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Os Gritos, de Tokurō Nukui: thriller japonês que impressiona pela profundidade da corporação policial japonesa

Romance policial publicado originalmente em 1993 no Japão chega ao Brasil pela Rocco com mais de 600 mil cópias vendidas no país de origem.

Agradeço à Rocco pela oportunidade de ler Os Gritos antes de tudo. Confesso que cheguei ao livro praticamente sem expectativas: julgando a linda capa feita pelo artista plástico Wagner Kuroiwa, esperava algo sobrenatural. Raramente leio sinopses e gosto de descobrir o que estou lendo no ato. A surpresa foi encontrar um thriller policial com pitadas de mistério, crítica institucional e um mergulho fundo na fragilidade humana.

Tokurō Nukui é uma figura central do mistério japonês — atual presidente da Associação de Escritores de Mistério do Japão e vencedor de prêmios como o Yamamoto ShūgorōOs Gritos levou 30 anos para chegar ao Brasil e já é, por si só, um exemplar representativo do noir japonês.

Duas vozes, dois mundos

A narrativa é construída sobre dois pontos de vista paralelos. O primeiro é o do detetive Saeki, que investiga o desaparecimento e morte de crianças em Tóquio no início dos anos 1990. Por ele, o leitor acompanha o funcionamento da corporação policial japonesa com um realismo que impressiona — hierarquias, burocracias, pressões da mídia sobre as investigações. O segundo é Matsumoto, um homem desolado pelo luto da filha que encontra refúgio em uma neorreligião que mistura elementos evangélicos com ocultismos e referências à Cabala.

É na voz de Matsumoto que o livro mais engrena. A seita, os sephiroths, a manipulação de pessoas vulneráveis pelo consolo espiritual — tudo isso cria uma tensão genuína desde as primeiras páginas. A escrita flui, e a habilidade de Nukui é inegável.

tokuro nukui
Tokuro Nukui / Imagem Divulgação

O problema do ritmo

Até os 80% do livro, a narrativa de Saeki se mostrou a parte mais fraca para mim. O cotidiano da corporação é intencional e bem construído, mas para quem busca uma investigação mais clássica — ruas, pistas, confrontos — pode parecer distante. A lentidão é real: há trechos em que a leitura exige paciência antes de as coisas realmente engrenarem.

O plot twist, quando chega, não pegou com a força que poderia ter. Chega tarde demais — perto dos 90% — e o desfecho é seco, sem espaço para respirar. Prefiro obras que fechem suas janelas sem pressa, que deixem o leitor marinar nas conclusões. Aqui, a amarração é rápida demais para o peso que a história carrega.

O que salva e o que encanta

Apesar do ritmo irregular, Os Gritos funciona como um espelho da alma humana. O luto, a fragilidade, a busca por pertencimento em momentos de desespero — esses temas universais atravessam o livro inteiro e justificam sua longevidade no Japão. Os personagens secundários também têm peso: a família em crise de Saeki e os praticantes da seita ao redor de Matsumoto dão textura à trama sem parecer descartáveis.

A dualidade narrativa cria um jogo de gato e rato que se sustenta. Quando os dois pontos de vista finalmente se entrelaçam, há satisfação — mesmo que o impacto seja menor do que o esperado para leitores mais experientes no gênero.

Vale a leitura?

Se você curte noir japonês, luto bem escrito e crítica social embutida na ficção, Os Gritos entrega. A habilidade de Nukui está presente em cada página — o problema não é a escrita, é o equilíbrio entre os dois arcos. Quem busca uma investigação mais dinâmica pode se frustrar com o tempo gasto na burocracia policial. Mas quem se deixa levar pelo lado de Matsumoto encontrará uma das partes mais envolventes do livro.

Os Gritos de Tokurō Nukui
Capa Divulgação

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SINOPSE

As pessoas acreditam no que querem acreditar… Uma série de sequestros devastadores assusta os cidadãos da área metropolitana de Tóquio, mas as buscas pelas garotinhas desaparecidas não avançam. Saeki, o chefe da Primeira Divisão Investigativa e responsável pelo caso, tenta manter a calma e a compostura, mas o tempo está se esgotando. O jovem detetive é alvo da discórdia dentro da polícia e das atenções indiscretas da imprensa, que revira sua vida privada sem escrúpulos. Nessa atmosfera tensa, todos os seus movimentos estão sendo observados… Matsumoto, um homem que teve a vida destruída pelo luto, se vê cada vez mais envolvido em uma nova religião, na qual acredita que enfim encontrará o alívio para a dor que tanto lhe atormenta. Vindo de família rica e generoso em suas doações, ele logo se vê galgando posições na hierarquia da Ordem. Por trás da fachada acolhedora, porém, se escondem segredos sombrios, que revelam possibilidades que ele jamais imaginaria. Esta obra ambiciosa e surpreendente, narrada em vozes paralelas em uma constante caçada de gato e rato, é um clássico que comemorou trinta anos da publicação original em 2023 e mais de seiscentos mil exemplares vendidos. Pela primeira vez publicado no Brasil, o premiado Tokurō Nukui é um dos principais nomes do noir japonês, com obras adaptadas para o cinema e a TV, além de ser o atual presidente da prestigiosa Associação de Escritores de Mistério do Japão.
BELLAN
BELLAN
O #BELLAN é um nerd assíduo e extremamente sistemático com o que assiste ou lê; ele vai querer terminar mesmo sendo a pior coisa do mundo. Bizarrices, experimentalismo e obras soturnas, é com ele mesmo.

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