Junji Ito na Bienal do Livro Rio 2021

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Foi numa manhã ensolarada de uma segunda-feira quando a Bienal do Livro Rio 2021 recebeu no Pavilhão Azul o ilustríssimo mangaka Junji Ito, ícone mundial das histórias de terror nos mangás. Recebeu sim, numa transmissão online.

Eventos semi-presenciais têm sido um dos carros chefes desta edição da Bienal, prezando pela conciliação do evento com as medidas de cuidados sanitários. Já que a necessidade é a mãe de todas invenções, a Estação Plural veio bem equipada para apresentar a um público, tanto presente quanto online, um bate papo com o criador de Uzumaki.

junji ito bienal do livro rio 2021
Foto: @sucodm / @fotobelga

Para o momento inesquecível, estiveram presentes como mediadoras a roteirista Kika Hamaoui e a jornalista Miriam Castro, a mikannn.

Junji Ito começou respondendo algumas perguntas básicas para esquentar a conversa. Tópicos sobre suas primeiras memórias afetivas com histórias de terror, vindas desde a infância e sobre seu processo criativo engataram a primeira marcha do papo. Foi possível perceber que o autor é do tipo que costuma trabalhar primeiro mais com conceitos e imagens para a partir daí montar uma história em cima dessa base. O que faz sentido, já que a arte de Junji Ito é sem sombra de dúvida o elemento que mais se destaca.

Quando perguntado sobre suas obras mais marcantes, para o espanto de poucos, Junji Ito mencionou Uzumaki e seu trabalho de estreia, Tomie. Mas sua predileção mesmo mora nos curtos contos, em histórias como Hanging Balloons, O Mistério da Falha de Amigara e demais histórias curtas compiladas em séries como Junji Ito Collection. Houve também a curiosidade do que o sensei curte dentro e fora do terror, ao que ele respondeu com o clássico de Ridley Scott, Alien, elogiando tanto o terror construído quanto o design do alienígena. E sobre coisas mais recentes, o mangaka colecionador de carros em miniatura e fã de carteirinha dos Beatles não escondeu seu entusiasmo com o novo documentário sobre a banda na Disney+, “The Beatles: Get Back, dirigido pelo diretor da trilogia “O Senhor dos Anéis”, Peter jackson. Junji Ito enfatizou o prazer de poder acompanhar o processo criativo da banda.

junji ito bienal do livro rio 2021
Foto: @sucodm / @fotobelga

Para aqueles que querem se aventurar em escrever contos, crônicas e demais estilos de histórias sobre terror, Ito recomendou que as pessoas prestassem atenção ao entretenimento como um todo. Segundo o autor, vale a pena ver o que um gênero diferente tem a oferecer. Às vezes, quem sabe, um gênero completamente diferente do esperado pode ter algo aqui ou ali para inspirar a criação de uma história de terror.

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Trouxeram à tona a adaptação de Uzumaki para os cinemas em 2000. Junji Ito comentou que à ocasião, ele apenas ajudou a revisar o roteiro. Mas teve algo a mais. A título de easter-egg: em dado ponto do filme, a polícia aparece procurando um foragido e aparece a sua foto num pôster. O rosto usado para o foragido? O do próprio sensei.

E ainda sobre filmes, quando perguntaram qual seria seu collab dos sonhos, com qual profissional ele adoraria poder participar num projeto, Junji Ito mencionou o diretor italiano de filmes de terror Dario Argento (que por uma curiosidade puramente inútil, é filho de uma brasileira, Elda Luxardo). Agora cá entre nós, o episódio não chegou a ser comentado no bate-papo, mas fato é que por uma fração de instante, eu e vários outros quase tivemos um collab dos sonhos, que foi o rumor de uma criação de um jogo de terror do Hideo Kojima com a ajuda do sensei. Claro que tudo não passou de um mal entendido e o Junji Ito se sentiu até culpado por ter comentado um papo descontraído numa social assim sem mais nem menos na internet. Tudo bem, acontece. Mas ah se rolasse…

Houve algum momento em que Junji Ito percebeu que precisava alterar alguma coisa no que vinha fazendo? Ao pensar sobre a pergunta, o mangaka não recordou de nenhuma ocasião do tipo e disse que sua carreira teve bastante liberdade para fazer o que quisesse, desde o começo. O que ele foi aprendendo com os seus editores, entretanto, é que seu hobby, que era desenhar, estava atingindo um grande número de pessoas e seria sábio tomar seus sentimentos em consideração. Por isso não seria muito viável escrever uma história em cima de uma doença, por exemplo, e arriscar algum estigma numa eventual pessoa que sofra de similar enfermidade.

Junji Ito é também um apaixonado por comédias. Na mesma pessoa habitam paixões intensamente iguais e supostamente diferentes. Apenas supostamente, porque as mediadoras souberam apontar as pitadas de humor que aparecem com certa frequência nas obras de Junji Ito e que ajudam a quebrar o gelo. Foi nesse gancho que elas perguntaram sobre o processo de criação de “Itou Junji no Neko Nikki: Yon & Mu”, um mangá quase autobiográfico, bastante bem humorado, contando sobre o dia a dia de uma família com seus gatos (e os causos que costumam acontecer quando se tem gatos em casa)

O mangá surgiu como uma sugestão de seu editor, já que à época o mangaka passava por um certo bloqueio criativo para novas histórias de terror. E ao ser questionado sobre a recepção do público a um estilo diferente do habitual, Ito respondeu que no Japão é comum que mangakas alternem entre estilos de histórias. De fato incomum não é, mas às vezes dá um espanto. Ainda mais no caso de um autor que consagrou-se constantemente como criador de histórias de terror e de repente… gatos!

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Foto: @sucodm / @fotobelga

Às vésperas da abertura para as perguntas do público, Junji Ito foi questionado sobre a vindoura adaptação de Uzumaki para anime. Por se tratar de uma obra ainda a estreia, com certeza o mangaka não pode dizer lá muita coisa, mas o pouco que disse já deu pra animar ainda mais, pois já sabemos que Junji Ito fará uma ponta na dublagem do anime. De resto, tudo resta um mistério. Temos um teaser, temos um vídeo do diretor Hiroshi Nagahama pedindo ao público um pouco mais de tempo para poder entregar uma boa produção e é isso. Pessoalmente, confio, afinal o diretor deu vida a duas temporadas de Mushishi, que é apenas o melhor anime que já vi na vida. Junji Ito deixou seu xodó em boas mãos.

Por fim, muita gente se prontificou a fazer perguntas e poder dar seus testemunhos de amor e admiração ao sensei. É aqui que o autor vai pedir desculpas ao leitor ou à leitora, pois enquanto pensava no que perguntar, as perguntas iam e as respostas passavam. Mas faço menções memoráveis ao depoimento da artista Ana Sinhorelli, que comunicou sua admiração e sua inspiração nos trabalhos de Junji Ito para escrever suas histórias de terror, usando os próprios medos pessoais como fonte. 

Outros aproveitaram para perguntar sobre suas obras de comédia e ficção-fantástica favoritas, ou um mangá favorito, onde Ito não pôde deixar de falar sobre uma de suas maiores admirações, o mestre do horror Kazuo Umezu. Sobre influências literárias, Ito destacou seu gosto pelos cenários de horror descritos por H. P. Lovecraft e os escritos do difusor do gênero de mistério no Japão, o autor Edogawa Ranpo (pseudônimo de Taro Hirai, bem como uma japonificação de Edgar Allan Poe). Ele também ponderou sobre sua trajetória atípica como mangaka, divergindo de uma carreira profissional já estabelecida como protético, sem ter sido assistente de algum mangaka mais famoso e, ao ser perguntado sobre seus momentos de bloqueio criativo, Junji Ito deu vivas ao onsen, sem o qual ele não teria como relaxar nos tempos de necessidade e provavelmente não teria continuado na carreira.

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Foto: @sucodm / @fotobelga

Naquele dia, muitos de nós descobrimos que a comédia já era outra paixão antiga e tão próxima quanto a paixão que Junji Ito sente pelo terror. E é fato que o autor é muito bem humorado, bem brincalhão e já até vingou na internet posando com orelhas de gato e até virando v-tuber por um dia. Resolvi perguntar, no entanto, se o terror também não ajudou a moldar esse espírito descontraído. Afinal, abraçar o bizarro, abraçar o lado esquisito da vida, não ajudaria a torná-la mais interessante? Mais bem humorada?

Junji Ito viu certo sentido nisso. Em sua resposta, ele destacou que o dia a dia costuma ser algo comum, banal. E que com a fantasia, somos capazes de incrementar a vida com algo a mais de interessante.

Seguindo à esteira de depoimentos, tivemos o relato de Antônio Herdy. Acompanhado da prima, ele agradeceu publicamente ao sensei por ter servido de incentivo ao hábito da leitura, pois foi graças ao seu conto O Mistério da Falha de Amigara que a menina desenvolveu o gosto de ler. Além disso, uma professora divulgou o interesse de crianças com deficiências visuais a lerem suas obras em braile, sugestão bastante surpreendente ao qual Junji Ito recebeu com entusiasmo.

E assim nos despedimos todos daquela hora maravilhosa com um dos maiores nomes dos quadrinhos japoneses presente entre nós, com esperanças mútuas de que, em melhores condições, o próximo encontro seja presencial!

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Foto: @sucodm / @fotobelga

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