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Gibiate | Review

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Gibiate | Review

Não é qualquer anime que é Ruim, com R maiúsculo. Até pra ser um desastre é preciso talento. O projeto foi divulgadíssimo e cheio de nome de peso. Uma produção com desenhos de ninguém mais ninguém menos que Yoshitaka Amano, designer de Final Fantasy. Com abertura e encerramento compostas por SUGIZO, guitarrista das bandas lendárias X Japan e Luna Sea. E ainda assim, nomes à parte, Gibiate se saiu mal. Não teve nome e divulgação que salvassem o horror que se sucedeu.

Mas vejam bem… falar de “bom” ou “ruim” sempre vira uma pisação de ovos danada. Porque é tudo subjetivo, porque tudo é ponto de vista e vista de ponto e bla bla bla, bla bla bla. Ter gosto e juízo em arte meio que virou um tabu nosso. É feio a própria possibilidade da gente magoar o coleguinha que possa não ter se saído tão bem assim. Então tem por que escrever uma REVIEW sobre o quanto Gibiate foi horrível? Bom, quando se observa rede social afora, pessoas negativamente estarrecidas com um anime em quatro línguas diferentes (português, inglês, espanhol e francês), talvez, mas bem talvez meeeeeeeesmo algo objetivamente de errado tenha saído disso tudo.

Pois me permitam ser um pouco orwelliano aqui… todas as opiniões são igualmente válidas, mas umas opiniões são mais iguais do que outras. Ou, pra falar um pouco mais sério, todo juízo é passível de respeito. Mas alguns juízos são mais bem fundamentados do que outros. Então não se trata de dizer aqui apenas porque Eu, Eriki, achei Gibiate ruim; porque a questão aqui não é gosto. É a percepção, ao longo dessas semanas da temporada de verão, de falhas atrás de falhas que fizeram um mutirão de gente (sofredora, diga-se de passagem) perceber que estavam diante de um dos animes mais mal feitos de todos os tempos.

Então o que aconteceu?

O QUE GIBIATE TENTOU SER?

Vamos retroceder aqui e ver o que Gibiate propunha ser, segundo a sinopse disponibilizada antes de sua estreia:

“A história se passa no Japão. O ano é 2030 e a Terra foi tomada completamente por uma doença viral chamada “Gibia” que transforma as pessoas infectadas em vários monstros diferentes, baseados em sua idade, sexo e raça. Um samurai e um ninja de inícios da Era Edo viajam no tempo e chegam num Japão arruinado para ajudar um professor na cura para o vírus. Juntos, eles enfrentam incontáveis monstros Gibia, foras-da-lei e outros adversários fortes em sua jornada para salvar a humanidade” (tradução nossa)

O que aproveitou-se dessa sinopse de fato? Pouco. Para começo de conversa, os Gibia são apresentados como simples bichos mutantes e apenas isso. Eles não são tão variados como a sinopse dá a entender. Se tivéssemos mesmo monstros variados por 1) faixa etária, 2) sexo, 3) nacionalidade, só em Tokyo, uma cidade beeeeeem cosmopolita, já teríamos algumas dezenas de Gibias diferentes e esse lore seria um ponto bem positivo do anime. Mas ficamos a maior parte do tempo com os mesmo lagartos e repteis voadores, extremamente mal renderizados em um CGI que logo fez com que surgissem comparações na internet de Gibiate com um jogo nem de Playstation 2, mas de Playstation 1 mesmo.

O problema acaba aí? Não. Se o problema fosse apenas animação deficiente, uma boa direção poderia contornar uma carência por outra, como por exemplo, saber usar o pouco de animação para contar uma boa história. Mas nem isso temos. O samurai e o ninja, ou para dar nomes, Sensui e Kenroku são personagens até curiosos ao olhar, afinal Yoshitaka Amano continua sendo o designer que ele é. De quebra, ainda temos um monge! Yukinojou é um terceiro personagem vindo do Japão antigo para 2030.

Fora alguns flashbacks no passado que servem de fanservice para fãs de história japonesa (que acrescentam pouco), a atitude dos três é estranha, pra dizer o mínimo. Não quero ser o historiador chato que aponta o dedo pra ficção e diz que aquilo não é verídico o suficiente, Deus me livre e guarde. Mas se pergunte comigo… em que cenário é plausível que um samurai, um ninja e um monge sejam transportados quatro séculos no futuro e, com uma explicação de dez minutos de um professor, eles entendam perfeitamente como funciona um vírus? Ou granadas de pino? É possível você chegar do passado e saber na hora como se usa um hidrante, como acontece no primeiro episódio?! A naturalidade com a qual eles se acostumam ao nosso mundo é desconcertante demais de assistir. Mais desconcertante que isso, só um museu aleatório ter, convenientemente, todas as mesmas exatas armas usadas pelo nosso trio do Japão feudal, em perfeito estado nos últimos 400 anos. A cena chega a ser cômica.

Se os personagens do passado acabam não sendo mais do que a imagem da força numa humanidade devastada, os personagens de nosso futuro possuem alguma substância? Kathleen é uma menina que sonha com um futuro melhor, acompanhando um punhado de sobreviventes com o Dr. Yoshinaga em busca de uma vacina para o Gibia Virus. Entres esses sobreviventes, temos algumas referências bem estereotipadas de Dilon e Dutch de Predador (“You son of a bitch!”), uma personagem-tributo à Sarah Connor de O Exterminador do Futuro e a própria mãe de Kathleen, Yurika… que é uma batata.

Vejam bem, não quero diminuir sem mais nem menos a possibilidade de uma pessoa perder a sanidade com um mundo revirado de cabeça para baixo. É simplesmente uma questão de que a Yurika só serve como um amor platônico do monge Yukinojo, que nunca pode amar em seu mundo; e só. De resto ela apenas está lá no canto, feito um poste. E quando o anime vê que não dá mais pra seguir com ela, a Yurika é picada na mais pura aleatoriedade e perdemos um episódio inteiro em dramas, esperançosos de que aquela picada não a transforme num Gibia. Corte. Próxima cena, temos um Gibia morto usando as roupas da Yurika e um Yukinojo deitado, igualmente morto.

Todo esse sofrimento da jovem Kathleen faz parecer que ela é portadora de um destino maior pela frente e esperamos alguma conclusão do tipo ao longo de 12 episódios… o anime acabou e ainda estamos esperando.

E sobre os “incontáveis foras-da-lei e outros adversários fortes” de que fala a última parte da sinopse? Em resumo, é um bando bem atrapalhado liderado por um ex-yakuza, com um especialista em bombas (e em karê com tonkatsu), um mascarado que luta com redes de pesca (sim, foi isso que você leu), um cosplayer de mafioso italiano e um último sujeito sem absolutamente nada de marcante. Eles aparecem como uma espécie de Equipe Rocket, ameaças que acabam sendo mais cômicas que ameaçadoras.

Geralmente é bom avisar sobre os spoilers, mas Gibiate é um anime pra se passar longe. Por isso eu tenho certeza que você não vai se incomodar com spoilers de um anime que se esforça para cometer um suicídio de roteiro. E que consegue.

COMO ASSASSINAR UM ANIME

Okay, temos algo de qualidade duvidosa: personagens bem desenhados, mas com a profundidade de uma caixa de papelão, monstros feitos em computação gráfica de fazer lembrar os velhos tempos do Play1, dez episódios que não vão a lugar algum… mas a gente vai levando. Afinal, Gibiate tenta imitar aqueles animes de ação dos anos 90 com seus temas de batalha a la Hokuto no Ken, parece até bacaninha. E a gente tem que ter alguma boa vontade, certo? Afinal é tanta gente boa envolvida nesse projeto, com certeza deve valer a pena lá pra frente. Esperar em boa fé compensa afinal.

E como somos compensados? Com uma revelação completamente tirada do nada e do vazio, afinal Gibiate não conseguiu desenvolver algum antagonista ou vilão em 11 episódios. O jeito foi trazer o vilão de dentro da turma. É certo que o Doutor Yoshinaga parece um pouco estranho. O que ninguém poderia esperar, até porque isso jamais foi indicado em ponto nenhum do anime isto: ALIENS!

No momento em que a maior ameaça ao grupo de Kathleen havia sido neutralizada, a Gibia Meteora, um monstro retirado de algum boss de Final Fantasy VIII, de repente, assim tão repente, Yoshinaga se revela um alienígena em busca de uma cura para sua namorada, que havia se transformado na Meteora. Incapaz de dizer algo tão simples como “Não a matem! Ela é necessária para nossa vacina!” ou qualquer blefe do tipo, temos um giro de 180º na personalidade do doutor apaixonado e ele é tomado de uma fúria cega e veste a casaca do vilão que Gibiate nunca conseguiu criar pra si.

Tanto clímax, quanto desfecho e conclusão são executados de uma forma tão desastrosa, que toda boa vontade mencionada anteriormente cai por terra. O fiasco narrativo é somado à péssima animação e a falta de ao menos um personagem bem desenvolvido. A sensação é que você foi vítima de um estelionato, quase que um esquema de pirâmide em formato de anime. Afinal, Gibiate foi muito, mas muuuuito bem divulgado. Seu website é tão ambiciosamente bem feito quanto, da mesma forma ambiciosa, é anunciado como um grande projeto feito por grandes mentes do entretenimento.

E por mais verdadeiro que isso tenha sido, de que isso adiante sem uma equipe pra executar esse projeto à altura de como ele foi idealizado?

CONCLUSÃO: UMA ANDORINHA SÓ NÃO FAZ VERÃO

Faltou trabalho em Gibiate, a verdade é essa. Faltou animador, faltou tempo de renderização naquela computação gráfica de doer os olhos, faltou reunião entre direção e produção pra discutir roteiro, a viabilidade daquilo ser alguma coisa que realmente preste, enfim… sobrou Grandes Nomes, mas visivelmente faltou equipe. E a gente só tem é sentir pena das grandes figuronas envolvidas. Pessoalmente, sou um grande fã do SUGIZO. Luna Sea, sua banda, foi e ainda é uma das minhas maiores referências musicais e sempre estarei recomendando esse gigante da música japonesa quando tiver oportunidade. E é uma pena que seu nome seja associado a um projeto tão mal executado. É uma pena que o meu maior proveito durante o anime tenha sido ouvir as aberturas e os encerramentos, semana a semana. E que mancha na carreira do Yoshitaka Amano… seus esboços no site oficial de Gibiate são, como todo o resto de seu trabalho, coisas admiráveis. Um anime desse naipe faz jus ao seu trabalho?

Pra não dizer que tudo são horrores, a gente com certeza pode dizer que a produção de Gibiate é bastante corajosa. Ryo Aoki é O nome por trás do anime, produtor executivo E roteirista da produção. Sendo essa sua primeira iniciativa na indústria dos animes, é de se admitir que é preciso muita, mas muita coragem de, além de ter sido a pessoa que deu o “Okay” para uma produção daquelas, ainda se intitular o responsável pelo roteiro que ajudou a meter a última bala na testa de Gibiate.

Ainda mais escandaloso que admitir ser o responsável de um anime que “chocou o mundo” sim, do pior jeito possível, é estar disposto a ser o convidado de um evento gigante como a Anime Expo (em julho de 2021). A coragem (pra não dizer a pachorra) de se mostrar como o rosto responsável por um dos piores animes já feitos com a audácia de se apresentar como um grande projeto merece sim uma recompensa.

A vontade é de sentar e perguntar na maior sinceridade, “Afinal, o que aconteceu? Quais eram suas intenções para Gibiate? Qual foi a ideia por trás do anime? Será que o cachê pra cada um desses super-produtores esgotou todo o orçamento do anime, enquanto o resto foi gasto em publicidade e, por fim, álcool para digerir a dor do fracasso iminente?! Não nos leve a mal, seria bom ouvir seu lado!”.

Enquanto nada disso é respondido ainda (e provavelmente sequer será perguntado na Anime Expo, certamente por constrangimento coletivo) a certeza que fica é que não houve boa vontade que salvasse a experiência dolorosa de ver um anime como Gibiate, mal executado sob qualquer ponto de vista. Seja na qualidade de sua animação, ou de roteiro, ou de personagens, acho que dificilmente será assistida coisa pior.

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