixonado por uma boa leitura e guitarrista por hobby. Alguém que ama um bom slice of life e tem um vício crônico por jogos single-player. Me aventuro a compor pequenos poemas haiku e aprender mais da cultura e da sociedade japonesa!"