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O 11º Tripulante | Review

Uma prova espacial, 53 dias à deriva no espaço e um impostor no grupo de 10 pessoas. O 11º Tripulante é um mangá de 1975, sendo um dos pioneiros em ficção científica e em explorar questões de gênero. Quem trouxe esse clássico para o Brasil foi a Editora JBC em uma edição muito bem-produzida.

A autora da obra é Moto Hagio, um dos nomes mais importantes quando falamos em mangás de ficção científica, além de ser considerada a mãe dos shoujos modernos. Inclusive, com a publicação de O 11º Tripulante ela conquistou o prêmio Shogakukan em 1976.

Composto por duas narrativas, a edição brasileira faz jus à maestria da autora. Com 288 páginas, sendo várias delas coloridas, um pôster frente e verso, marcador de páginas, capa com verniz localizado e formato maior (18,0 × 25,6 cm), esse é um mangá que prende antes mesmo de começar a leitura.

O 11º Tripulante Editora JBC Moto Hagio
No planeta do Rei | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Enredo

Imagine que você está fazendo a prova mais importante da sua vida. Um teste que é concorrido não apenas no seu planeta, mas em mais dezenas de outros planetas. Tudo o que você quer é entrar na Universidade Espacial e, para sua alegria, consegue chegar na última fase da prova.

O 11º Tripulante Editora JBC Moto Hagio
Local de aplicação da prova | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Porém, não demora a perceber que tem algo errado. Em um grupo que deveria ter apenas 10 pessoas, vocês contam 11 tripulantes. Todos dizem que fizeram parte da prova e negam que são o impostor. Quem está mentindo?

É com esse suspense que começamos a jornada de O 11º Tripulante. A princípio, o desafio parece ser uma tarefa fácil: sobreviver a 53 dias dentro da nave, sem qualquer tipo de comunicação externa.

Mas, é claro, com um impostor que tentará sabotar a prova, a nave à deriva indo em direção a um sol escaldante, uma possível ameaça de epidemia interna, dezenas de explosivos dentro da nave e conflitos entre os membros da tripulação que não sabem em quem confiar. Fácil.

O 11º Tripulante Editora JBC Moto Hagio
No interior da nave | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Assim, entre os personagens, acompanhamos mais de perto o protagonista, Tada, um rapaz com uma forte intuição — um tipo de telepatia; Frol, uma pessoa enérgica e espontânea; Rei, um monarca de um planeta pequeno e simples.

Suspense e intrigas

Nesse cenário, a história cresce com cada vez mais complexidade, seja na trama ou na construção dos personagens. Na primeira metade do mangá, ficamos apenas dentro da nave, tentando descobrir o impostor, conhecendo o passado de cada um deles e acompanhando os problemas que surgem na prova.

Já na segunda metade, a trama se passa no planeta do Rei, que entrará em guerra com seu planeta irmão. Aqui, o enredo político é mais denso, com estratégias de batalha, uma rede política intergalática e um apelo psicológico mais pesado para os personagens.

O 11º Tripulante Editora JBC Moto Hagio
Esquema geográfico dos planetas irmãos | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

De maneira geral, a história de O 11º Tripulante é bem complexa, não é um mangá leve de ler (o que de forma alguma é algo negativo). A autora se preocupou com a profundidade dos personagens, explicações históricas e científicas para os planetas e povos, além de misturar comédia e romance de forma muito natural, aliviando um pouco o peso da história.

Questões de gênero

Agora, gostaria de comentar sobre algo que achei incrível na história: uma pessoa intersexo. Frol não é homem nem mulher, mas quando chegar a uma determinada idade (e se passar na prova) poderá escolher seu gênero.

O 11º Tripulante Editora JBC Moto Hagio
Frol e sua batalha interna | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Assim, no que para mim foi uma das falas mais marcantes do mangá, Frol diz que “prefere morrer a se tornar mulher”.

Afinal, no planeta de onde veio, as mulheres servem apenas para se casar (normalmente com homens muito mais velhos) e fazer as funções de casa, sem vontades e aspirações próprias. Enquanto isso, os homens podem escolher o seu destino, ter diversas mulheres, trabalhar, enfim. Ter uma vida que ele escolheu e não que foi imposta. Familiar, não concorda?

Por isso, a angústia e o medo de Frol se tornar mulher é tão impactante. Se eu pudesse escolher o meu sexo, será que escolheria ser mulher?

Ler esse mangá me fez refletir que o problema não é ser mulher, não é ruim ser do sexo feminino. O problema está em como as mulheres são vistas, tratadas e condicionadas. Então, sim, eu entendo Frol e não julgo seu medo e sua resistência.

Além disso, eu adorei como os outros personagens se relacionam e tratam Frol diante disso. Basicamente, no começo ficaram meio sem jeito, meio estranhos, mas depois as interações seguiram normalmente.

Também, Tada parece não ligar sobre o gênero de Frol, pois Frol continua sendo a mesma pessoa, independentemente de como se identifica.

Explicando o óbvio

Enfim, pra mim, O 11º Tripulante deu uma aula de gênero, tolerância e misoginia em plena década de 70. Ainda, ganhou um prêmio super consagrado que, hoje em dia, faria surgir gente caindo de árvore falando que “isso é lacração”.

Então, fica o recado pra comunidade otaku: visibilidade, diversidade, respeito e representação sempre existiram, pois pessoas diversas sempre existiram. Isso não significa “roubar” o espaço de ninguém, significa apenas não sermos invisíveis.

Dito isso, recomendo a leitura de O 11º Tripulante, um clássico forte, sensível e pioneiro, de uma autora que fez história nos mangás e merece todos os espaços que conquistou.

O 11º Tripulante Editora JBC Moto Hagio
Capa | Editora JBC | Divulgação: Suco de Mangá

Conheça o mangá

SINOPSE

Dez jovens astronautas, de diferentes espécies da galáxia, estão prestes a começar sua prova final: devem ocupar uma nave espacial vazia e sobreviver com os recursos que encontrarem. Porém, ao fecharem as escotilhas, todos se dão conta que existem onze pessoas no recinto. Quem seria O 11º Tripulante, ou melhor, o impostor? Como se já não fosse suficiente, parece que tem algo de errado com a nave... Uma trama espacial repleta de suspense e mistério assinada por Moto Hagio, considerada uma das pioneiras dos mangás shojo modernos (voltado para o público feminino) e que foi homenageada em 2024 no Festival de Quadrinhos de Angoulême, na França, pelo conjunto de sua obra. Publicado originalmente em 1975, O 11o Tripulante! (They Were Eleven! /Jūichinin Iru!) venceu no ano seguinte o Shogakukan Manga Award e se tornou um marco na história dos mangás graças à abordagem pioneira de temas como papéis de gênero, classe e questões sobre o que significa ser humano.
Jaqueline
Jaqueline
Um pouco avoada, a doida das teorias da conspiração e leitora compulsiva do Nome do Vento. Adoro escrever sobre aleatoriedades, observar a natureza e ser engraçadinha em momentos impróprios, afinal esse é meu jeito ninja de ser.

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