Uns avisos precisam ser feitos: esse REVIEW de Coringa foi escrito por alguém que amou o filme, mas só isso. Não foi escrito por um entusiasta de cinema, ou mesmo de cultura geek (meu forte aqui é cultura otaku). As referências e insights ao universo das hq’s podem ser muito bem encontradas no Nerdcast, que dispensa apresentações. E as referências cinematográficas, tanto as óbvias quanto obscuras, do trabalho de Martin Scorsese e de outros podem ser bem descobertas no Extremistão Podcast, contadas de um jeito que eu jamais sonharia em fazer igual.

Meu interesse aqui é comentar Coringa naquilo que ele é mais óbvio: a decadência de um homem doente para os fins da loucura e as formas como seu entorno contribui nisso. Afinal, até onde os monstros existem e até onde nós os criamos? (essa é A pergunta que me prendeu a Monster, um dos melhores animes que já vi)

Feitos os avisos, sigam-me os bons. Os loucos também.

Coringa Review

AFINAL, O FILME É PERIGOSO? TANTO QUANTO GAMES “SÃO”.

A razão de altos pânicos midiáticos, Coringa de fato é um filme perigoso, mas não pelos motivos que se pensa. Uma ode à violência? Não dá pra esperar flores de um filme onde a estrela é um clássico vilão dos quadrinhos. “Filme de incel”? Muita gente amplamente indesejada pode acabar se identificando com a aflição de Arthur Fleck, de fato. Mas esse nem é o “problema” (ou sequer mesmo um problema). Coringa é um filme “perigoso” porque ele desnuda a indiferença de todos nós. Uma indiferença que deixa cada um à própria sorte, o que é pior para o elo mais debilitado, mas quem liga não é mesmo?

E por que isso seria um “perigo”? Porque é com certeza uma inconveniência enorme quando nos vemos na necessidade de conversar sobre coisas que normalmente não se recusa a discutir: como tratamos nossos loucos? Qual a nossa parcela de culpa quando damos de ombros à angústia alheia? Como fechamos as portas fingindo que não é com a gente? Parece ridículo que um “filme de quadrinhos” nos empurre para essas perguntas, ainda que implicitamente. Mas só parece ridículo mesmo para quem tende a banalizar a cultura pop.

A parte do mundo que se sente afetada e alfinetada por esse problema de se olhar no espelho, que aprenda a lidar com isso. No mundo normal, a atuação impecável de Joaquin Phoenix está sendo antecipada desde já como uma das melhores do ano (e quiçá da década). E é inesperado que o Todd Philips de “Se Beber Não Case” seria capaz de ir da água ao vinho, dirigindo um filme sombrio, mórbido e, por isso mesmo, cômico. Quem imaginaria?

Coringa nos lembra da parentela bem próxima que existe entre a comédia e a tragédia. Somos lembrados que a comédia é uma das reações a tudo aquilo que é ridículo, enlouquecedor, para que não nos tornemos nós mesmos loucos. Isso claro, do nosso próprio ponto de vista. Enquanto vestir a pele de palhaço faz com que uma pessoa dê sentido à própria vida trágica, o mundo que o vê de longe continua o vendo com a mesma estranheza como quem vê um maluco.

Apesar da simpatia que a direção do filme nos persuade a sentir, sejamos menos rousseaunianos: não quero justificar a vilania de Arthur Fleck, que não deixa de ser o que é: o Coringa, alguém que mata sem remorso, que “só tem pensamentos negativos”. O que Todd Philipps faz de um jeito bem sagaz, entretanto, é tingir Coringa com vários tons de cinza, de tal modo que todos os poucos momentos de explícita violência sejam verdadeiramente catárticos, empolgantes, tamanho o envolvimento que o filme causa com o seu protagonista.

Coringa Review

PÂNICOS PRÉ-ESTREIA E UM FILME SOBRE LOUCURA

Quem leu até aqui percebeu que sequer falei de Batman, ou de DC, quadrinhos, ou algo que o valha. Não tenho como saber se alguém queria e esperava mesmo por um filme de “super-vilão” ou algo mais aos moldes dos filmes da DC Universe. Se alguém realmente tinha essa expectativa, ela com certeza foi quebrada e essa pessoa com certeza saiu decepcionada do cinema. Mas não foi por falta de aviso. Coringa é um “estudo de personagem” (para usar as palavras do crítico de cinema da Rádio CBN) e isso já vem sendo anunciado desde os trailers.

E pra ser bem franco, Coringa não tem sequer a possibilidade de spoilers. O filme anuncia o nascimento de um dos vilões mais icônicos de Batman, se não O maior deles (graças talvez a Cesar Romero, ou a Mark Hamill, ou a Heath Ledger ou mesmo às postagens pré-adolescentes de Tumblr). Os trailers já nos mostravam que o filme seria do início ao fim a história da decadência de um homem lutando até o fim para agarrar-se à própria sanidade para no fim ceder à loucura e abraça-la de corpo e falta de alma.

Em parte esse destaque da decadência de um homem foi um dos motivos do pânico midiático que encheu o filme de críticas e resenhas antes mesmo de sua estreia. Fenômeno curioso e, sem dúvida, cômico. Mas a linguagem de nosso momento no mundo o explica: num mundo que vive e respira identidade a todo o custo, um filme sobre o nascimento do Coringa não seria apenas isso. Longe disso. Antes de tudo, Coringa seria um filme sobre um “homem, branco, antissocial, transtornado e narcísico”, traços de um dos maiores espantalhos pintados nos últimos meses: o “incel”. Alcunha tosca que mede um rapaz pela sua capacidade de conseguir sexo.

Sim, lido pelas lentes da identidade, a atuação de Joaquin Phoenix pode sim ressoar em pessoas com condições semelhantes de deslocamento do mundo, isolamento e insociabilidade. Mas dessa possibilidade real até dizer que “Coringa incentivaria tiroteios” há o mesmo tipo de salto lógico que diz que Yu-Gi-Oh provoca rituais satânicos ou que GTA incentiva a roubar e matar. Por mais espantoso que seja esse tipo de “previsão” não ser mais exclusivo de puritanos da terceira idade (hoje nossos puritanos são mais jovens), isso é mais uma de várias recusas em prestar atenção a esses párias e ouvi-los do que uma preocupação genuína a essas vítimas imaginárias de tiroteios que no final das contas nunca existiram. Essa surdez é um problema que em muito extrapola o filme e este review, então sigamos.

Ao passo em que a estreia de Coringa seguiu tranquila e aclamada por multidões de pessoas que iam e vinham das sessões de cinema, a sanha identitária perdeu logo a vez. As mostras do filme iam e vão muito bem, obrigado. Passado o pânico moral, vemos que o filme não desleixa em mostrar o estado torpe da mente de Arthur Fleck. Em nenhum momento ele é retratado com normalidade, ou mesmo vangloriado por fazer o que faz. Mas não somos persuadidos a olhar para este homem com nojo ou desprezo, porque somos capazes de ver que Arthur é um cara que tentou dar certo até sua última tentativa, que quando falha o transformou no Coringa.

Coringa Review

DESCENDO ESCADA ABAIXO RUMO À INSANIDADE

Porque veja bem: Arthur Fleck é um palhaço. Alguém que ganha a vida fazendo graça e provocando sorrisos. Ele ouviu da mãe desde criança que ele foi feito “para trazer sorrisos para o rosto das pessoas” e assim tenta fazer principalmente por amor a ela. Amor estampado explicitamente na sua fantasia, onde Arthur é recebido e aplaudido num famoso talk show por ser um bom filho.

Seu azar está em tentar estampar sorrisos numa Gotham que está começando a se tornar o inferno urbano pela qual ela é bem conhecida na DC Comics. Uma Gotham que convive com o caos, a criminalidade, com a pobreza e o lixo acumulado de greves que exigem melhoras. Algo curiosamente muito parecido com a Chicago de hoje em dia, apesar de Gotham ser inspirado na Nova York mais caótica dos anos 70. Quer como seja, poucas pessoas estão preocupadas em sorrir em meio a esse cenário. E no meio da podridão, o mal passa a ser tão cotidiano que ele vira banal.

Em Gotham impera uma banalidade do mal onde roubar e espancar um palhaço em plena luz do dia não comove lá muita gente. Essa banalidade provoca um efeito mais perverso do que o sadismo puro e simples. Seja os transeuntes que apenas assistem imóveis a um roubo ou o patrão que teve seu empregado agredido ou o colega de trabalho que finge ajudar para depois prejudica-lo, Gotham vive um estado de “cada um por si” inconcebível para alguém como Arthur Fleck que vive seus dias isolado em seu mundinho e em suas fantasias.

Esse mundinho existe para proteger o próprio Arthur Fleck de si mesmo, que não nega ter “nada além de pensamentos negativos”. Sua tentativa sincera de levar sorriso às crianças, barradas por adultos desconfiados de um homem franzino e de aparência esquisita, é um jeito de tentar barrar sua própria negatividade. Por trás de seus sorrisos, existem acessos de raiva, uma bomba relógio anunciada. E, paradoxalmente, a longa escada de sua residência, ao invés de indicar uma ascensão, serve bem como uma alegoria de como tentar escalar a decência da vida comum é um fardo pouco rentável.

A INDIFERENÇA E A ANESTESIA MORAL

Ninguém poderá negar que a própria Gotham puxou Arthur Fleck o máximo possível pra perto de sua negatividade, criando seu próprio monstro em alguma medida. Ele é acima de tudo alguém invisível; e quando visível, ele sequer é um doente, mas um louco no pior dos casos e um estranho, no mais gentil dos casos. E a indiferença do mundo pesa mais na sua transformação do que sua exposição ao ridículo em rede nacional: nada é mais brilhante do que o jeito que Coringa mostra a indiferença dos próprios “agentes sociais” que deveriam ajudar os desamparados.

A assistente social que “trata” Arthur Fleck o escuta, mas nunca parou para ouvi-lo. Lembremos: escutar e ouvir tem a mesma diferença sensitiva entre ver e enxergar. Suas perguntas são mecânicas e repetidas monotonamente como que saídas de um protocolo para funcionários da saúde pública, para auxiliar em massa os doentes da forma mais eficientes possíveis. Não importa o que Arthur está dizendo. Importa que ele cumpra sua parte no procedimento, escrevendo coisas num diário, e que a assistente cumpra seus protocolos, repetindo as perguntas, reportando as respostas de volta em relatórios e assim repetindo o processo.

Ela só faz isso tudo porque é o trabalho dela e tão somente isso. Quando realmente chega o momento de dizer algo para seu paciente (que é diferente de falar), é para jogar o peso da realidade contra seu rosto como quem joga um tijolo na cara de uma criança: “Eles não ligam merda nenhuma para gente como a gente”.

Essa indiferença é uma das coisas mais intrigantes de Coringa , porque lembra muito o tipo de indiferença produzida pela burocracia mencionada por Zygmunt Bauman em “Modernidade e Holocausto” nos seguintes termos bem referenciados em vários trabalhos universitários: “a produção social da indiferença moral e da invisibilidade moral”. Trocando em miúdos, a assistente social está bem distanciada entre seu trabalho e o efeito dele causado em Arthur Fleck, ao ponto dela se contentar com o desleixo; pois ele está invisível a essa altura, o que a torna indiferente e de consciência limpa com isso.

Isso porque Bauman está falando sobre o holocausto, o cúmulo estarrecedor desse processo de anestesiamento moral de pessoas que se relacionam não com pessoas, mas com números e prontuários (para o nosso horror, não foram monstros sádicos que realizaram o holocausto, mas pessoas que apenas “estavam cumprindo seu trabalho”). Mas pelo visto não é preciso ir tão longe assim para ver essa mesma anestesia operando de forma mais sutil e produzindo efeitos sutilmente desastrosos. A assistente social, desanimada e anestesiada pelo seu ambiente de trabalho desestruturado, relega seus pacientes à própria sorte e só quer saber de fazer o dela. Pouco importa se seu descuido irá contribuir na criação de um psicopata: o dela “está feito”.

Agora, quem viu o filme sabe bem que a hostilidade do mundo e sua indiferença não foram suficientes para quebrar Arthur Fleck por completo. Há um último elo que quando partido, aí sim, faz desmoronar todo o seu esforço de subir as escadas rumo a uma vida aceitável pelos seus pares. Talvez essa seja a única parte “spoilável” do filme; quem não viu o filme e quer evitar esses spoilers, pode pular a seção seguinte direto para as conclusões.

coringa filme 2019

A GOTA D’ÁGUA (ZONA DE SPOILERS)

Coringa é um filme que toma a liberdade de mexer em algo que nunca teve um martelo definitivo que desse um ponto final: a origem do Coringa. Até porque o mundo dos quadrinhos é rico em versões alternativas e origens distintas, sem falar em multiversos. Dessa vez, o Coringa não é o antigo Capacete Vermelho caindo num caldeirão tóxico que fica desfigurado e aterroriza o Batman com sua aparência. Dessa vez ele é um homem doente empurrado aos limites de sua loucura que encontra Bruce Wayne ainda menino, antes mesmo de sua orfandade.

Sua desfiguração não é física, mas mental. Suas portas vão sendo uma a uma fechadas: seu emprego perdido, em parte graças ao seu descuido, em boa parte graças à traição de um colega que lhe “doa” uma arma. Sua assistência médica cortada, porque ninguém dá a mínima de qualquer jeito. Seu sonho de ser comediante é ridicularizado em rede nacional pelo “rei da comédia”, Murray Franklin, com a mesma careta debochada de um Bill Maher da vida (a semelhança que Robert de Niro faz com as caretas do famoso host americano parece até proposital).

Mas como um fio de uma teia de aranha que separa um desesperado por salvação do abismo do inferno, Arthur Fleck tem em seu amor pela mãe um sólido suporte que o mantém são. Ele acredita ser um filho amado. Fazer de si um filho devoto, cuidador da mãe idosa é a única credencial sólida para fazer frente aos impulsos negativos, à sua sociopatia e mesmo à sua psicopatia que o leva a matar três homens que o agrediam e não sentir nem um pouco de remorso por isso.

Quando até isso é rompido e descobre-se que o amor de sua mãe e até mesmo sua maternidade eram uma farsa narcísica para arrancar dinheiro de um bilionário como Thomas Wayne, Arthur Fleck se depara com o Vazio. Tudo o que dava suporte para sua vida trágica estava desmoronado. Um homem nessa situação tem apenas duas alternativas diante do Absurdo: ou o fim da própria vida que a partir desse momento se tornou ininteligível e insuportável (o que ele explicitamente considera) ou abraçar o Absurdo como quem não tem mais nada a perder, dando a ele até mesmo o significado mais distorcido possível.

Arthur Fleck, que já sentia forte a ausência de uma figura paterna em sua vida (fantasiando-a em Murray Franklin e perseguindo-a no suposto pai, Thomas Wayne), quando descobre a farsa de sua vida como um meio pra faturar uma grana, tem o fio da aranha partido de vez e abraça o próprio inferno que habite em seus pensamentos negativos. É quando ele percebe que sua vida “ao invés de uma tragédia, era uma porra d’uma comédia”, que nasce o Coringa.

E a alegoria da subida cansada e penosa da escadaria de seu condomínio dá lugar à descida, à queda, livre-leve-e-solta como quem se removeu de um peso incômodo e está completamente livre: descendo ao pior abismo que era sua única alternativa durante esse tempo todo. Mas uma descida quase que triunfante, iluminada pela luz do dia e tingida das cores vibrantes de sua nova persona, que é o Coringa, o “piadista (Coringa) que tenta ser um comediante”.

E veja bem como quase nada se falou a respeito de tooooodo aquele movimento político que Arthur sem querer causou ao matar três executivos da empresa de Thomas Wayne, o candidato arrogante a prefeito que chamou de “palhaço” os cidadãos de Gotham. Importa que seja dito algo mais além da inutilidade de tudo aquilo para o próprio Coringa, que vê a si como que no meio de uma festa? “Tudo é político”, diz a engajada, mas nada é mais marcante do que o Coringa simplesmente jogar a máscara de palhaço da qual ele se beneficiou minutos antes na lata de lixo.

Porque o Coringa é um palhaço feito de escárnio e a lata de lixo é o lugar último de qualquer crença e qualquer convicção para alguém que teve a sanidade desmoronada e resolveu abraçar o vazio do absurdo, que é um dos caminhos lógicos de qualquer um que chegou ao niilismo como prática de vida. Um desfecho bem kefkaniano.

Sim, kefkaniano, não kafkaniano. Falo não do autor de “A Metamorfose”, mas do icônico vilão de Final Fantasy VI, Kefka Palazzo. Uma contra-parte fantástica do Coringa (mas tão bem trabalhada quanto): um vilão obcecado em destruição, pois nada no fim faz o menor sentido.

kefka

CONCLUSÕES

Coringa conseguiu me levar à estreia de um filme no cinema, coisa que não faço desde Piratas do Caribe 4. Verdade seja dita, toda a propaganda negativa de um filme que sequer havia estreado me valeu de grande incentivo. O pavor da própria ideia de uma mídia me causa muita curiosidade, pois ela fala mais do que do próprio filme, mas dos medos e dos silêncios de quem quer ver aquilo trancafiado a sete chaves.

Nesse sentido, eu aceito com prazer as críticas de quem, com razão, diga que eu não escrevi estas linhas por admiração ao cinema baseado em hq’s mas pela paixão da polêmica. Disso sou escancaradamente culpado.

Mas é claro que o óbvio não me escapa: Joaquin Phoenix foi de uma atuação única e que vale por si só a nota máxima desta review. E foi quase certo, dada a aclamação unânime, que o Oscar era garantido.

A direção também não deixou a desejar. Todd Philips parece ter captado bem a essência de um doente mental preso de forma narcísica em si mesmo, ao colocar o filme quase inteiro sob a perspectiva de Arthur Fleck. Se por um segundo parece que ele colocou a maldade de Gotham na conta de “personagens caricaturizados”, uma piscadela de olho simples sobre a nossa realidade que nunca deixou de banalizar o mal pode dar prova de que a construção desse Coringa está longe de ser implausível.

Em suma, Coringa tem a obrigação de ser assistido. Temos aí um nascimento inédito e original de um dos maiores vilões da cultura pop acompanhado de uma atuação exemplar, que capta um retrato perturbador da loucura, de tão preciso. E por essa mesma precisão, o filme é uma dessas joias que só se vê uma vez por década.