Com traços da atmosfera dos filmes western, Logan, de James Mangold e Scott Frank, traz inspiração visual e conceitual para o estilo. Ao citar trecho de Os Brutos Também Amam (Shane, de 1953) – que conta a história de um gunslinger que se isola fugindo do seu passado e eventualmente se vê obrigado a utilizar suas armas novamente – não só recebemos uma breve referência direta e uma homenagem, mas uma metáfora do caminho percorrido por Logan (Hugh Jackman).

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A história se passa em 2029, ambientada em um decadente futuro distópico evidenciado pelas locações, fotografia e trilha sonora. Mangold explora, de maneira formidável, as perspectivas e cicatrizes – físicas e emocionais – de Logan, inserindo a audiência na pele do personagem. Com a utilização eficiente de takes fechados e em primeiríssimo plano, a produção detalha as marcas, olheiras, olhos vermelhos e o visual acabado, entregue, e com o alcoolismo como válvula de escape de alguém que procura desesperadamente esquecer a dor e a culpa.

O drama de um homem

Esse não é um filme sobre super-heróis, sobre fantasias e super-poderes, não é a história do “Wolverine”. Apesar de conter os elementos, esse é um filme sobre um homem, Logan, e sua resistência em continuar se escondendo e fugindo do passado.

Talvez, o maior inimigo de Logan não seja Donald Pierce e os Carniceiros com suas inúmeras armas, mas sim a transição entre um homem fugindo de seu passado em direção a um presente que envolve cuidar de uma menina de 11 anos e um nonagenário com uma doença cerebral degenerativa, que coincidentemente, possui a mente mais poderosa do mundo.

A empatia com a personagem X-23 é realçada pelas sombras do passado pois o protagonista encontra na garota uma metáfora de si mesmo. Ao longo de seu relacionamento com os personagens, Logan encontra uma nova “família” ao passo que é tragado por responsabilidades e laços afetivos, coisas das quais fugiu a vida inteira.

Um filme definitivo sobre Wolverine

Em entrevista coletiva, Hugh Jackman diz considerar esse o filme definitivo sobre Wolverine. “É um mundo realista e pé no chão (…) não é um filme em que um prédio cai sobre as pessoas e fica por isso mesmo. Quando alguém morre… Elas morrem.”

Esta perspectiva mais realista da narrativa é evidenciada em cena. Dentro do universo da trama os X-Men se tornaram heróis e deram origem à histórias sobre seus feitos. Confrontado por uma HQ, inclusive desenhada pelo próprio Joe Quesada, que narra parte destes fatos, Logan indica que “Talvez um quarto disso aconteceu, e não foi assim (…) No mundo real, as pessoas morrem”. Hugh Jackman compara o sentimento do personagem ao de um veterano de guerra – glorificados por atos heróicos, muitas vezes exagerados, enquanto são consumidos pela culpa das atrocidades que presenciaram.

Cercado por arrependimentos, culpa, violência e tristeza entendemos melhor o homem por trás do herói. A história de um homem criado em laboratório para ser uma arma e que não consegue mais viver com a culpa e o peso. É a visão de alguém que já presenciou tantos amigos morrerem ao longo da vida que a última coisa que ele quer é voltar para a batalha.

Tensão e violência em profundidade

Mesmo não costumando me afetar tanto com filmes, me peguei prendendo a respiração e segurando na poltrona do cinema em diversos momentos, sentindo que estava paralisado junto à cena, apanhando junto ao Wolverine com toda a realidade e humanidade trazida às telonas.

Com uma das melhores incorporações de Hugh Jackman e Patrick Stewart nos papéis de Wolverine e Charles Xavier, observamos atuações densas e que fogem dos padrões estabelecidos para estes personagens. Além, é claro, do destaque para a sensacional Dafne Keen como Laura (X-23), a pequena responsável por boa parte da violência e tensão dentro da trama.

Laura traz toda a fúria e brutalidade que Wolverine tenta tanto esquecer, porém ao mesmo tempo, mostra traços e momentos em que vemos ali uma simples criança, mas que foi forçada e criada desde o nascimento para se tornar uma arma. 

Fãs do Wolverine dos quadrinhos podem respirar aliviados. O filme foi feito e pensado para vocês pelo próprio Jackman, juntamente a James Mangold.

E se algum dia você já quis qualquer prova de que adamantium consegue perfurar um crânio e cortar cabeças, ask no more. Logan tem muito material pra estudar.