Dizer que o primeiro Homem de Ferro é o filme de herói mais importante dos últimos tempos não é exagero, foi ele quem abriu as águas para toda uma leva da nova cultura de super-heróis, mesmo que o Incrível Hulk tenha sido o primeiro filme de fato da Marvel Studios, Tony Stark tem a glória repousada em si por motivos que faz qualquer blockbuster atual ser um sucesso: A combinação de um enredo sólido, personagens convincentes, aspectos técnicos bem feitos e atores fazendo seu trabalho. O mesmo pode se dizer sobre Demolidor, a primeira série da parceira entre Marvel e Netflix, trazendo consigo tudo que já foi citado antes e até mais bem feito, elevando o jogo que até agora, contava com séries do mesmo tema com tom mais novelesco e arcos narrativos fracos. A primeira temporada de Demolidor é uma obra de arte do começo ao fim, sem tirar em por e desde sua abertura isso é notório.

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Se prosseguisse essa analogia, as duas temporadas de Demolidor são os dois filmes do Homem de Ferro, Jessica Jones é Capitão América: O Primeiro Vingador, Luke Cage é o Incrível Hulk e Punho Ferro é o primeiro filme do Thor. Por quê? Porque a série é igual ao filme do asgardiano. Tedioso, clichê e com potencial desperdiçado.

A série narra história de Danny Rand, um filho de bilionários que após um acidente de avião que é encontrado por monges e o levam para a cidade mística de K’un Lun, retornando a civilização moderna após 15 anos, agora, um mestre do Kung Fu e com os poderes de uma entidade milenar, se envolvendo em batalhas para recuperar a empresa de sua família e destruir a organização do Tentáculo, seu inimigo jurado seu e de seus antigos mestres.

A que você veio, Danny Rand?

O problema da série começa exatamente em seu protagonista, Danny Rand, interpretado pelo ator Finn Jones, antigo Loras Tyrell de Game of Thrones. A direção de atores ruim, aliado ao roteiro horrível, traz para a série algo completamente diferente do que deveria ser um homem adulto que agora, com poderes e habilidades com Kung-Fu, traz um garoto no pior sentido. Jones consegue encarnar inicialmente, o mendigo gente-boa e futuramente, o empresário hipster, por mais desinteressante que seja, está plausível, dado que de inicio, tudo é novo e talvez os roteiristas estejam tendo dificuldade para começar a compreender o que é o personagem e seu tom, porém, conforme a história avança, Rand retrocede cada vez que o enredo pede que avance. Cada vez que se pede uma postura de um lutador profissional, Finn não consegue de forma alguma, entregar um lutador, só um garoto que é arrastado de problema a problema.

Arrastado e previsível, essa é a forma de descrever todo o arco narrativo de Punho de Ferro. A série pula de arco em arco, totalizando dois separados quase perfeitamente e um terceiro tempo integral que só é resolvido no final da série, e durante todo esse percurso tortuoso que o expectador é conduzido, através de buracos grotescos e até erros de produção, existe eternamente a sensação de que tudo leva a nada com dramas que ninguém se importa porque poucos entregam uma atuação que convença.

Dentre os coadjuvantes, temos Colleen Wing (Jessica Henwick), a professora de artes marciais e ‘’side-kick’’ de Danny; Joy Meachum (Jessica Stroup), antiga amiga de infância; Ward Meachum (Tom Pelphrey) antigo bully também da infância de Danny e Harold Meachum (David Wenham), sócio de Wendell Rand. Todos aqui têm sua função de fazer o enredo prosseguir, mas nenhum tem uma presença marcante ou uma história boa, salvo Jessica que consegue em suas atuações durante as cenas de luta, consegue manter o ar de uma lutadora profissional e guerreira, contando até com o que chega de mais próximo das melhores lutas da série.

No aspecto técnico sofre da mediocridade no sentido mais básico da palavra, que é regular. Não existe uma identidade visual para a série, não há uma palheta de cor que realce o que seria a cor do personagem, verde, não há ângulos de câmera marcantes, nem cenas de lutas bem dirigidas, muito pelo contrario, não apresentado nada de novo do que já foi visto em Demolidor.

Para completar, a série peca até em sua promessa mais simples: Trazer o misticismo. Durante a série inteira, parece que todo roteirista tinha medo de usar o poder de Danny e quando usava, era em momentos rápidos ou necessários para que algo acontecesse. Não há misticismo em Punho de Ferro, nem um traço de algo mágico e facilmente poderia se dizer que a habilidade conferida ao protagonista não é a mesma da superforça de Jessica Jones ou a pele impenetrável de Luke Cage.

O herói indefensável

Com grandes promessas, a jornada de Danny Rand sofre e peca muito durante os arrastados 13 episódios, que facilmente poderiam ter sido 10, provando mais uma vez que a fórmula que a Netflix adotou para as séries Marvel já está começando a dar errado. A presença da Nick Fury dos Defensores cada vez se torna mais difícil se engolir, que aqui já se tornou uma obra do acaso.

Tudo que a série é, Danny Rand sofre. De uma falta de personalidade, de uma identidade própria, de uma atitude que prove a necessidade de se contar sua história, de um círculo de coadjuvantes que faça algo além de mover ele para frente. No final, temos uma série fraca e esquecível, fruto de uma combinação de uma escrita rasa provinda dos roteiristas como a incompetência de uma equipe que não soube fazer valer o potencial que a série poderia ter e dando a crer, que tudo foi montado pensando em Defensores e não em uma obra fechada em si.

Texto por André Arrais