Achavam que nós tínhamos acabado com as coletâneas do Junji Ito, não é? Porém, com o tanto de história que ele escreveu e com a determinação da Pipoca & Nanquim em trazer elas pra gente, ainda vai demorar pra chegar ao fim. Então, hoje trazemos uma provinha de Morada do Desertor, uma coletânea que chegou em junho deste ano no Brasil e em 2011 no Japão.

Ela traz 12 histórias que foram escritas por Junji Ito entre 1987 e 1990, então conseguimos ver a evolução do traço do autor. Afinal, 1987 foi o ano em que Junji virou mangaká profissional, mais ou menos na mesma época em que publicou Tomie.

É até um pouco engraçado, principalmente nos contos iniciais, ver como o autor ainda tinha um pouco de dificuldade de desenhar algumas coisas, resultando em rostos um pouco deformados e traços estranhos. De qualquer forma, é uma relíquia do tempo, que junto com as outras histórias mostra o caminho que ele trilhou até ser consagrado como mestre do horror.

Enfim, Morada do Desertor também traz quatro cards colecionáveis. Dessa vez, veio uma personagem presente em Mortos de Amor e os outros três da coletânea atual. Sinceramente, a Pipoca & Nanquim acertou muito quando decidiu fazer esses cards.

Morada do Desertor Junji Ito Review
Cards Colecionáveis e Marcador de Página | Divulgação: Pipoca & Nanquim | Foto: Suco de Mangá

Agora, vamos ao que interessa e falar sobre essas histórias horríveis e maravilhosas que a gente ama.

Biocasa

Vamos começar com um conto que já chega sem rodeios, já parte para sanguinolência. Bom, uma secretária e o presidente de uma empresa estão jantando, compartilhando gostos peculiares. Com toda uma atmosfera de suspense, eles saboreiam a “culinária grotesca”, com insetos crus e outros animais incomuns. Querendo agradar e testar a secretária, o presidente oferece uma taça com um líquido denso e vermelho. Ao sentir o sabor repugnante da “bebida”, a secretária enfrenta a verdadeira personalidade daquele homem autoritário e perverso.

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Biocasa | Divulgação: Pipoca & Nanquim | Foto: Suco de Mangá

Depois de ler as outras coletâneas, sempre começando com algo mais ameno, não estava preparada para uma abertura tão intensa. Mas, sinceramente, eu gostei. Um conto repulsivo que traz a ironia da gula e ganância humana, com um final digno dos anos 80.

Ladra de Rostos

Machida chega a uma nova escola depois de ser transferida por mau comportamento e desperta o interesse de Kamei, uma garota grudenta e obcecada. Assim, Kamei persegue Machida mesmo depois de levar uma bela surra da novata. No entanto, um garoto da mesma sala adverte Machida: ela deve manter distância de Kamei antes que seu rosto seja roubado. Tarde demais, eles descobrem a entidade perversa que anda pela escola há tempo demais para ser humana.

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Ladra de Rostos | Divulgação: Pipoca & Nanquim | Foto: Suco de Mangá

Junji Ito e seu jeitinho de mostrar os piores lados do ser humano de uma forma poética e perturbadora. Aqui, lemos a história de alguém que perdeu sua personalidade e aparência original, pois copia aqueles que estão a sua volta. Algo a se pensar, não?

O Quarto da Modorra

Este é o primeiro conto de Morada do Desertor dos que foram adaptados para anime pela Netflix, em Histórias Macabras do Japão. Com o nome de Esconderijo na série animada, este conto fala sobre Yuji, um homem que não pode dormir, pois o seu “eu” do mundo dos sonhos está tentando tomar controle do seu corpo. Desesperado, ele pede que sua amiga Mari o vigie enquanto descansa, para impedir que o “homem de dentro” tome controle do seu corpo.

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O Quarta do Modorra | Divulgação: Pipoca & Nanquim | Foto: Suco de Mangá

Este é mais um exemplo de história que só poderia sair da mente do mestre do horror psicológico. Além disso, nessa história Junji Ito desenha e cita os livros que serviram de inspiração para seu trabalho, como a coleção de H.P. Lovecraft. E você, deixa seu “eu” interior preso, sem sentir o ar do mundo real, ou já deixou ele te dominar?

A Teoria do Diabo

Uma tentativa de suicídio causa alvoroço numa escola, pois Kazumi estava brilhando de felicidade apenas uma hora antes de pular do prédio. Então, tentado a descobrir a verdade, Okamori recupera o gravador que havia colocado na bolsa de Kazumi. Ouvindo a gravação dos últimos minutos de vida da garota, Okamori tem a certeza de que ouviu a voz da própria Morte, colocando sua própria vida em risco.

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A Teoria do Diabo | Divulgação: Pipoca & Nanquim | Foto: Suco de Mangá

Primeiro de tudo, um conto pesado. Fiquei até um pouco chocada ao perceber que a cena do suicídio de Kazumi está na lombada do mangá. Sendo este um tema alarmante no Japão, principalmente pela alta taxa de suicídio em jovens, achei o conto um pouco ousado. Mesmo assim, Junji Ito tomou cuidado de não se aprofundar nas coisas erradas e focar apenas nos significados e nas figuras míticas do tema. Enfim, fica o aviso de gatilho se você for sensível ao assunto.

Os Longos Cabelos do Sótão

Neste conto conhecemos Chiemi, uma garota que segue cada palavra do que o namorado diz para satisfazê-lo. Então, por causa dele Chiemi começou a fumar e deixar o cabelo crescer até ficar enorme. No entanto, o rapaz termina com ela de uma forma brusca e insensível, deixando a garota mergulhada numa tristeza profunda. Querendo deixar o passado para trás e começar a pensar por ela mesma, Chiemi decide cortar o cabelo. Na manhã seguinte, acorda com um rato enrolado nos fios, o que a incentiva ainda mais a cortá-lo. Então, ela pede ajuda para a irmã mais nova, que estranha a situação. No entanto, quando a irmã vai pegar a tesoura ouve um grito, encontrando o corpo de Chiemi sem cabeça. Desde então, mais nenhum rato apareceu, como se algo estivesse aniquilando todos eles.

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Os Longos Cabelos do Sótão | Divulgação: Pipoca & Nanquim | Foto: Suco de Mangá

Eu já tinha visto este conto no anime Histórias Macabras do Japão, mas no mangá ele pareceu muito mais sinistro. A página que revela o que estava escondido no sótão é impecável, sinistra e desconfortável. Além da parte assustadora, vale o lembrete: não deixe nenhum rato se enroscar em você.

Amor Roteirizado

Aqui, vemos um casal de jovens que se conheceram numa companhia de teatro, a garota como atriz e o garoto como roteirista. Apesar dos avisos da amiga, Kaori começa a namorar com Takahashi, conhecido por namorar as garotas da companhia e terminar com elas de uma forma incomum. Então, percebendo que o relacionamento estava desandando, o garoto finalmente termina com ela, dando de presente uma fita de vídeo (o saudoso VHS), para que ela não sinta saudades dele. Porém, Kaori não irá aceitar esse término tão facilmente, se agarrando num amor com roteiro definido.

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Amor Roteirizado | Divulgação: Pipoca & Nanquim | Foto: Suco de Mangá

Honestamente, acho impressionante como a maioria dos personagens de Junji Ito são desiquilibrados e psicóticos. O mangaká consegue pegar um romance jovem, com um término egoísta e transformar num conto sangrento e absurdo. No fim, talvez todos nós estamos a um gatilho específico de nos desprender do que é considerado “certo” e “errado”.

A Espada do Reanimador

Em uma noite, ignorando que o avô está à beira da morte, Keiji vai caçar almas desencarnadas com um amigo. Então, seguindo uma grande quantidade delas, o garoto encontra uma figura estranha, portadora de uma espada, que atraía as almas. Assustado, Keiji tenta fugir e cai de um grande barranco. Quando acorda no dia seguinte, já em casa, descobre que o avô morreu. No entanto, o homem que encontrou na noite anterior está na casa dele, prometendo que ressuscitará o falecido avô. Isso faz com que Keiji descubra uma verdade sombria da sua família e dele mesmo.

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A Espada do Reanimador | Divulgação: Pipoca & Nanquim | Foto: Suco de Mangá

Considerando uma cena de luta com espada, os diálogos e o desenrolar da história, este conto de Morada do Desertor é o mais perto de um shonen clássico que eu vi Junji Ito escrever. A pegada de terror e suspense está ali, mas tem alguns pontos que lembram os clichês dos mangás de luta. No fim, o plot não me surpreendeu, mas a reflexão sobre a vida e a morte (e uma pitadinha de corrupção política) foi interessante.

Coração de Pai

Primeiro de tudo, incrível, sensível e cheio de simbolismo. A família Toudou é gerenciada por um pai severo, rigoroso e controlador. Na infância, o Sr. Toudou perdeu os pais e teve que trabalhar desde seus primeiros anos de vida. Então, hoje que é um homem de negócios, com uma empresa bem-sucedida, faz questão de que seus três filhos valorizem o trabalho dele e a vida que possuem. No entanto, as três crianças — dois meninos e uma menina mais nova — sofrem dores de cabeça insuportáveis, sempre seguidas por uma mudança brusca de comportamento. Por exemplo, após sentir a dor, a criança fica ríspida, rebelde e autoritária. Então, após o suicídio do primeiro filho e posteriormente do segundo, a filha mais nova e sua mãe tentam se desvencilhar da maldição que permeia a família Toudou.

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Coração de Pai | Divulgação: Pipoca & Nanquim | Foto: Suco de Mangá

Olha, daria pra fazer um review inteiro e completo somente deste conto, um dos maiores da coletânea Morada do Desertor. Nele, Junji Ito mostra nada mais nada menos do que o sentimento paterno de querer proteger seus filhos e fazer com que eles valorizem o que tem. Afinal, quem aqui nunca ouviu “na minha época eu tinha que andar mil quilômetros, descalço, com chuva de fogo e o chão se abrindo apenas pra buscar manteiga”? Pois é, Coração de Pai fala sobre esse instinto de proteção paterno que acabou indo longe demais. Um conto sensível e cruel que merece destaque.

Labirinto Insuportável

Depois de abandonar a escola por uma pressão social insuportável, Sayoko vai fazer uma caminhada na floresta a pedido da sua amiga, Noriko. No entanto, perdidas na mata, elas cruzam com vários monges com olhares sombrios, que aparentam estar morrendo de fome. Ao continuar a exploração, elas acabam cruzando com eles novamente e são convidadas para ficar no santuário por alguns dias. Então, ambas conhecem Aya, uma menina que se infiltrou com os monges à procura seu irmão, que desapareceu daquele lugar há alguns anos. Tentando ajudá-la, Sayoko e Noriko vão parar num imenso labirinto, descobrindo que coisas vivas não são bem-vindas ali.

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Labirinto Insuportável | Divulgação: Pipoca & Nanquim | Foto: Suco de Mangá

Bom, é um conto bem fantasmagórico e claustrofóbico. Quando vi esse conto no anime da Netflix achei que o final queria dizer uma coisa, mas lendo o mangá entendi a intenção verdadeira de Junji Ito. Novamente, o mestre pegando os medos e inseguranças humanas e transformando em situações amedrontadoras.

A Vila das Sirenes

Neste conto, com uma pegada muito Lovecraft e demônios cristãos, Koyichi recebe um cartão postal de sua mãe, que mora no campo. No cartão, a mulher fala que ela e o marido abandonaram a plantação e agora trabalham numa fábrica, o que deixou Koyichi desconfiado. Então, no caminho para a casa dos pais ele encontra uma velha amiga. Depois de conversar com ela e ver o comportamento dos habitantes daquela cidade, Koyichi tem certeza de que algo está errado. Juntando o desaparecimento de bebês, uma suposta sirene que tem o som do próprio inferno e a fábrica sinistra onde todos trabalham, Koiyichi se vê mais perto de um demônio do que jamais pensou em estar.

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A Vila das Sirenes | Divulgação: Pipoca & Nanquim | Foto: Suco de Mangá

Este é o conto de Morada de Desertor — ouso dizer de todas as coletâneas até agora — com a maior pegada ocidental que eu já li. Além disso, a influência do terror do Lovecraft que Junji Ito usa fica perceptível neste conto, cheio de criaturas infernais e “possessões demoníacas”. Mesmo assim, da coletânea como um todo, seria algo beirando uma sessão da tarde (tirando a parte do sacrifício dos inocentes).

Garota Má

Essa história conta a vida de Kuriko, uma mulher que está prestes a casar, mas faz uma revelação ao seu noivo. Quando era mais nova, Kuriko ia ao parquinho para vê-lo brincar, até que Naoya apareceu. Naoya era uma criança mais nova e se afeiçoou à Kuriko, procurando a garota para brincar todos os dias, mesmo que ela não estivesse com vontade. Então, irritada com a situação, Kuriko começa a maltratar Naoya, esperando que o garotinho desista de brincar com ela. No entanto, uma reviravolta na história revela a verdade por trás dos sorrisos e traz à tona a verdadeira essência das pessoas.

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Garota Má | Divulgação: Pipoca & Nanquim | Foto: Suco de Mangá

Primeiro de tudo, estranhei que Garota Má está nessa coletânea, pois já foi publicada em Dismorfos. Porém, dando uma pesquisada, vi que a Pipoca & Nanquim apenas manteve a seleção original de contos da versão japonesa. De qualquer forma, devo dizer que foi tão ou ainda mais difícil ler esse conto novamente. Garota Má é extremamente pessimista, desconfortável e cruel, tudo o que a gente ama.

A Morada do Desertor

Finalmente, o último conto, aquele que dá o nome para essa icônica coletânea. Oito anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, três irmãos ainda abrigam um soldado desertor. No entanto, motivados por vingança, o irmão e a irmã mais velha fazem o ex-soldado acreditar que a Guerra ainda não acabou e que ele está sendo perseguido pela polícia japonesa. Então, os irmãos decidem pregar uma peça no soldado, fingindo que os fogos de artifício são, na verdade, um bombardeio. Porém, as consequências dessa vingança serão mais sinistras do que eles planejavam.

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A Morada do Desertor | Divulgação: Pipoca & Nanquim | Foto: Suco de Mangá

Uma palavra: UAU! Passei o mangá todo me perguntando por que motivos o conto que dá o nome da coletânea seria o último e por que ele seria tão curto, em relação a outras histórias. Sinceramente, tudo explicado. O plot twist dessa história é genial, cruel, inesperado, assustador e muito bem colocado. Além disso, A Morada do Desertor foi escrita com a colaboração de Yoichi Yoshimura, ex-soldado da guerra do Pacífico que compartilhou com Junji Ito sua experiência no exército. Enfim, essa história foi a cereja do bolo da coletânea e carrega seu nome com muito merecimento.

Considerações Finais

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Tons de amarelo saturado que dão um toque do loucura | Divulgação: Pipoca & Nanquim | Foto: Suco de Mangá

Considerando que em Morada do Desertor temos alguns contos do começo da carreira de Junji Ito, penso que ele tenha um peso especial. Como falei no início, achei muito valioso poder acompanhar a evolução da técnica de desenho dele, além da complexidade das histórias.

Os contos são bem envolventes e cada um deles é uma nova surpresa quando vamos ler. Portanto, essa coletânea está mais do que recomendada, diria que é uma das prioridades quando você for montar sua coleção de Junji Ito. Inclusive, coleção muito bem pensada e padronizada pela Pipoca & Nanquim.

Então, mais uma vez vamos juntos passear pelo mundo do horror e adentrar na Morada do Desertor!

Morada do Desertor Junji Ito Review
Divulgação: Pipoca & Nanquim | Foto: Suco de Mangá

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REVIEW
Morada do Desertor
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Jaqueline
Um pouco avoada, a doida das teorias da conspiração e leitora compulsiva do Nome do Vento. Adoro escrever sobre aleatoriedades, observar a natureza e ser engraçadinha em momentos impróprios, afinal esse é meu jeito ninja de ser.
morada-do-desertor-reviewAs sementes do mal estão plantadas nesta coletânea dos primeiros trabalhos de Junji Ito! Uma família vingativa esconde um soldado desertor do exército por oito anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, envolvendo-o em uma falsa realidade em que a guerra ainda não terminou, só para mantê-lo como prisioneiro. Este é o enredo de Morada do Desertor, o conto que dá nome a este volume de 12 impressionantes histórias do mestre do horror, todas originalmente lançadas entre 1987 e 1990, na clássica revista Halloween, da editora japonesa Asahi Sonorama, quando o autor começava a despontar por meio de seus mangás incômodos, estranhos e perturbadores, amparados por uma arte chocante e sem paralelos. Entre os demais contos, veremos o pesadelo de um homem tentar escapar para o mundo real; um deus demoníaco tomar como servos todos os habitantes de uma cidade; uma espada misteriosa capaz de reanimar os mortos; duas garotas muito parecidas que não são gêmeas... Tramas que certamente vão permanecer assombrando o leitor muito tempo após serem lidas.