Um dos animes mais polêmicos da Temporada de Inverno 2017, Kuzu no Honkai (Scum’s Wish) chega ao seu fim e claro, merece uma análise completa de seus 12 episódios. Já avisando que o texto abaixo está repleto de SPOILERS e recomendo que você assista antes de continuar! 😉 

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Por se tratar de uma temática um pouco pesada, é interessante vocês darem uma olhada também nos seguintes artigos:

Kuzu no Honkai (Scum’s Wish) – Anime | Primeiro Gole
BMQMNQ #0 – Kuzu no Honkai vs Velvet Kiss | Solidão
BMQMNQ #1 – Kuzu no Honkai vs Velvet Kiss | Fragilidade dos Laços Humanos

Uma história de amor (não de ilusão)

Kuzu no Honkai foi uma série produzida pelo estúdio Lerche, já conhecido por seus trabalhos com Ansatsu Kyoushitsu (Assassination Classroom), Monster Musume e Danganronpa, animando 12 episódios, adaptados do mangá de Mengo Yokoyari, finalizado em 25 de março de 2017, com 8 volumes.

Na trama, temos um casal central de protagonistas, com Hanabi Yasuraoka e Mugi Awaya, ambos populares – e desejados – na escola que estudam e apesar de terem um relacionamento amoroso, cada um tem um “primeiro amor” com outra pessoa. Enquanto Hana é apaixonada por seu “irmão de criação”, Kanai, professor da escola onde estuda, Mugi é também é vidrado por outra pessoa, a professora Akane.

Por compartilharem este sentimento de solidão e não estarem bem resolvidos com os laços afetivos e desejos do coração, os dois começam a namorar para suprir os desejos do outro; e isso também inclui atos sexuais. Como se não bastasse, a “rede de sentimentos” não correspondidos não para por aí, acometendo diversos outros personagens recorrentes da série – mas logo falemos um pouco mais sobre isso. 

Capa do Volume 1 de Kuzu no Honkai (Scum’s Wish)

A História de Dois

Durante toda a série e próximo do que seria um diário pessoal, temos o ponto de vista das personagens e em especial, da dupla de protagonistas Mugi e Hanabi. Sem delongas, o telespectador sabe o que cada personagem pensa, sente a cada tomada de ação, o que dá de certa forma, um dinamismo interessante para a série. Não tem muita firula; a trama se desenvolve de forma natural.

Voltando nesta questão de Mugi x Hanabi, podemos dividir em três arcos: um primeiro em que eles sofrem, chora um pro outro e se satisfazem sexualmente (mas sem penetração). Num segundo momento em que eles tentam encarar e revelar seus sentimentos para o amor não correspondido. E o terceiro, que após serem negados postos para escanteio  – e cada um de uma forma – entram num estado melancólico. Acabam literalmente num buraco!

A forma em como saem e lidam de cada uma dessas situações é de fato interessante, mas claro, como na maior parte da série, nada saudável. Kuzu no Honkai busca tratar daquelas decisões que qualquer um (digo nós mesmo, seres humanos) pode tomar, ou acaba tomando, mas que ninguém conta por aí ou divulga nas redes sociais. Na verdade, são aqueles sentimentos mais sofríveis que acabamos guardando pra nós ou revelando pra alguém muito próximo. Sabe aquele mar de rosas? Então, há muitos espinhos! É mais ou menos por aí que a obra tenta trabalhar.

Mugi e Hana (Imagem Divulgação)

Outras personagens – mais problemáticos

Enquanto temos uma trama de começo, meio e fim de Mugi e Hanabi, algumas personagens surgem para dar aquela apimentada a mais na série. Enquanto Mugi tem uma amiga de infância apaixonada por ele, e que não dá bola, a Noriko (a personagem mais descartável e sem sal da série), Hana vivencia o que é ser desejada pela sua amiga de classe Sanae Ebato, a Ecchan. Ao contrário da Noriko, Ecchan é a personagem com proposta e profundidade mais interessante – e problemática – e acredito que nos momentos em que ela aparece, são os mais bem estruturados de Kuzu no Honkai.

Já falei o quanto os personagens são problemáticos não é mesmo? Mas falta citar os dois mais psicopatas da série, e que são justamente os dois “amados” por Hana e Mugi. A professora Akane é aquela personagem que quando aparece, você abre a boca, franze os olhos e manda um (insira um palavrão aqui). Sério. Narcisista ao máximo, egocêntrica até onde não querer mais, ela quer todos os homens aos seus pés – inclusive Mugi. Apesar do núcleo dela ser bem trabalhado, achei que ficou devendo um pouco quanto as motivações reais dela; a não ser que ela seja uma grande maluca. MESMO.

Do outro lado temos o affair da Hana, o Kanai. Êta cara pastelão – ou se faz de. Muita gente não sabe o que a Hana foi ver no cara, mas algumas teorias indicam o seguinte: enquanto que Hana não tem um pai presente, o contrário acontecia com Kanai, em não ter uma mãe. Nessa, para suprir a falta de um pai ou uma mãe, cada um encarou de uma forma, sendo que Hana do jeito mais romântico, se assim posso dizer.

Kuzu no Honkai em tradução livre seria “O Desejo da Escória”.

Tabu e Virgindade

Em Kuzu no Honkai, há dois conceitos explorados que acho válido serem debatidos acerca do sexo. O primeiro deles é de como cada personagem encara, seja de uma forma mais banal, comum e corrente a algo próximo do tabu. Dentro disso, gostaria de deixar dois questionamentos: “Você ficaria com uma pessoa sem poder praticar o sexo?” e o segundo, mais polêmico: “Deixaria seu esposo(a) praticar o coito com outras pessoas?”

Já quanto a segundo conceito abordado na série, é quanto a virgindade. Kuzu no Honkai traz a premissa – diria que conservadora – de que a pessoa só perde a virgindade quando há uma penetração, praticado por um homem e uma mulher. Se não houve uma penetração ou indo além, se não praticada por um casal hétero, a pessoa não “perde” a virgindade. Na trama, isto fica claro que é algo pessoal, se levarmos em consideração nos acontecimentos acerca da protagonista.

Assédio e Fragilidade

Além dos debates, temos uma polêmica no que se refere ao relacionamento de Hana e Ecchan. A última citada, no caso, aplica diversos assédios em cima de Hana. Pessoalmente, fiquei um pouco triste em não explorarem mais este aspecto nos pormenores e nas suas consequências, visto que as cenas parecem estar ali por puro e simplesmente fanservice.

Lembra de quando falei que a Ecchan seria uma das melhores personagens construídas? Então. É deveras interessante o seu desenvolvimento e de como ela acaba “seguindo em frente”, pós levar um fora de sua amiga hétero; e isso com ajudinha do seu primo idiota – que nem lembro o nome. *Ops, lembro sim: Atsuya Kirishima, vulgo o “cara que ACHA que pode transformar garotas lésbicas em héteros com seu falo mágico dourado”. Desnecessário.

Da esquerda: Sanae “Ecchan” Ebato e Hana.

Desejo de Escória e Solidão

Ainda sem entrar na questão técnica da produção de Kuzu no Honkai, o cerne da obra é justamente trazer à tona o Desejo da Escória propriamente dito. Todos os núcleos são enfáticos em trabalhar com o sentimento de culpa pela impropriedade do próximo, isto é, você sofrer em não “ser bom o bastante” para a pessoa que ama.

É nisto que o roteirista/autor do mangá trabalha a todo momento, caminhando em direções tortuosas com esperança do encontro de uma resposta. Deixo abaixo uma frase dita por Hana bastante pertinente, que resume muito bem o “feeling” da série:

“Mesmo sendo outono a luz do sol é quente brilhando pela poeira e pelo ar parado.
Tem cheiro de madeira antiga e o tempo é eterno e passageiro.
Eu respiro quietamente e tomo uma decisão.”

Beleza Bucólica

Afinal, não só de reflexões, sentimentalismos e melancolia vive Kuzu no Honkai, não é mesmo? O estúdio Lerche soube aproveitar muito bem – principalmente nos cortes de edição – as trocentas cenas estáticas, tentando ao máximo não prejudicar o ritmo.

Ao contrário de séries como Serial Experiments Lain ou Haibane Renmei (que gosto MUITO de ambas), a fluidez da animação anda em perfeita harmonia com os diálogos bem construídos. Querendo ou não, a cada fim de episódio, há um cliffhange “sem querer”, o que é difícil com este tipo de série – acredito eu.

Para ajudar ainda mais, a trilha sonora junto aos temas de abertura e encerramento dão uma suavizada no clima pesado da série. Sério. Se as composições fossem depressivas, você iria se cortar com a cada episódio ou cena de impacto. 

Decisões

Na sabedoria popular há aquele dito popular, que é mais ou menos assim: “Primeiro se aduba e depois se colhe os frutos”. O que nossa decisões, dúvidas e sentimentos mais obscuros pode influenciar no relacionamento com outras pessoas? Como uma pessoa lida com a rejeição e consegue amadurecer com isso?

Kuzu no Honkai trilha com todas as personagens através das dúvidas e culminando em respostas reais, além do clichê que se vê em muitos romances por aí. E o principal: do amadurecimento emocional através do sentimento de lixo, escória.