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É muito triste ter que admitir que um anime ruim teve tantos pontos positivos, que você se sente incapaz de ignorá-los. Babylon é como uma pessoa que você sente admiração, mas que vai te decepcionando de pouco a pouco e termina te deixando triste, pois você sabia que ela era capaz de mais. E mesmo assim, você termina sem conseguir sentir raiva dessa pessoa. Essa review é justamente um acerto de contas com esses sentimentos conflitantes.

Do Primeiro Gole de Babylon para cá, o anime passava por uma pausa em dezembro justamente no clímax de um de seus momentos mais agonizantes. À essa altura, Babylon estava sendo um ótimo thriller dos quais não se costuma achar com frequência. Mas após o retorno, o anime tomou alguns caminhos estranhos; mesmo coletando para si alguns méritos, Babylon descarrilhou para um final pobre e mal desenvolvido. Afinal de contas, o que aconteceu?

Essa é a principal pergunta que este Review se faz. Ver Babylon foi uma ótima experiência durante suas primeiras semanas. O anime tem ótimas qualidades, principalmente pelas escolhas narrativas de seu autor. Porém, seus defeitos ancoram todas essas qualidades de um jeito bem lamentável, ao ponto de assistir o último episódio virar uma experiência dolorosamente decepcionante.

O que fez então, esse anime ser interessante em primeiro lugar?

ONDE ESTAVA ACERTANDO?

De primeira, Babylon apresentava um thriller policial com um caso, crime, mistério, aquela receitinha básica de um crime estranho a ser desvendado. Havia um gostinho de Law & Order no ar, talvez a única série que este redator assiste assiduamente e com muito gosto. Os três primeiros episódios escalam o interesse: com a surpresa do primeiro episódio à interessantíssima cena do interrogatório no segundo episódio. Não só o diálogo do interrogatório foi bem instigante, como temos um gosto forte do tipo de personalidade da antagonista Magase Ai. Ela te atrai mesmo você sabendo que ela é puro perigo, como uma mosca que se joga à uma planta carnívora.

Não bastasse o carisma de sua principal antagonista, o mistério por trás do distrito fictício de Shiniki anunciava um conflito inusitado e ousado. Além de Magase Ai, Itsuki Kaika é um segundo antagonista que pretende se tornar prefeito do novo distrito para passar adiante sua utopia: uma humanidade que não mais tema a morte, mas que a abrace. Na esteira da corrida eleitoral, Kaika propõe a chamada Lei do Suicídio, advogando pela quebra de tabu da morte e que cada um pudesse escolher o fim da própria vida. Talvez “ousado” não caiba aqui para descrever a situação, já que, como Babylon não esconde, a morte é um tabu. Mais ainda quando ela vira um ato voluntário fora da ideia de auto-sacrifício.

Então basicamente, os antagonismos de Babylon vêm em uma bifurcação: de um lado Magase Ai e de outro, Itsuki Kaika. Uma mulher perigosamente atraente e um jovem político carismático com uma agenda controversa e com seus porquês um tanto vagos em uma cidade fictícia ainda por ser explorada pelo enredo. A tensão construída até o sétimo episódio deixou o anime bem promissor, não fosse pelo triste fato de que Babylon só teria mais quatro episódios para encerrar tudo.

E foi aí que tudo desandou.

E AONDE DEU ERRADO EM BABYLON?

É complicado falar exatamente dos erros de Babylon. Em uma única frase, o que deu errado foi a ideia de juntar duas propostas extremamente densas em uma curta produção de 12 episódios. No geral foi isso. Quais propostas, no entanto? A primeira dela nós acabamos de mostrar: um thriller policial com antagonistas misteriosos e uma conspiração que engloba os acontecimentos. Já a segunda proposta é a que ou te faz amar ou odiar Babylon, dependendo de sua constituição psicológica: pela chave do debate sobre a Lei do Suicídio, Babylon pretende fazer uma discussão filosófica sobre o suicídio e sua legitimidade.

É um tema quente, não? Lidar com esse assunto (que não se enganem: É uma realidade) nos assusta e nos afasta por ser uma ação contra-intuitiva em si mesma, já que o primeiro instinto de tudo aquilo que é vivo é justamente manter-se vivo. Além de ser contra-intuitivo, existem todas as questões psicológicas e de saúde mental que antecedem o suicídio, ou melhor, que buscam a ferro e fogo evitar que uma pessoa dê cabo de si. É um assunto sensível, às vezes alguém pode ter perdido uma pessoa querida por essa ação e a própria menção ao ato numa obra de ficção basta, pelo medo, para que alguém reaja de forma hostil àquela obra de ficção. Basta que alguém se lembre do barata-voa que seguiu-se à estreia de 13 Reasons Why.

Mas é justamente pela sensibilidade e pelo absurdo do assunto, que imergir nesta discussão requer um ato de coragem. E é uma coragem digna de nota levar o pensamento aonde ele é vetado. Albert Camus, um dos pensadores mais admiráveis do último século foi direto ao ponto quando afirmou que:

“Existe apenas um único problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida significa responder à questão fundamental da filosofia.”

E o que nos apavora nesse problema é que não se trata de uma pergunta para qual a resposta esteja num tubo de ensaio de um laboratório. Menos ainda em retórica barata de auto-ajuda. É um problema filosófico de tamanha magnitude, que de Kierkgaard, Schopenhauer, Mainländer e Camus até os dias de hoje, essa é uma pergunta que ainda move teses. A situação é como a de uma doença que não conhecemos de onde veio, nem sabemos qual é sua cura e buscamos apenas combater seus sintomas. O suicídio como problema filosófico toca nem em uma ferida do nosso mundo, mas num vazio. Um vazio em nossa capacidade de atribuir sentido às nossas próprias vidas.

Se a ciência convencional, vital para nossas vidas e sua qualidade, é incapaz de solucionar essas questões que passam ao largo do método científico e se o meio filosófico é por demais técnico e complexo para que seus enunciados ganhem o grande público, é na arte onde o impulso criativo e a imaginação criam pontes entre a vida comum e os grandes problemas que envolvem nosso tempo de existência no mundo. No que diz respeito ao suicídio, Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, é um marco da arte que se põe neste propósito, sendo atribuído ao escritor a chamada “Síndrome de Werther”, que teria sido uma epidemia de suicídios após o lançamento do livro do romancista alemão.

É esta mesma Síndrome que gerou um pânico semelhante com 13 Reasons Why. De fato, a série foi bem criticada por acabar romantizando o ato de acabar com a própria vida. Babylon tem vários defeitos de execução, mas esse defeito o anime definitivamente não tem. Na imagem do presidente Alexander Wood, uma figura absurdamente parecida com a do rei-filósofo de Platão, Babylon eleva o seu plot à condição de um profundo questionamento sobre o que é fazer o certo.

E se isolarmos apenas esta faceta do anime e esquecermos que existe Shiniki, Kaika ou Magase Ai, os episódios que giram em torno das reflexões do presidente Wood são maravilhosos. Ele até tem umas péssimas leituras bíblicas aqui ou ali perdoáveis; e o anime tem um approach bem estranho com a Lei do Sucídio, pressupondo que apenas por existir uma lei, as pessoas vão passar a considerar a possibilidade do suicídio sendo que ele… já é uma realidade, querendo ou não. Prefiro pensar que o autor de Babylon tenha usado a discussão da lei para a discussão tenha algum grau de formalidade na esfera pública, para além de puro devaneio filosófico (que foi o que Babylon acabou se tornando do episódio 8 em diante).

Mas não deixa de ser excelente sua atitude de fronteira; Babylon pega o raciocínio de desconstrução de toda norma social e o aplica à própria convenção social de considerar a vida como algo a ser valorizado em si mesmo, radicalizando a atitude no seu limite lógico. “Por que viver?” se pergunta Kaika, e depois Wood, atraído pelo questionamento do jovem prefeito. As pessoas seduzidas pelo canto da serpente que é Magase Ai (canto este perfeitamente ilustrado no interrogatório do episódio 2), se convencem de que, depois de tantas barreiras e tabus quebrados, era chegada a hora de finalmente ser quebrado o tabu da morte. As pessoas que se opunham à Lei do Suicídio, não se sentiam convencidas de largarem suas convenções que davam sentido à sua vida. Mostra cômica dessa cena está no episódio 10, quando durante uma reunião entre líderes mundiais a parte canadense, fazendo justiça à sátira de Jean Trudeau, simplesmente abraça a ideia de romper qualquer barreira e convenção social pelo puro prazer do rompimento. Essa sátira demonstra um inusitado conhecimento de política internacional, pois não há atitude mais canadense possível se alguém pensar nos últimos anos.

O problema é que por mais interessante que tenha sido os insights, Babylon não pode ser resumido aos episódios 9 a 11 e muitos menos pode ser dissociado de todo o suspense que foi construído nos primeiros sete episódios e que foi simplesmente… abandonado. A decepção generalizada com o final sem pé nem cabeça fez pior do que dar raiva. Fez decepcionar o que tinha enorme potencial.

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Babylon (Imagem Divulgação)

CONCLUSÕES: UM ENSAIO FILOSÓFICO EM FORMATO DE ANIME

Volta e meia, durante a estreia de Babylon, foram feitas comparações com Monster. Seja pela natureza de seu gênero, seja pela semelhança entre os antagonistas, Johann e Magase Ai (que impressionou a ponto de ser indicada na categoria Vilão do Ano no Crunchy Awards). O que separa os personagens é bem pouco, realmente. Ambos tem uma atitude apática perante a vida e o mundo; e é nesse abraço do vazio de sentido que ambos agem do jeito que agem.

E em reação às suas ações, tanto o doutor Tenma de um lado quanto o presidente Wood de outro são confrontados com a questão do valor da vida. Tenma, na condição de médico, tem a vida como princípio absoluto e inquestionável, mesmo sendo provado pelas consequências negativas (e fora de seu controle) de ter salvado uma vida que mata outras.

Wood, ao ser confrontado por um debate global sobre a aprovação de uma lei, é obrigado por natureza de sua personalidade a perguntar não só sobre a validade ou não de se tirar a própria vida, mas realiza a pergunta fundamental sobre a qual toda a discussão sobre política se resume no final das contas: o que é o certo? O que é fazer a coisa certa?

Babylon nos mostra que a resposta para essa pergunta é muito mais complexa do que presumir que o mundo é simplesmente feito de heróis e vilões; ou que pensar implica em como fazer o Bem derrotar o Mal. Isso alça o anime numa condição de maturidade bem acima da média de outras obras e, pior, acima da média da maturidade tanto de consumidores quanto críticos de cultura pop, que simplificam grosseiramente questões que jamais devem de ser abraçadas em sua complexidade.

Igualmente, ao discutir sobre o suicídio, reagir a essa discussão com pânico só mostra o quão despreparados estamos tanto para falar sobre saúde mental quanto para sair das camadas superficiais do pensamento e de fato abraçar as perguntas últimas que afligem a todos nós ao redor do mundo. Essa reação, por mais genuína que seja em se preocupar com vidas que se encontram mentalmente fragilizadas, não nos ajuda em nada além de varrer os problemas para debaixo do tapete. E quando a sujeira transborda, é pior para todos nós.

Se Babylon tivesse tido pelo menos o dobro de episódios, talvez, mas talvez mesmo, o anime teria conseguido conciliar sua proposta de ser um ensaio filosófico em formato de anime, sem abrir mão de seu suspense e simplesmente descarta-lo. É possível fazer isso, mas dá trabalho, leva tempo e construção narrativa. Não à toa Monster teve mais de 70 episódios.

Há sempre a chance de termos todos visto uma péssima adaptação e que de fato seja bem melhor consultar a novel. Quem sabe?

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