Se você não mora em outro planeta, provavelmente já ouviu falar do BTS. Sim, aqueles sul-coreanos que estão a menos de um mês de voltar ao Brasil, que fizeram história no show do intervalo da Copa e que disseram “não” ao quê mesmo? Ah, sim: ao Grammy.
Para um grupo tão forte, só poderia existir um exército à sua frente.
São sete integrantes e milhões de “ARMYs”, como o fandom do BTS é conhecido. E, em 2026, esse exército voltou a mostrar sua força: enquanto ARIRANG quebrava recordes e a turnê mundial levava milhares de pessoas aos estádios, o ARMY brasileiro também se mobilizava… mas não apenas para assistir aos shows. Há anos, fãs do grupo transformam a inspiração encontrada no BTS em organizações, projetos e campanhas que ultrapassam o universo da música.
Um desses projetos é o ARMY Help The Planet (AHTP). O Suco de Mangá entrevistou Mariana Faciroli, advogada, mestra em Direito e Desenvolvimento pela USP e co-diretora do projeto. Ela conheceu o BTS em 2017, depois de assistir no YouTube ao videoclipe de “Blood Sweat & Tears”. Na época, não imaginava que aquele primeiro contato com o grupo a levaria, anos depois, a ser uma das representantes dos fandoms em uma cerimônia no Palácio do Planalto, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante a assinatura de decretos voltados à proteção dos consumidores na compra de ingressos para shows.

Antes de existir o AHTP, Mariana já participava de algumas ações pontuais organizadas pelo fandom. Mas foi em agosto de 2019, durante a onda de queimadas que atingiu a Amazônia, que ela percebeu que aquela mobilização poderia ser algo maior.
Naquele período, a fumaça das queimadas chegou a transformar o dia em noite em São Paulo, a milhares de quilômetros dos focos de incêndio. Diante da repercussão, o fandom começou a se mobilizar de forma espontânea nas redes sociais, levantando a hashtag #ArmyHelpThePlanet para chamar atenção para o que estava acontecendo. A campanha ganhou força e logo deixou de ser apenas uma mobilização nas redes.
Em setembro daquele ano, o recém-formado coletivo lançou a ARMY Help The Amazon, sua primeira grande campanha de arrecadação. Em parceria com a Iniciativa Verde e o IPAM Amazônia, os fãs conseguiram reunir R$ 8.897 em 351 doações, valor destinado ao plantio de 400 árvores nativas em uma área de preservação na região Transamazônica, em Altamira, no Pará.
Mas o fandom não parou por aí. No mesmo mês, o ARMY Cleaning Day levou mais de 300 voluntários às ruas de 16 estados e do Distrito Federal para mutirões de coleta de resíduos. Ao todo, foram recolhidos cerca de 47 mil litros de lixo.
Para Mariana, a própria existência do projeto já é uma demonstração de como a arte pode ultrapassar os limites de uma música ou de um palco. O reconhecimento que o AHTP recebeu ao longo dos anos — em prêmios, reportagens e parcerias — ajuda a mostrar que a mobilização está funcionando e, segundo ela, serve como combustível para que mais fãs se engajem.
“Nosso projeto só existe graças ao ARMY e pelo ARMY”, explica Mariana.
Considerada a maior fanbase ativista do BTS no país, o AHTP já passou por diferentes causas desde que surgiu. Vieram campanhas ambientais, ações emergenciais e iniciativas sociais. A atuação também chegou à cidadania. Com o Tira o Título ARMY, o coletivo buscou incentivar a participação política e mostrar que democracia não termina no dia da eleição.
Uma das metas, conta Mariana, é ver as próximas gerações de ARMYs mais conscientes sobre a importância da participação política. Isso inclui acompanhar o trabalho dos parlamentares, participar de consultas e conselhos, frequentar espaços públicos de decisão e encontrar outras formas de se manifestar além do voto.
Quanto mais consciente e participativa for a comunidade, maior a possibilidade de construir um ambiente político que permita avançar em outras pautas. Mariana gostaria, inclusive, de ver o trabalho ambiental do AHTP deixar de ser tão voltado ao combate de emergências e passar cada vez mais para ações de prevenção e melhoria do meio ambiente.
E há ainda uma característica que Mariana faz questão de destacar: o AHTP não é o projeto de uma pessoa só. “Realmente é um coletivo”, enfatiza. As decisões são discutidas com outras líderes e as campanhas envolvem pessoas de diferentes áreas, que dedicam tempo e conhecimento às iniciativas. É justamente essa diversidade que, para ela, ajuda a explicar a força do projeto.
Em 2022, o coletivo foi representado no World Peace Forum, em Busan, na Coreia do Sul, por sua diretora Mariana Faciroli, que discursou sobre liderança juvenil, voluntariado da sociedade civil e o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030.
Três anos depois, o destino foi Belém. Em 2025, o AHTP participou da COP30, em um painel na Blue Zone, como parte da delegação coreana. Para um coletivo que nasceu de uma mobilização de fãs durante as queimadas na Amazônia, estar em um dos principais espaços internacionais de discussão sobre mudanças climáticas era mais um sinal de até onde aquela comunidade poderia chegar.
E os planos não param por aí. O próximo passo é transformar o coletivo em uma ONG formalizada. O AHTP já tem estatuto e voluntários, mas ainda avalia os caminhos jurídicos e contábeis necessários para essa mudança. Enquanto isso, mantém a estrutura de coletivo e segue realizando campanhas em parceria com organizações já formalizadas.
“Esse é um passo que nós gostaríamos muito de conseguir e expandir as nossas ações para que elas alcancem cada vez mais pessoas, que o nosso projeto fique cada vez mais conhecido e tenha mais impacto na nossa comunidade, no nosso país e no mundo”, afirma Mariana.
A mensagem do BTS vive no ARMY
Se o AHTP encontrou nas causas socioambientais uma forma de transformar a paixão pelo BTS em ação, o Movimento Army Power (MAP) nasceu de outra percepção: a de que a força do fandom também poderia criar oportunidades.
A “comandante” desse movimento é Mary Nunes. Antes mesmo de conhecer o BTS, ela já mantinha um projeto voltado ao apoio de pequenos empreendedores, com parcerias, eventos e divulgação do comércio local.
Mary conheceu o BTS por acaso, através da neta, que tinha seis anos na época. A menina costumava assistir a vídeos no celular da avó, e foi assim que Mary começou a reparar naqueles sete meninos coreanos. Primeiro veio a curiosidade. Depois, a pesquisa. E, como ela mesma conta, não teve mais volta.
A partir daí, Life Goes On — uma das músicas favoritas de Mary — ganhou, para ela, um significado quase literal: a vida continuou, mas agora com o BTS e o ARMY fazendo parte dela.
“Eu já adotei J.K. como filho! Falo que sou a mãe brasileira dele. Ele ainda não sabe, mas ele tem uma mãe brasileira. Todo mundo já sabe que sou a mãe do J.K. Aí o pessoal me chama de sogrinha”, brinca.
O carinho por Jungkook, que lhe rendeu o apelido de “mãe do JK”, acabou sendo apenas uma das portas de entrada de Mary para uma comunidade que chamou sua atenção pela diversidade e pela capacidade de mobilização. Ela começou a observar fãs de diferentes idades, países e condições sociais se reunindo em torno de objetivos comuns e percebeu que aquela rede tinha algo em comum com o trabalho que já desenvolvia.
O movimento começou a ser estruturado em 2021, poucos meses depois de Mary conhecer o BTS. Foram meses planejando o formato do projeto, que inicialmente tinha apenas duas colaboradoras: uma psicóloga e uma professora de inglês. As primeiras iniciativas foram o Help Me, Army, voltado ao apoio psicológico, e o Bora ReTerapia, que unia arte e terapia.
A ideia, no entanto, logo deixou de caber apenas dentro do fandom. Os primeiros projetos eram direcionados aos ARMYs, mas voluntários começaram a procurar o movimento para pedir ajuda para amigos e familiares que não eram fãs do BTS. A equipe percebeu que não fazia sentido limitar o atendimento. O MAP continuou sendo criado por ARMYs, mas passou a ser aberto a qualquer pessoa que precisasse de acolhimento.
A expansão também ultrapassou as fronteiras brasileiras. Hoje, o movimento está presente em três países: Brasil, onde começou a atuar em 2022; Angola, desde 2024; e Portugal, desde 2025.
Mas crescer não parece ser suficiente para Mary. Ela quer que o MAP continue existindo mesmo quando as pessoas que hoje estão à frente do movimento já não estiverem mais ali.
“Quando criei o MAP, uma das ideias era que ele existisse mesmo quando a primeira formação não estiver mais aqui. Porque a gente sabe que ninguém é para sempre. Mas e se você for capaz de deixar alguma coisa que vai beneficiar futuras gerações?”
Esse futuro já começa a tomar forma em novos planos. Em janeiro de 2026, o MAP conseguiu se formalizar como uma organização sem fins lucrativos, registrada como associação privada, e agora amplia sua atuação também na área socioambiental.
A organização está finalizando dois novos projetos, o EcoMAP e o AgroMAP, com lançamento previsto para o terceiro trimestre de 2026. A expansão ambiental, porém, não substitui as outras frentes do movimento. Educação, saúde, acolhimento, empregabilidade e fortalecimento comunitário continuam sendo a base do trabalho desenvolvido pelo MAP desde sua criação, que também mantém iniciativas como o Roxo Pela Vida – ARMYs Contra o Feminicídio.
Para Mary, essa estrutura também tem uma inspiração que veio do próprio BTS. Ela lembra de uma fala de RM, durante a turnê Love Yourself, em que o líder do grupo incentivou os fãs a usar aquilo que o BTS representa como uma forma de aprender a amar a si mesmos. Em 2018, durante um show em Nova York, RM disse ao ARMY: “Please use me, please use BTS to love yourself”.
“Eu achei aquilo ali fantástico. E muitas vezes eu vejo a galera meio desanimada dentro do MAP e lembro disso. Eu falo: gente, está chegando o momento de vocês usarem tudo o que a gente construiu aqui no MAP. Usem o BTS a favor de vocês.”
Esse “usar” não significa apenas consumir o trabalho do grupo. É a visão de Mary sobre aquela mensagem: transformar aquilo que o BTS representa para os fãs em uma ferramenta capaz de ajudar a mudar a própria vida.
Texto por Amaitê Santos.




