Antes de qualquer análise, é preciso entender as aspas. O título oficial do novo longa de Emerald Fennell é, deliberadamente, “O Morro dos Ventos Uivantes” — entre aspas. Não é capricho tipográfico. É um aviso.
A diretora de Bela Vingança e Saltburn não filmou uma adaptação do romance de Emily Brontë. Ela filmou a memória coletiva dele: a versão distorcida que vive no imaginário popular, vendida por capas de livro com casais apaixonados no vento e confundida com história de amor quando é, na verdade, uma tragédia de obsessão e crueldade. “Se o livro fosse vendido dessa forma, como seria?” — é dessa pergunta que nasce o filme.
A resposta é provocadora, tecnicamente apurada e narrativamente irregular.
Margot Robbie e Jacob Elordi: a química que sustenta o filme
O par protagonista é o coração pulsante da obra. Margot Robbie entrega uma das atuações mais multifacetadas de sua carreira: transita entre a doçura singela e a crueldade selvagem dentro de uma mesma cena, equilibrando o que poderíamos chamar de perfeição plástica e sujeira moral sem deixar costura aparente. É aquela dualidade entre a selvageria da Casa do Morro com a Granja, o que achei bem interessante.
Jacob Elordi canaliza Heathcliff como uma figura de bad boy contemporâneo. A leitura é intencional — e controversa. O personagem, originalmente construído como uma criatura de vingança complexa e ambígua, ganha contornos mais próximos de um homem rejeitado FAZENDO BIRRA do que de um anti-herói gótico. Funciona dentro da proposta do filme; perde em profundidade literária.
Juntos, os dois criam uma tensão sexual densa que permeia até as cenas mais corriqueiras. O erotismo do filme não depende de nudez — ele está nas mãos, nas bocas, nos objetos, nos enquadramentos. É constante, presente e raramente (eu diria nunca) vulgar.

Qualidade técnica: figurino, som e fotografia
O figurino assinado por Jacqueline Durran é um dos pontos altos da produção. A mistura entre alta costura moderna e gótico romântico cria uma estética que não pertence a nenhuma época específica — o que é completamente proposital. Fennell abraça o anacronismo da mesma forma que Baz Luhrmann em Romeu + Julieta: com convicção e sem pedir desculpa.
O design de som merece destaque especial. O vento — tão central no título original — é utilizado em camadas, criando uma atmosfera imersiva que responde ao estado emocional da protagonista. Quando Cathy está em colapso interno, o vento engole a cena. Isso segue com chuva, raios e trovões também, deixando a protagonista sempre com frio, o que fazia-me cantarolar sempre “Heathcliff, it’s me, Cathy, I’ve come home, I’m so cold, let me in-a-your window”…
A fotografia aposta em saturação intensa (veja abaixo) e enquadramentos que flertam com o formato vertical das redes sociais, fechados e focados nos rostos. Há quem veja isso como crítica à cultura do consumo visual. Há quem veja como rendição a ela. A tensão entre os dois lados é parte da experiência do filme e acredito que a diretora faz isso propositalmente.

Ressalva pessoal: senti falta de tomadas aéreas e de um maior empoderamento visual das duas residências — a Granja e a casa no Morro. Esses espaços são personagens no livro. No filme, ficam em segundo plano.
O que foi preservado — e o que foi descartado
Fennell descarta a segunda metade do livro. Personagens centrais na narrativa de Brontë são reduzidos ou fundidos a outros e/a funções menores. Isabella aparece como alívio cômico e caricatura de submissão, desperdiçando o que poderia ser um contraponto dramático rico, principalmente em seu segundo ato que considero uma barriga danada e onde a personagem poderia ter aparecido mais.
Nelly Dean, por outro lado, recebe uma reconfiguração. Interpretada por uma atriz asiática, a excepcional Hong Chau, ela é apresentada como filha bastarda de um lord que a escondeu nos pântanos como companheira de Cathy — pagando pela vergonha de sua existência. Isso não é apenas diversidade de elenco. É uma chave de leitura para entender por que Nelly age como age ao longo de toda a história, e por que Cathy é tão centrada em si mesma e cruel. A escolha remete à crítica literária dos anos 1950-60, especialmente ao trabalho de James Hafley, que declarou Nelly a verdadeira vilã do romance. Fennell parece concordar — e depois dessa pesquisa para este REVIEW, o filme ficou mais rico por isso.

Raça, classe e outsiders: o filme é mais complexo do que parece
As polêmicas étnicas do longa vão além de Heathcliff. Linton é apresentado explicitamente como novo rico — sua fortuna vem do comércio, não da terra. Cathy deixa claro que veludo não equivale a linhagem. O pai dela apoia o casamento não por afeição, mas porque está quebrado.
Há uma cena em que o patriarca admite estar disposto a ignorar a não-branquitude de Linton e a origem de Nelly pelos seus “bons traços” — a riqueza de um, o trabalho da outra. Das poucas aberturas no tema que o longa faz nesse sentido.
O filme não é um ensaio sobre racismo. Mas tampouco ignora que a maioria dos personagens são outsiders por razões variadas: pobreza, raça, bastardia, esquisitice. Heathcliff não é o único à margem. É apenas o que amou Cathy. E isso, pode ser superficial, concordo, mas no fim, é o que permanece quando tudo mais é descartado.

Onde o filme tropeça: montagem e passagem do tempo
O segundo ato apresenta problemas reais de ritmo. A montagem perde sustentação e a diretora recorre a segmentos acelerados com trilha sonora pop que funcionam mais como trailers do que como cinema. A passagem do tempo — elemento narrativo sempre desafiador em qualquer adaptação de Brontë — não é resolvida de forma convincente.
Há também uma crítica legítima à obsessão do filme por criar sequências prontas para viralizar. Alguns momentos parecem construídos de fora para dentro: primeiro o enquadramento impactante, depois a necessidade dramática. Quando isso acontece, a fluidez da trama paga o preço.

A coragem do desfecho — e o que o filme realmente propõe
Curiosamente, contrariando toda a superficialidade que o filme transforma da obra literária e a suavização do texto de Brontë, Fennell mantém a crueldade dos personagens até o fim. Não há redenção. Não há amor que redima a manipulação. O espectador é forçado a se perguntar por que continuou assistindo — e a resposta é incômoda.
O filme constrói uma relação tóxica com o próprio público: mistura asco e curiosidade, sedução e degradação. Você sabe que aquelas pessoas são destrutivas. Você não consegue parar de olhar.
As cenas envolvendo Isabella Linton e Heathcliff, assim como a relação entre Joseph e Zillah, são filmadas com atenção especial ao universo do Dark Romance — literatura com temas de BDSM e fetichismo que domina o mercado editorial feminino atual. Fennell parece perguntar: o que acontece quando o livro que não é romance é lido como romance? E então filma exatamente essa leitura distorcida.
Kate Bush continua como detentora da melhor adaptação do livro. E o Angra, com a melhor versão! kkk
Veredicto
“O Morro dos Ventos Uivantes” de 2026 não é uma adaptação. É uma reimaginação deliberada, uma sátira afetiva da memória popular (ou da diretora) de um clássico. Tecnicamente impecável em partes, narrativamente irregular em outras, é um filme que incomoda da forma certa — e que não pede para ser comparado ao livro, porque nunca fingiu sê-lo.
Margot Robbie e Jacob Elordi sustentam a obra nos momentos em que o roteiro vacila. O erotismo é levado a sério. A crueldade, também. Para quem busca fidelidade a Brontë, a frustração está garantida. Para quem aceita o convite das aspas, o filme tem muito a oferecer.


