Não custa nada avisar, mas essa Análise conterá spoilers! Assistir Megalo Box foi sem sombra de dúvidas uma imensa alegria. Posso começar avaliando de cara aquilo que foi de mais impactante não só para mim como com certeza para muitos, que é a sua animação.

A animação de Megalo Box, que estreou na Temporada de Primavera 2019, foi muito bem elogiada por resgatar o estilo dos outros animes da década de 90, tido para muitos a época de ouro da animação japonesa, no que diz respeito a estética. Isso pode parecer um saudosismo chato de gente que vive dia a dia de nostalgia e que sente saudade dos “bons velhos tempos que jamais voltarão”.

Eu entendo se você ache esse tipo de coisa chata, mas acredito que dessa vez podemos dar uma colher de chá, pois a produção de Megalo Box fez mais do que apenas dar um fanservice para quem tinha saudades dos animes de antigamente. Arrisco dizer, com forte convicção, que esse sequer foi um dos objetivos do anime. O que a produção fez e conseguiu nos comunicar, foi isso: “É possível trazer o que houve de bom com a tecnologia de agora”.

E isso é uma mensagem importante, porque não é por acaso que os animes de hoje tenham uma animação mais estática se comparada à fluidez de um Trigun ou outro anime do gênero. As tecnologias de antigamente que permitiam esse tipo de animação, mas ao custo de uma produção muito mais trabalhosa, já não se encontram mais disponíveis com o uso quase absoluto de técnicas digitais que indiscutivelmente não só facilitou todo o processo de fazer uma animação como também tem seus próprios méritos de poder realizar animações de qualidade que seriam impossíveis de serem realizadas em tecnologias analógicas de animação. E é óbvio que o exemplo mais contundente disso é Violet Evergarden.

Por outro lado, a recepção do público foi um pouco divida sobre a animação das lutas. Não é de se surpreender, já que boxe em anime é quase que imediatamente traduzido em “Hajime no Ippo”. Traduzido em animação, esperam-se socos mega estridentes, dempsey rolls épicos, tão dramatizados que cada sequência de socos tomaria um minuto entre um soco e outro. Boxe em anime é traduzido quase sempre assim, então é de se esperar alguns fãs decepcionados. Só que Megalo Box, apesar de ser um anime de boxe:

  1. Ele não é um anime centrado em lutas e
  2. Ele sequer toma Hajime no Ippo como referência, mas sim presta uma homenagem aos 50 anos do lançamento de Ashita no Joe, que é bem diferente em estilo.
Megalo Box
Megalo Box (Imagem Divulgação)

As Presas de um Vira-Lata

O primeiro ponto que eu levantei antes com certeza pode soar esquisito. Como que um anime sobre boxe não é um anime sobre lutas de boxe? Mas se pensarmos um pouco, esse também é o caso de um clássico cinematográfico como Rocky Balboa, onde Megalo Box toma emprestado o seu legado de forma bastante nítida. Tanto em um como em outro, antes da luta em si há todo um caminho de aperfeiçoamento, de aprimoramento, em tornar-se alguém mais resistente, mais apto a tomar socos e mais socos e ainda assim se manter de pé.

Houveram críticas nesse ponto. Joe seria alguém dotado demais de “protagonismo”, e tudo se resume a apanhar, cair no ringue várias vezes e levantar para resolver tudo com um único soco. Por mais verdadeira que seja, essa afirmação é simplista pra aquilo que Joe nos foi apresentado. Assim como o ponto nunca foi “o quanto que se bate, mas o quanto se toma e se consegue permanecer de pé”, frase célebre de Rocky Balboa (2006), Joe é apresentado e reapresentado a cada abertura como um cão surrado, um vira-lata que pertence ao fundo do fundo de um mundo onde a luta se tornou um glamour, um viva à tecnologia que modificou o homem a um estágio maior de perfeição, que é justamente o que os Gears representam. É nesse mundo onde o vira-lata finca suas presas e não o solta jamais, não importa o quanto batem nele, pois este já se encontra fixo em sua presa: a revanche contra Yuri.

A produção de Megalo Box infelizmente não teve tempo de desenvolver melhor nem o seu mundo e nem o seu principal protagonista e nos mostrar seu trajeto até se tornar essa barra de aço capaz de suportar tanto. Ele é apresentado assim e pronto. Mas podemos aceitar isso, uma vez que a narrativa do anime fez uma escolha em priorizar o tempo presente da preparação para o campeonato. Foi melhor este sacrifício do que tentar abarcar tudo em 13 episódios, o que teria sido desastroso. E essa escolha teve uma vantagem bem interessante na narrativa do anime, pois nos 3 meses de exibição do anime, aproximadamente, acompanhamos os 3 meses em que Joe e seu time tentam se classificar para o Megalo Box, contra todas as chances. Houve uma sincronia interessante, como se todos tivéssemos acompanhado o anime em tempo real.

Megalo Box
Megalo Box (Imagem Divulgação)

A Chance de uma Vida

Ao fim e ao cabo, Megalo Box é a história de um encontro entre duas raridades: dois autênticos lutadores num mundo onde a luta se tornou algo estético a ponto de ser insípido. São dois lutadores marcados pelo tédio, não o tédio gerado pelo ócio, mas o tédio gerado pela insatisfação. Yuri é um campeão dentre os campeões, mas os oponentes que buscam superá-lo são medíocres; não porque eles sejam fracos, mas porque eles não possuem paixão em lutar, o básico! Joe também se encontra nesse estado de tédio. E um tédio aliado à uma vontade revoltosa de poder lutar livremente, reflexo de sua prisão às lutas ilegais arranjadas pelo seu técnico. No fruto do acaso onde os dois trocam olhares antagônicos, há ali a percepção mútua de que eles não estão na frente de qualquer um, o que se confirma quando Yuri aceita descer até o submundo e mesmo vencido, no fundo tem o seu orgulho ferido.

A partir daí, num nível pessoal, Megalo Box é o caminho para essa revanche que para Yuri é a chance de uma vida, poder enfrentar um autêntico lutador. O mais belo no desfecho dessa revanche, na derrota de Yuri, que se modificou para consolidar sua carreira de lutador e se desmodificou para poder lutar de igual para igual com um autêntico lutador, mesmo pagando um preço enorme, mesmo indo parar em uma cadeira de rodas por retirar um Gear acoplado a seu corpo, Yuri jamais parece angustiado por esse destino. Muito pelo contrário, seu semblante é de satisfação. Ao aproveitar uma chance única de vida, sua vida se tornou completa e bem vivida como o lutador que ele quis ser.

E ao ter de se provar para o mundo em tão pouco tempo, o Gearless Joe, esse lutador que veio do nada, que recusa a tecnologia que tomou o lugar central do lutador e ainda vence, Megalo Box traz uma mensagem ampla sobre a potência de vontade humana contra a aparente onipotência do progresso que a tecnologia julga trazer.

Conclusão

Toda essa mensagem do anime aqui interpretada foi magnificamente posta em forma de uma animação que impressionou a vários por resgatar um estilo que tantos sentiam falta, com uma trilha sonora que envolve bem o clima marcial que o anime reivindica. Uma menção mais do que honrosa para a abertura e encerramento, “Bite” de Leo-Imai e “Kakatte koi yo” de Eri Nakamura não só combinam e muito com Megalo Box como são duas músicas muito bem compostas em seus estilos. O primeiro é um rock puro e cru como não se faz mais hoje com um riff cativante e o segundo é realmente um convite à luta na forma de um pop com um refrão que é impossível não cantar junto.

Com essas coisas consideradas, não espanta o sucesso de exibição que Megalo Box foi no Crunchyroll, como o seu mapa de audiência nos Estados Unidos pôde mostrar. Infelizmente não temos como mapear uma audiência brasileira, mas esse anime foi sem dúvida um dos mais comentados da temporada, no mínimo.

Mesmo com um mundo dado e personagens em sua maioria descontextualizados, mesmo sem ter como desenvolver esses elementos, a dinâmica de Megalo Box foi bem ritmada de início a fim, pondo seus espectadores para torcer do início ao fim.

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REVIEW
Megalo Box
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Eriki
"Um historiador apaixonado por uma boa leitura e guitarrista por hobby. Alguém que ama um bom slice of life e tem um vício crônico por jogos single-player. Me aventuro a compor pequenos poemas haiku e aprender mais da cultura e da sociedade japonesa!"