Passados cinco anos de sua estréia, To Your Eternity concluiu sua terceira temporada em 2026 da mesma maneira que concluiu as duas anteriores: repleto de emoção. Aquele tipo de emoção que te deixa sem reação e contemplativo por uns bons minutos. O pior de tudo é que o choque do final da terceira temporada não te dá descanso, pois o que parecia ser o final perfeito de uma história sublime na verdade é apenas o fim de um ciclo. Haverá mais!
Pois bem, enquanto uma quarta temporada não é anunciada, tomo emprestado a ocasião, inspirado numa conversa com um amigo curioso sobre o mangá, para explicar afinal de contas do que se trata Fumetsu no Anata e (apenas Fumetsu daqui pra frente). O raciocínio que quero mover nestas linhas: por trás da história de um menino(?) imortal, Fumetsu é antes de mais nada uma biografia do Ser. Um exercício de imaginação sobre o fato em si da existência.
O Suco já cobriu as primeiras impressões de Fumetsu. Minha proposta é apresentar seu tema geral para quem nunca teve contato com o anime. Como essa apresentação é mais temática do que narrativa, vários detalhes das três temporadas ficarão de fora, então fiquem tranquilos, pois o texto é vago demais para spoilers maiores.
A RAÍZ DA QUESTÃO
Antes que você se assuste, não é preciso ser um Sócrates pra se entender com o que quero dizer. O ser humano é um ser sensível a várias coisas: sons, sabores, toques, calores, uma gama de sensações que de uma maneira ou de outra nos lembram de um fato: estamos vivos. Você que lê essas linhas, com ou sem auxílio de óculos, confirma sua própria existência ao se atentar neste texto tanto quanto eu confirmo minha existência a mim mesmo por separar um momento de uma madrugada de sábado para tecer esta junção de palavras. Uma questão que coça a cabeça de pensadores, cientistas e artistas desde tempos imemoriais é: como isso tudo começou? Como se começa a Ser? O que exatamente acontece que irrompe aquele estado mecânico de chorar-mamar-cagar da primeira infância e de repente nos percebemos dotados (ou amaldiçoados?) de consciência?
É sob o fardo desse tipo de questionamento metafísico – inútil para tantos que acham um absurdo parar para pensar nessas questões enquanto a desigualdade de oportunidades e de resultados impera no mundo – que Fumetsu começa sua saga. No início era o nada, até o momento em que algo passou a ser. Um Observador à parte deste mundo resolve lançar uma energia no mundo, energia esta que descende ao mundo, sem forma nem intenção e repousa numa pedra. E como quem viu Ruri Rocks ou prestou atenção às aulas de geografia sabe, mas as pedras também se movimentam. Ventos e chuvas arrastam sedimentos aqui e acolá, eventualmente chegando ao contato humano ou animal. É o caso de um lobo que repousa sobre a pedra antes de morrer. E no instante que essa alma se esvai, carregando consigo a angústia da distância de seu dono, algo reverbera nessa rocha que reproduz essa vida perdida. Nisso podemos dizer algo fundamental sobre o protagonista de Fumetsu: ele é um agregador de vidas.
DO SENSÍVEL AO CONSCIENTE
Quando Joan, o lobo que há pouco falecera, retorna à cabana que seu corpo reconhece como lar, ele encontra um garoto solitário, seu dono e sua companhia. Abrigados em meio à neve, o tempo passa até o momento em que uma ferida ceifa a vida do rapaz anônimo. Da pedra ao lobo e do lobo ao menino, essa energia vital é sensível às emoções alheias e acima de tudo à morte alheia. Esse ser ainda anônimo sente a falta do que até então estava há pouco tempo atrás, vivo e consciente e responde a essa falta assumindo sua forma. São desses ciclos de viver e morrer que Fumetsu é feito, onde tão logo no seu primeiro episódio várias pessoas se emocionaram e lacrimejaram na sua estreia.
Da coisa ao animal e do animal ao bípede humano, os primeiros episódios de Fumetsu são contra intuitivos ao apresentar o básico: as severas limitações do corpo humano e sua fragilidade, onde esse jovem perambulante morre a qualquer momento e a qualquer deslize; pois sua imortalidade lhe priva de qualquer instinto de sobrevivência num primeiro momento. Para todos os propósitos, essa figura humana sem nome que anda e tropeça com as próprias pernas não passa de um bebê, funcionalmente falando. O que muda esse cenário é o encontro com uma menina, March, que será sua figura materna. Assim como a família é o primeiro contato humano de um infante – um dos poucos consensos possíveis nas humanidades – March será a mediação para incluir o garoto anônimo no seio dos viventes, a começar por algo essencial: um nome. Por ser um menino que não morre, March batiza o garoto de “Fushi” (lit. Imortal). E do nome, que distingue e inclui a pessoa no rol da humanidade, March, apesar de ser uma criança tão nova, entende mais que o suficiente para ensinar a um semelhante o básico do básico: como se alimentar, como se cuidar e como falar.
A aquisição da linguagem é a próxima etapa crítica na formação de Fushi. É nessa esfera onde os sentimentos do protagonista serão atribulados pela busca de lugar. Como dar forma ao sentimento de afeto? De preocupação? De raiva ou mesmo de luto? O que é certo e o que é errado e por que? Fushi não só maneja seus próprios poderes, mas deve aprender a manejar a relação de si com o mundo mortal à sua volta. E isso não é feito sem sua devida dose de frustrações e dores, tantas dores.
E uma das maiores dessas dores, sem dúvidas, mora no final da primeira temporada, onde Fushi acompanha os últimos dias de Pioran, uma idosa que o ajuda durante o último arco. Passados todos os desafios e enfrentados os inimigos – sobre os quais falaremos já já – Fushi convive com Pioran, enquanto esta o ensina várias coisas do mundo. Isso prossegue até o momento em que sua saúde se deteriora e aqui nos encontramos diante de uma das situações mais penosas da vida, que é testemunhar a morte se aproximando de nossos entes queridos. Uma vez cuidado, agora é a vez de Fushi cuidar dos seus, até quando a lucidez se esvai e ele não é mais reconhecido. Quando a lucidez volta, esse é o momento final que o corpo dá para que as últimas palavras sejam proferidas e as últimas despedidas sejam feitas. Só quem conheceu a dor de perder um ente querido para o mais perverso e impiedoso dos algozes, o tempo, tem noção da dor que aflige Fushi, este imortal condenado a ver seus entes queridos partirem primeiro. O isolamento parece a solução para novas dores.
Porém tudo aquilo que é vivo está condenado ao convívio, mais cedo ou mais tarde.
NOKKERS, ALTERIDADE E O BOM VIVER
Aqui, uma breve palavra sobre os antagonistas de Fushi. Ainda não explicados na totalidade de sua natureza – e talvez por isso mesmo a necessidade de uma quarta temporada – os nokkers são a única ameaça à existência de Fushi. Um coletivo orgânico capaz de roubar as almas que congregam ao redor do protagonista e possuir o organismo dos seres vivos à sua volta, pessoas, plantas e animais. Esse antagonismo equilibra as tensões da narrativa, contrapondo um ser imune ao natural a uma ameaça supernatural.
Depois de duas temporadas e vários personagens importantes para o desenvolvimento de Fushi – destaque aqui mais que justo para Bonchien Nicoli La Tastypeach Uralis – os nokkers até então eram vistos como uma ameaça total, um inimigo cuja extinção prometeria a paz no mundo. E de fato, em meio às tensões que movem a trama terrena dos companheiros de Fushi, há a própria missão pessoal do protagonista, instigado em parte pelo seu Criador, de eliminar a ameaça à vida encarnada nos nokkers.
Vitórias alcançadas e alguns séculos passados, algo acorda Fushi de sua hibernação e o mundo de Fumetsu já não tem mais o rosto da fantasia. A obra ganha contornos extremamente mundanos e familiares na terceira temporada, demonstrando uma capacidade fascinante sua de transitar entre gêneros. Quando Fushi conhece o mundo moderno, industrializado e escolarizado, a aparência de normalidade o convence de que tudo está em paz e seu sonho de um mundo perfeito se concretizou. Mas a garantia plena de sobrevivência, a extinção das guerras e a relativa fartura material são garantias de felicidade?
A terceira e mais recente temporada de Fumetsu nos apresenta um Fushi ainda mais ingênuo do que o costume, porque pela primeira vez em séculos esse ser que tem todo o tempo do universo se depara com a questão que persegue a humanidade desde os gregos: como viver bem? E quem participa dessa charada e ganha contornos humanos são os próprios nokkers. O elo aqui mora no barulhento Yuuki, um estudante fã de ocultismo e que não só se vê fascinado pela existência do além-humano, como enxerga esses seres temerosos como possíveis iguais. Pois ao longo da trama descobrimos que os nokkers operam uma capacidade de adaptação e deliberação muito semelhante ao talento humano de se adaptar ao seu meio. No lugar do estranhamento e do conflito, Yuuki brilha na terceira temporada pelo seu idealismo quase suicida em prol do entendimento de humanos, nokkers e o próprio Fushi, que habita em algum lugar entre as duas partes. É até refrescante a provocação por parte dos próprios nokkers durante a temporada, que aprendem a se adaptar ao ponto de se infiltrar na sociedade humana, emulando suas aparências e costumes, não só para poderem sobreviver, mas por entenderem que eles ganham o direito de viver no corpo de alguém a partir do momento em que esse alguém não considera mais a vida digna de ser vivida, o que alguns podem entender como estar efetivamente morto.
Pois como dito há pouco, tudo o que é vivo está condenado ao convívio e o convívio com os nokkers não é algo diferente. O idealismo ingênuo de Yuuki consegue um milagre próprio da ficção de eliminar um antagonismo e no seu lugar semear a boa convivência. Daí Fushi consegue alguma paz para deixar seus companheiros viverem e morrerem como bem entenderem, depois de muito relutar e sofrer de preocupação por se sentir obrigado e responsável por dar um mundo perfeito para se viver. Quase como um Deus.
E por falar em Deus, de onde veio essa energia em primeiro lugar?
O OBSERVADOR: UMA BIOGRAFIA DA CRIAÇÃO
Um fato perene por todos os episódios de Fumetsu até o momento é sua narração em terceira pessoa, por todos os episódios. Na literatura, a narração em terceira pessoa normalmente é vinculada à voz do autor que narra, constrói e efetivamente cria o mundo. Alguns livros souberam minguar a linha que separa autor da obra, como O Mundo de Sofia. Em Fumetsu, o narrador em terceira pessoa é um personagem de fato e de direito. Sem esse Observador, Fushi não existiria e sua criação obedece a um plano por ele criado.
A analogia a um criador todo poderoso é muito tentadora e de fato tentado estava em batizar o texto de “uma biografia de Deus”, o que seria um vício de interpretação forçoso demais e, pessoalmente falando, beirando o blasfemo. É importante que uma obra seja entendida pelos seus próprios termos o quanto for possível, do contrário quem sai perdendo é a imaginação. Sim, ao contrário do postulado da morte do autor, nesta análise quem morre é o leitor e o primeiro é soberano sobre sua obra. A existência do Observador não obedece a um desejo teológico ou sequer apologético de Yoshitaka Ooima, pelo menos não até onde eu saiba. E se a tal Navalha de Ockam couber no raciocínio, a existência do Observador atende a uma questão fundamental que eventualmente um ou outro de nós pensamos alguma vez na vida (principalmente quando perto da morte): como passamos a existir? Por que existe algo ao invés de nada? Estamos largados no universo ou há um relojoeiro por trás dessa engenhoca?
Só que nisso mora um adendo que é uma verdadeira prova de empatia de Ooima: se há um Criador, por que ele se empenhou na criação em primeiro lugar? Como ele surgiu? O que ele sentiu? Os últimos episódios da terceira temporada encerram essa longa biografia do Ser que começa na primeira temporada e termina numa biografia da Criação recheada de imaginação e carregadíssimas emoções, do tipo que faz muita justiça à criadora de Koe no Katachi.
RESUMO DA ÓPERA
Dito de forma simples e direta, a primeira temporada de Fumetsu é de longe a mais emocionante. A segunda e terceira temporada demandam duas coisas: a primeira delas é paciência. Se você quer que uma história se cumpra em três episódios, esquece e parte pra próxima. O F de Fumetsu não é de “fast food”. A grandeza de certas experiências vem justamente da paciência de aguentar uma narrativa que se arrasta para te entregar um final que faz valer toda a espera e mais um pouco. Os leitores de Crime e Castigo que o digam!
A segunda temporada de Fumetsu apresenta uma gama de personagens que terão muita importância para mover os temas e os dramas sentidos e abordados na terceira temporada. Toda a espera vale a pena e nada mais justo que um exercício de contemplação e meditação sobre a vida seja tão vagaroso quanto os milhões e bilhões de anos levados para a vida e seu universo se assentarem até o momento presente de 2026.
Como dito no início, haverá mais! O mangá já se encontra completo e sabemos que há um arco do passado, do presente e agora do futuro. Não faço a menor ideia do que haverá daqui pra frente. Se Fumetsu acabasse aí, já seria uma das maiores experiências com anime da vida. Mas não acabou! Quem sabe quando sair o anúncio da quarta temporada, esse texto não sirva de convite para os recém-chegados?




