Além de ter sido um dos últimos a estrear na temporada passada, Tsukumogami Kashimasu ou We Rent Tsukumogami, também acabou sendo o que mais demorou a terminar. O anime da Temporada de Verão 2018 está disponível para ser assistido na Crunchyroll, então vá lá dar uma olhada!

A passagem do furacão Trami, o maior a atingir o Japão nos últimos 25 anos, atrasou a transmissão deste anime e de Shingeki no Kyojin. Mas a espera valeu a pena, pois o anime acabou sendo uma surpresa. Um tipo diferente de slice-of-life que se passa no passado, na era Edo, nos mostrou um tanto sobre como era a vida nesse tempo. Confira mais neste REVIEW!

Um Passeio na Era Edo

Dois irmãos gerenciam uma loja de empréstimos, Seiji e Oko. Ah é, eles não tem laços sanguíneos. Sim, algum tipo de cliché tinha que ter, mesmo para um anime original como esse. Mas como assim loja de empréstimos? Explico, mas vamos explicar do começo, para aqueles que sequer sabem o que é Edo.

Edo era o antigo nome do que hoje é Tokyo. Durante cerca de 250 anos foi a capital do shogunato Tokugawa, desde quando firmaram a unificação do Japão em 1615, massacrando os remanescentes da família Toyotomi no cerco ao Castelo de Osaka. Esse foi o final da famosa Era Sengoku, apresentada e reapresentada de tudo quanto é jeito em animes e jogos, sendo Sengoku Musou o meu favorito dentre todos.

O final da Era Edo, muitos de nós sabemos bem, principalmente os nascidos nos anos 90, graças a Rurounin Kenshin. Porém, Tsukumogami se passa num entretempo, onde o shogunato Tokugawa ainda vivia com seu domínio ainda incontestado e num tempo de maior prosperidade, florescendo as artes e o comércio. Ainda não era o tempo do Bakumatsu, o tempo de Battousai O Retalhador.

Este é o tempo comum de dois irmãos cuidando de seus negócios. Podemos assim, especular tranquilamente que o anime se passa em qualquer ano do século XVIII, um século de relativa paz após mais de um século de guerra civil e que ainda não viria a conhecer os banhos de sangue do Bakumatsu.

We Rent Tsukumogami
We Rent Tsukumogami (Imagem Divulgação)

Tá Pegando Fogo Bicho!

Isso deve dar conta quanto ao tempo do anime. Para qualquer dúvida mais pontual, sintam-se à vontade para perguntar nos comentários. Agora, loja de empréstimos? Como assim?
No Japão daquele tempo, grandes incêndios eram bastante comuns, havendo até um termo próprio para isso, o edo no hana (“pétalas de Edo”, talvez em alusão às brasas dos incêndios voando pelo céu como pétalas). Boa parte das moradias eram feitas de materiais facilmente inflamáveis como madeira, isso sem falar das janelas e lanternas feitas de papel.

Nesse cenário, um terremoto era o suficiente para incendiar uma grande vila. Isso era senso-comum, a ponto das pessoas não verem tanta necessidade em terem mais do que aquilo que elas conseguiriam carregar consigo. Daí a utilidade desses negócios, que tão somente alugavam todo o tipo de coisa, como potes, roupas, pinturas e o que mais fosse necessário para aquela situação em específico. E essa é a fonte de renda dos irmãos Seiji e Oko.

Os Tsukumogami

Há algo mais aí. As lendas são várias em forma e em conteúdo, mas é dito que se você mantém um objeto consigo por muito tempo, ele acabaria por ganhar uma vida própria, virando um tsukumogami. Literalmente algo como “espíritos do uso”, há vários deles por aí, com várias histórias suas e de seus donos para contar entre si. Pessoas normais não conseguem vê-los senão em sua forma inanimada, mas o casal dono do Izumo-ya consegue percebê-los. E apenas isso, pois eles não podem conversar com esses espíritos.

Ao todo, são cinco os tsukumogami que moram no Izumo-ya: Notetsu, Tsukuyomi, Ohime, Goi e Usagi. Tsukumogami aproveita uns bons episódios para apresentar cada um deles, bem como seu uso comum naquela época, que às vezes envolvia mais do que ser uma pintura, poder fumar ou apenas pentear o cabelo. Isso tudo apresentando as charadas que costumam chegar junto com os clientes da loja de emprestados. Vamos falar um pouco mais de cada um.

Notetsu

Notetsu é um tsukumogami de um netsuke. O cabeça-quente do grupo, ele é o que sempre costuma andar por aí preso na roupa de alguém. Isso porque os netsuke eram acessórios comuns na era Edo, algo comparado às capas de celular de hoje em dia (quem faz essa criativa comparação é o próprio anime). Esses acessórios vinham em várias formas, sendo este na forma de um morcego.

Tsukuyomi

Tsukuyomi é o tsukumogami de um kakekiju. Frase complicada, eu sei, dá quase um trava-língua. Mas um kakekiju era e ainda é uma peça comum na vida de muitos japoneses, principalmente os que têm o hábito de realizar a cerimônia do chá, o cha no yu. Talvez hoje não haja mais tanta questão disso, mas na Era Edo, essas pinturas em formato de rolo faziam parte da ambientação dessa cerimônia. A escolha adequada do kakekiju conforme a estação do ano e o momento demonstravam o nível de etiqueta do anfitrião. E são essas normas de etiqueta que põe o pobre Tsukuyomi numa situação complicada. Porque mesmo sendo uma bela imagem da lua, é muito difícil achar uma ocasião propícia para usá-lo. E assim, mesmo tendo toda essa pompa orgulhosa (e rabugenta), Tsukuyomi é um dos mais solitários do grupo.

Ohime

Ohime deve ser com certeza o item mais familiar para nós. Afinal, as bonecas também fazer parte do nosso cotidiano, principalmente na vida das crianças. As bonecas japonesas em particular, as ichimatsu ningyo, impressionam até hoje pela sua minúcia de detalhes. A Ohime é a princesa do grupo, como seu nome já deixa claro. Mas não é a única garota, pois ainda tem a companhia de Usagi, a pente.

Goi

Goi é um kiseru com de cara séria, mas um sujeito tranquilo. Podemos chamar de cachimbo? É, até dá. Mas é um tipo bem peculiar de cachimbo. Ou sofisticado, eu iria além. Os kiseru, assim como os netsuke, também eram personalizáveis, havendo desde os mais simples até aqueles que vinham com alguma inscrição de algum animal. Por isso Goi é um corvo, sendo o tsukumogami de um kiseru decorado com a figura de um corvo. Sua história é uma das mais interessantes do anime inteiro. Como já dito, algumas coisas não se limitavam ao seu uso direto. O kakekiju não servia para apenas decorar qualquer canto da casa. Assim como o kiseru não servia apenas para fumar. Ele também era um jeito de dizer a alguém que você estava afim dela. Só que não é bom pensar isso de forma muito romântica, porque isso era mais comum entre as gueishas e os seus clientes. Você podia ter um caso de uma mulher descobrir uma traição ao achar um kiseru nos pertences de seu marido. Alguns causos no mundo são os mesmos, no tempo e no lugar que for.

Usagi

Usagi é um tsukumogami com um jeito de menina bem animada, fazendo justiça ao seu design de coelho: fofa e saltitante. Ela é um kushi, simplesmente o equivalente para “pente”. Um item tão famoso quanto o ichimatsu ningyo, e também ainda muito usado hoje em dia.

Como vocês podem ver, pentear os cabelos rendiam até pinturas pela beleza do ato. E era um hábito familiar as mães passarem um tempo penteando os cabelos de suas filhas. Além disso, o kushi também servia de ornamento, prendendo o cabelo de modo a dar essa forma famosa dos cabelos das mulheres até o início do século passado. Todo esse ornamento recebe o nome de kanzashi e é usado até hoje por gueishas e noivas que participam de casamentos xintoístas.

We Rent Tsukumogami

Conclusão

Megumi Hatakenaka, a autora original dos livros da série Tsukumogami, realizou um feito riquíssimo ao mostrar com tantas minúcias um dos períodos mais ricos da história do Japão. Sem o artifício de uma história épica ou grandes heróis, ela mostra uma faceta até então bem inacessível por muitos pela beleza do cotidiano, da vida normal de pessoas que viviam um mundo que sequer existe mais. “O passado é um terra estrangeira”, já diria o ditado, então é certo que o aprendizado que Tsukumogami nos dá, ele também deu a muitos japoneses. Talvez daí venha sua fama, que extrapolou os livros e que ganhou a tela dos animes.

Se você é alguém que também tem um fascínio pelo Japão histórico, esse anime é quase uma obrigação. Além dos tsukumogami, os outros personagens que aparecem são muito bem feitos, mas conhece-los a cada episódio é uma das maiores graças do anime, por isso não entrei em detalhes. O final foi muito bem amarrado, sem deixar nada a desejar. Pessoalmente, o anime vale 4,5, no mínimo. Mas reconheço que não é um anime para todo mundo. O ritmo pode acabar sendo lento até mesmo para o fã de slice-of-life e pra quem não é muito chegado em coisas japonesas demais, muito do que está ali pode acabar sendo simplesmente… chato. Então, fazendo justiça aos que possam não gostar, quanto a quem gostou demais, deixo um 3,5 para Tsukumogami.

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REVIEW
We Rent Tsukumogami
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Eriki
"Um historiador apaixonado por uma boa leitura e guitarrista por hobby. Alguém que ama um bom slice of life e tem um vício crônico por jogos single-player. Me aventuro a compor pequenos poemas haiku e aprender mais da cultura e da sociedade japonesa!"