Terror não é o gênero mais bem sucedido no meio dos animes, salvo alguns bons exemplos que confirmam a regra, como Mieruko-chan, com um feito de meta-terror magnífico no último episódio e Midori. Sendo que Midori transcende do terror para o horror insustentável aos olhos. De cabeça só penso nesses dois casos. Sim, Junji Ito não conta, porque apenas um episódio fez justiça aos seus mangás e nada mais.
Quem chega como um terceiro caso de sucesso é Kaya-chan. O anime (assista o primeiro episódio no YouTube) inocente à primeira vista sobre a menina que vê fantasmas revela uma trama bem sólida com o passar dos episódios. E é disso que falaremos mais a partir de agora!
A MENINA QUE VÊ
Produzida pela East Fish Studio, Kaya-chan tem um título direto e ainda assim ambíguo. Kaya-chan wa kowakunai pode ser lido tanto quanto “Kaya-chan não tem medo” como do jeito que o título em inglês o sugere: “Kaya-chan não é assustadora”. Nossa protagonista é uma menina nos primeiríssimos anos de vida, que frequenta uma creche enquanto seu pai sai para trabalhar. Entre uma aula e outra, Kaya se mete em encrenca por supostamente atrapalhar seus colegas. Ninguém acreditaria que na verdade ela estivesse salvando as outras crianças de fantasmas malignos, então ela tende a ser reclusa, pois sabe que ninguém a ouvirá.
Quem quebra essa rotina solitária, como alguém que dá ouvidos ao sobrenatural é Chie, uma de suas professoras e cuidadoras da creche. Sua curiosidade e capacidade de acreditar nas crianças a torna capaz de vislumbrar a realidade de Kaya. Ao mesmo tempo que isso é um mérito como uma boa professora, por outro lado, Chie acaba se expondo ao perigo de adentrar num mundo que não é reservado aos poucos. Pois com o passar dos episódios, as assombrações são menos episódicas e mais sinalizantes de que há um mundo sobrenatural em ação.
CONDUTORES DA TRAMA
Depois de um tempo com fantasmas virando pó nas mãos de Kaya, que se transmuta num semblante negro pouco explicado até o final do anime, começamos a compreender as limitações desta que é só uma menina. A mãe de Kaya, mal mencionada no começo, é apresentada a nós na forma de um espectro aterrorizante, um mal muito maior do que a menina é capaz de lidar. Só depois de algum tempo as lentes da trama saem dos olhos sensíveis de Kaya para mostrar ao espectador que não há nada de errado com Mirai e sim com o bebê gestado em seu útero.
Como não é uma criança ainda inocente sobre si e suas circunstâncias que terá a condição de explorar os mistérios da trama, Chie serve como condutora na narrativa do anime na companhia de Mobu. Mobu é um entusiasta do oculto, apresentado como um pai traumatizado pela morte precoce da filha e sua transformação num espectro exorcizado pelas mãos de uma Kaya ainda bebê. Apesar do plano de fundo emocionante, Mobu é um tremendo de um alívio cômico, lembrete de que o Japão costuma promover o combate à obesidade pelo mais puro bullying desenfreado. Haverá um dia em que um gordo terá voz de gente em um anime, mas esse dia não é hoje.
MALDIÇÕES DE FAMÍLIA E O HORRO DO PARTO
Execuções produtivas à parte, podemos supor que boa parte da qualidade do terror de Kaya-chan more no seu tema. Não foi gratuito o fato de um de seus momentos mais assustadores ter sido o exorcismo da mãe que morrera durante o parto e cuja alma permanecia atormentada pela presença de bebês fantasmagóricos. A maternidade tem um lugar especial no imaginário e é quase necessário que o seja. Porque se a possibilidade do ressurgimento da vida for uma paisagem infernal, o que é ameaçado é a própria possibilidade da vida, no longo prazo. E curiosamente, esse é o caso ancestral da família de Kaya, uma longa linhagem de exorcistas com uma origem perversa e um manuseio ainda mais perverso da gestação como instrumento de poder. Um poder gestado no ventre e liberado de forma destrutiva, aniquilando sua hospedeira.
Além do belo exercício de imaginação, há um pé de realidade no sofrimento da gestação e da revolta pela morte de uma inocente. E ainda mais real é a lição tirada de Kaya-chan: as crianças não podem ser responsabilizadas pelos sofrimentos passados e presentes. Apesar de carregar poderes sobrenaturais, apesar de morar no limiar entre o humano e o não-humano… Kaya ainda é uma criança, o bebê carregado no ventre de Mirai ainda é uma pessoa e Chie encarna esse senso de responsabilidade, da obrigação de cuidar daqueles que ainda não podem cuidar de si…
…independente das consequências.
CONCLUSÕES FINAIS
Com uma história sólida, Kaya-chan não é o tipo de anime que pede por uma segunda temporada. É o caso pouco comum de uma história que se apresenta, se desenvolve e chega a uma conclusão. Isso vale uma recomendação por si só. Ademais, se você tem alguma afinidade pelo oculto ou já experimentou de perto sua realidade seja por si ou seja por terceiros, as manifestações sobrenaturais ali retratadas podem soar um pouco familiares. Ou pelo menos é isso o que ouvi dizer.


