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O artigo a seguir contém SPOILERS do filme Hereditário, se você ainda não viu o longa, aconselho que leia primeiro a nossa REVIEW.

Para você que já assistiu e está mais perdido que cebola em salada de fruta, senta aí que hoje vamos dissecar o filme e te contar tim-tim por tim-tim o que o roteirista e diretor Ari Aster quis contar nessa sua estreia nas telonas de cinema.

Por que Hereditário?

A primeira coisa que eu quero chamar atenção é quanto ao nome do filme: por que Hereditário? Logo no inicio do filme Annie, protagonista, vai há um grupo de ajuda para pessoas que perderam pessoas amadas, nesse grupo ela revela como seu pai morreu de inanição após parar de comer por causa de uma depressão profunda, como seu irmão se suicidou por sofrer de esquizofrenia, e como sua mãe tinha problemas psicológicos que se agravaram com o passar da idade evoluindo para distúrbio de personalidade dissociativo. A verdade é que muitos distúrbios psicológicos, ou doenças mentais, são fatores genéticos. Quando uma família possui tantos casos relatados, a possibilidade de ser algo transmitido pelas gerações é alta, o que leva a pensar que Annie pode sofrer do mesmo, e seus filhos também.

Posteriormente podemos ver vários indícios de depressão e ansiedade em Annie, a mesma não consegue terminar seus trabalhos e continua postergando suas atividades, ela não consegue entrar em contato com a galeria para adiar a abertura, ela deixa bilhetes para si mesma incentivando a continuar e não deixar de trabalhar, ela possui crises de raiva intensas com explosões emocionais, ela sonha com ela brigando com seu filho e dizendo o que mantém secretamente escondido; todos esses são fatores que apontam que Annie possuía algum distúrbio, o que torna o caso Hereditário, sendo algo passado de mãe/pai para seus filhos.

hereditario
Arte por MrGremble

É realmente sobrenatural ou foi tudo coisa da nossa cabeça?

Por muito tempo o longa foi levado de uma maneira a crer que tudo que estava acontecendo podia ser “coisa da cabeça das personagens”, levando-se em conta ainda a questão dos distúrbios mentais a história ganha mais ceticismo. Porém, assim como O Bebê de Rosemary (título que serviu de inspiração a Aster), a obra faz isso de maneira proposital, gerando tensão da plateia. Porém, o sobrenatural é sim real.

Ellen, mãe de Annie, fazia parte de um grupo ocultista que tinha como objetivo invocar Paimon, um espirito demoníaco que era considerado um dos reis do inferno. Entre os poderes de Paimon estaria garantir conhecimento e riquezas para aqueles que o seguissem. Assim, eles começam um plano para realizar a invocação, inicialmente tentando com o irmão de Annie que acaba se suicidando (acusando a mãe de tentar colocar “pessoas” nele), Ellen então pressiona que a filha tenha filhos – mesmo ela não desejando – quando Annie engravida, ela tenta abortar Peter de diferentes formas, mas nenhuma funciona. Sofrendo pressão da mãe, ela se afasta de Ellen e interrompe os planos novamente, mas acaba se sentindo culpada (por não saber de nada) e quando Charlie nasce ela “entrega” a filha para a mãe. Ellen então começa a preparar Charlie para ser o receptáculo do demônio, mas tem um problema, ela é uma menina (Charlie fala para a mãe como a avó gostaria que ela fosse um menino). Então o grupo ocultista começa seu plano para colocar a alma de Charlie no corpo de Peter e por fim invocar Paimon.

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Pistas durante o filme

Muitas pessoas ficaram confusas porque deixaram passar várias pistas que o diretor nos deixou durante Hereditário, será que você identificou algumas delas?

  • Carta de Ellen para Annie dizendo que todas as perdas que ela sofreria seriam recompensadas depois (uma alusão aos ganhos por invocar Paimon);
  • Homem acenando para Charlie durante o enterro de Ellen, e mais tarde a mulher acenando para Charlie na escola (membros do grupo ocultista);
  • Porta do quarto de Ellen aberta (alguém invadiu a casa para colocar o corpo da mulher no sótão e acender a vela para invoca-la);
  • Tapete da porta de Joan feito pela mãe de Annie;
  • Charlie cortando a cabeça de pássaro e colando em boneca (alusão a “substituição” de identidade que veríamos mais vezes no decorrer do filme);
  • Animal morto na estrada faz com que Peter perca o controle (ato premeditado para libertar a alma de Charlie do seu corpo feminino);
  • Charlie é invocada no corpo de Annie sem querer (conforme o livro, a alma possui o usuário mais fraco);
  • Mulher “exorcizando” Peter (abalando ele psicologicamente para torna-lo mais fraco);
  • Evento da escola em que Peter se machuca “sozinho” (ritual realizado por Joan na casa dela);
  • Fotos em que Ellen está recebendo moedas de ouro no álbum do grupo ocultista (ela está vestida de noiva pois é a rainha de Paimon);
  • Pessoas nuas “cinzas” que aparecem no final (membros do grupo ocultista em sua forma espiritual, inclusive são os mesmos que apareceram antes acenando para Charlie).

Minimalismo e Tragédia

Por último, mas não menos importante, por que Annie criava as cenas que a assombravam em maquetes minimalistas? Quando Steve pergunta a ela, sua resposta é “uma visão neutra sobre o acidente”, mas Annie na verdade usa o minimalismo para assumir controle de fatos que ela não pode evitar. Quando ela reconstrói os eventos e personagens, ela usa a abordagem para se sentir melhor perante a eventos em que as coisas fugiram do seu controle. Isso é bastante interessante não só por causa da hipótese de que ela seja depressiva, mas também porque durante o filme inteiro ela fala sobre a culpa que sente sobre eventos que “não são de responsabilidade dela”.

Ari Aster aproveita dessa premissa e utiliza a câmera para brincar com esses cenários e fazer tomadas lentas, densas, desconfortáveis e claustrofóbicas. Não só isso, mas também passando a ideia de que as personagens estão presas de um cenário que já tem o final escrito, e que nada que façam pode mudá-lo. Sabe onde encontramos isso? Em tragédias, um tipo de gênero de literatura grego onde os heróis são expostos a eventos do qual eles não têm controle, os colocando em situações miseráveis sem qualquer tipo de solução. Propositalmente Hereditário cita as tragédias na primeira cena de Peter na sala de aula, e o próprio diretor usou o termo para descrever seu filme na pré-produção “Uma tragédia que se transforma em um pesadelo”.

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