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Josee, the Tiger and the Fish: o filme de anime sobre amor e superação que vale cada minuto

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Na contra mão dos assuntos de sempre dessa coluna, falaremos de amor. Se bem me recordo, a última vez que isso aconteceu foi em 2018, então aproveitemos bem porque, se a progressão aritmética se manter, a próxima vez só em 2034. Falaremos um pouco sobre o laço comovente apresentado em Josee, the Tiger and the Fish; mais especificamente, a adaptação de 2020 do conto da escritora Seiko Tanabe (1928-2019).

E essa conversa não seria possível sem a série de não-problemas levantados pelo Twitter mesmo anos após sua estreia. Pelo marketing gratuito e os lembretes recorrentes, vai aqui meu muito obrigado.

UMA HISTÓRIA EXTEMPORÂNEA

Produzido pelo mesmo estúdio Bones que, desde 1998, agracia o mundo com Fullmetal Alchemist Brotherhood, Boku no Hero Academia, Gosick, Mob Psycho e tantas outras produções, este longa conta a história de Tsuneo Suzukawa, um universitário focado em suas responsabilidades e esforçado dia e noite pelo seu sonho de estudar no exterior. A vida marinha é uma paixão que o rapaz carrega desde a infância. Com Hayato e Mai, Tsuneo compartilha os estudos, o trabalho e os mergulhos no fundo do mar, para fotografar e descobrir mais sobre a vida aquática.

Enquanto Hayato prioriza viver sua juventude e Mai observa à distância uma paixão não correspondida, Tsuneo vive para seus estudos e para o seu trabalho. Uma espécie marinha muito particular faz do México seu grande alvo de intercâmbio e é para esse sonho que vão todas as economias do rapaz, de dinheiro e de tempo. Não sobra nada para as namoradinhas. Daí que a roda da fortuna amorosa não surge pela vontade de Tsuneo, mas por uma cadeira de rodas desgovernada colina abaixo, que coloca uma garota em risco. Essa garota é a segunda protagonista da obra, Josee.

O encontro inesperado joga um balde de água fria em quem se engana pelo poster ou pelos cortes fofos das redes sociais, pois a atitude de Josee é o oposto de sua estatura. A aparente fragilidade abriga uma pessoa cheia de birra e com requintes de malcriação. Josee compensa suas limitações físicas com uma personalidade forte (i.e., chata) para permitir-se alguma forma de independência, também exercida em segredo pelo seu imenso talento nas artes. Ao salvar Josee de um acidente, Tsuneo é contratado por Chizu, a avó de Josee, para que ele seja seu cuidador por algumas horas do dia.

Bom, o X da questão que torna o filme tão atraente, é que apesar de ser um romance, Josee abraça vários temas construtivos e significantes até o “felizes para sempre”. Sua construção narrativa tem seu apelo, na opinião deste colunista, no fato de ser uma história extemporânea. Seiko Tanabe faleceu por volta de um ano antes de sua história ganhar mais duas adaptações em 2020 (já havia sido transformada em filme no Japão, em 2003). A renomada escritora contava e entendia histórias e temas amorosos de uma maneira muito distinta da nossa geração, que entende o amor em termos de êxtase e autosatisfação. O entendimento de amor como mediação rumo a um Outro tem sido cada vez mais estranha. E é nesse estranhamento que mora a qualidade de uma história extemporânea, que pertence a um outro tempo.

Josee the Tiger and the Fish poster
Pôster Divulgação

O AMOR PELOS ATOS

Josee também é extemporâneo por não usar a linguagem do século XXI para falar de deficiências. No melhor estilo das artes narrativas japonesas, sua presença é sentida pela ausência. A maneira como a história consegue esse feito é por uma fórmula das mais eficientes na linguagem do amor: os atos. Pouco é dito, muito é feito. Tsuneo não fala de suas paixões marinhas; antes, corre para realizar o desejo de Josee em conhecer o mar. De interação em interação e de mediação em mediação, o laço construído entre Tsuneo e Josee é feito passo a passo, vagaroso, cada um conhecendo e edificando um ao outro. O mar serve como uma janela para o mundo, até então inédito a Josee, que vivera sob os cuidados rígidos de uma avó temerosa dos perigos do mundo. Na biblioteca, Josee encontra nas letras dos livros as asas que a fazem voar mais longe do que qualquer par de pernas funcionais poderia levá-la. E como se entendesse e sentisse o alívio de ver a neta ganhar autonomia e independência, o corpo de Chizu se permite o último descanso.

Como uma história de amizade e conhecimento mútuo, Josee já vale o filme que é. Mas fica ainda melhor quando a história impõe sobre si os desafios da vida. Quando a avó da protagonista falece, seu último suporte familiar, nos deparamos com uma história que escancara nossa fragilidade. Longe de sermos autossuficientes, estamos sempre à mercê da ajuda. Cadeirantes ou não, não se trata disso. Afinal, a plena saúde é uma ilusão que ingenuamente julgamos sermos perpétuos portadores. O que o filme nos mostra, e aqui conto sem maiores detalhes para não estragar a graça, é que a roda da fortuna também gira ao nosso desfavor. Qualquer um pode se ver a qualquer momento na necessidade do alento alheio. Seja da família, seja dos amigos, enfim, da comunidade de almas que nos cerca. E no final dessa estrada, mora o amor, seja ele romântico ou não. No caso de Tsuneo e Josee sim, pois estamos diante de um conto que propaga e vende o sonho do amor.

CONCLUSÕES

Essa review chega um pouco “tarde demais”. Faz sentido que esta coluna queira acompanhar as novidades do momento para manter alguma relevância. Também faz sentido que esta coluna se mantenha viva ao escrever sobre aquilo que lhe salta os olhos e toque o coração num dado momento. O que aconteceu aqui não foi exatamente nem um, nem outro. Como dito no começo do texto, fui lembrado da existência desse filme – que já me chamara a atenção na época pelo trailer – por algumas problematizações desprovidas de bom senso que só as redes sociais são capazes de produzir.

Mas – e aqui vai uma dica interessante de como aproveitar bem a internet – esses não-problemas e essas não-discussões servem mais para arrancar um riso do que para se aborrecer. Se o mundo é bobo ou ansioso em busca de engajamentos e cliques, o fato permanece que às vezes essas discussões acabam sendo feitas em cima de obras de imenso valor artístico e fonte de experiências genuinamente belas.

Por me lembrar da existência de uma animação tão edificante e construtiva, agradeço ao Twitter e convido a todos a testemunharem essa história plena de sensibilidade, que é Josee, the Tiger and the Fish.

SINOPSE

Josee, o Tigre e o Peixe é uma animação japonesa de 2020 comédia romântica drama, baseado em o conto de mesmo nome de Seiko Tanabe. O filme é estrelado pelas vozes de Taishi Nakagawa e Kaya Kiyohara.
Eriki
Eriki
Olá, sou o Eriki, redator do Suco de Mangá desde 2018, ex apresentador do Gole Otaku, programa semanal do Suco de Mangá sobre as estreias de animes da temporada, formado em História pela UFRJ e guitarrista da Matina Cafe, banda que se inspira no som do visual kei.

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Josee, o Tigre e o Peixe é uma animação japonesa de 2020 comédia romântica drama, baseado em o conto de mesmo nome de Seiko Tanabe. O filme é estrelado pelas vozes de Taishi Nakagawa e Kaya Kiyohara. Josee, the Tiger and the Fish: o filme de anime sobre amor e superação que vale cada minuto