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Após dois anos de anonimato nas telonas, Spike Lee está de volta para mais um filme no bom e velho estilo dedo na ferida com sal e limão que só ele sabe como se faz. Porém dessa vez, o filme está no catálogo da Netflix, Destacamento Blood conta a história de quatro veteranos que retornam para buscar os restos mortais de um companheiro e ainda resgatar um tesouro enterrado.

Parece muito filme de brucutú dos anos 80, não é? Não só parece como Spike Lee fez questão de trazer essa temática, tirar sarro desses filmes mentirosos e ainda mostrar como se deve fazer um filme de ação oitentista dentro dos padrões modernos, sem esquecer todo o ativismo cinematográfico que se tornou um símbolo importante em sua carreira.

Antes de mais nada, precisamos dar espaço para o que Spike Lee faz em Hollywood, com uma academia em sua maioria homens brancos, o diretor sempre trás momentos importantes da história que reforçam não só a importância da luta do movimento antirracista, como destaca o quanto o Estados Unidos não é uma país para negros e para isso utiliza de inserts desses momentos históricos em tela que reforçam o discurso de grandes nomes que forjaram o movimento, seja, eles de Martin Luther King Jr., Mohammed Ali, Barack Obama, etc, acompanhado de pequenos momentos onde ele exalta um nome importante para a representatividade, seja ele na música, no esporte ou na guerra.

Destacamento Blood têm esses momentos citados acima em boa parte da trama, nada gratuito, sempre dentro do contexto do roteiro e incluso em momentos de diálogo simples ou em momentos de reflexão. Lee não precisa provar de sua capacidade, repetindo sua fórmula sem medo de críticas e sabendo de sua importância – não é pelo dinheiro (somente) e sim a mensagem.

Destacamento Blood trouxe algo do diretor sabe trabalhar em seus filmes que é a leviandade de uma história fechada; em Infiltrado na Klan temos um filme de suspense policial bem clichê (para muitos), mas na mão desse gênio, uma obra prima. Pois bem, aconteceu de novo. Aqui temos um filme de ação ao estilo Rambo ou Braddock, mas dessa vez fazendo uma crítica bem ácida quanto a qualidade questionável desses filmes.

Além do ativismo claro, o drama da guerra no Vietnã foi algo forte para os estadunidenses, primeiro por causa dos protestos que eram feitos contra a guerra, segundo, dessa vez direcionado ao filme, o fato dos negros serem enviados para o Vietnã para “defender sua pátria”. Uma das maiores discussões que o movimento antirracista levanta é sobre tal patriotismo, poderiam eles defender uma bandeira de uma nação a qual eles são vistos de forma pejorativa e cada vez mais dos seus são mortos aos montes sem ser noticiado? Spike Lee trouxe esse drama em tela, e acredite, ele precisou menos de cinco minutos para mostrar isso, já que apenas quem sabe da luta sabe explicá-la.

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Temos quatro veteranos que lutaram no Vietnã em tela, todos bem diferentes mentalmente após voltar da guerra, mas um personagem que eu destaco pelo seu simbolismo e por sua atuação é Paul (Delroy Lindo), um ex-soldado preconceituoso com o vietnamitas, os chamando de “amarelos”. Além de conservador, um trumpista puro, tanto que seu figurino tinha o famoso boné vermelho “Make America great again”, podemos dizer que era o brucutú de todo aquele grupo, não que os outros veteranos não sejam durões, mas Paul é o estereótipo cuspido da década de 80 que popularizou naqueles filmes do Stallone e do Chuck Norris.

Em alguns momentos Paul quebra a quarta parede falando de sua ideologia para sobreviver, o irônico disso tudo foi que temos uma mistura aí do típico conservador extremista sempre apontando para cima, simbolizando Deus acima de tudo, além de querer provar o quão homem durão ele é em tela, mesmo sendo uma sátira, o personagem têm um momento de ouro para mostrar o quão preparado militarmente ele está no Vietnã mesmo sem guerra. Esse ato foi feito para salvar o filho e dentro da premissa do filme ficou fantástico, até ele nos lembrar que é extremista.

Vale citar a participação de Chadwick Boseman, que já que as gravações foram em 2018 e duraram três meses, logo foi muito tempo antes da morte de Chadwick. Seu personagem Stormin Norman, era a força de todos os seus amigos e também um dos motivos para retornar ao Vietnã, ou seja, muitas cenas de flashbacks e discursos ativistas de Norman não só foram marcantes em tela como após o falecimento de Chadwick, ganhou um patamar além do que transparece no filme, fazendo nossos olhos encher de lágrimas, pois não foi algo proposital de Spike Lee, mas em tela, se mostrou uma homenagem.

Spike Lee nos agracia mais uma vez com um de seus grandes filmes, sempre destacando seu ativismo, dentro de uma obra que se equilibra entre drama, ação e com uma pitada de sátira ao um certo padrão estadunidense que conhecemos bem e que inspirou brasileiros.

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