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Pela primeira vez na história, a cidade de Natal, Rio Grande do Norte, recebeu um dos maiores eventos de ciência, tecnologia e cultura digital do mundo.

A Campus Party recebeu sua primeira edição natalense e teve 5 dias de duração, ao longo dos quais os visitantes puderam assistir a uma infinidade de palestras sobre ciência, tecnologia, empreendedorismo, games e desenvolvimento de games, entre muitas outras áreas do conhecimento, bem como curtir uma infinidade de atrações e atividades diversas.

O primeiro dia da Campus Party Natal – que teve como tema central a exploração espacial e seus avanços e benefícios para a humanidade – teve como abertura uma palestra de grande importância, comandada por ninguém menos do que Marcos Pontes, astronauta brasileiro de grande renome e que foi o primeiro de nosso país. Filho de pai servente de serviços gerais e de mãe escriturária, Marcos veio até Natal para compartilhar um pouco de sua história de vida, sua trajetória de carreira, sua experiência ao trabalhar na NASA, bem como nos mandar uma forte mensagem de incentivo para que nós sempre possamos lutar e realizar nossos sonhos.

O Suco de Mangá teve a oportunidade e a honra de entrevistar esse grande expoente da ciência brasileira. A entrevista foi rápida – tivemos pouquíssimos minutos antes da palestra começar – mas pudemos bater um papo bastante agradável, através do qual Marcos se revelou um indivíduo com muitas boas histórias para contar e com quem temos muito a aprender.

Entrevista por Giancarlo Silva

“Não desistam dos seus sonhos, por mais difícil que pareça a situação, não desistam dos seus sonhos”

Você acha que os videogames criados hoje em dia estariam cada vez mais próximos das ferramentas de simulação utilizadas por organizações como a NASA, com as quais você teve contato? Os games de hoje em dia estão mesmo próximos do nível de realismo de simuladores utilizados em trabalhos sérios?

Estão sim. Inclusive a gente trabalha com isso lá na NASA. Eu trabalho com sistemas, então pra mim está bem dentro isso. Uma das coisas que a gente tem usado bastante lá é a Realidade Virtual e a Realidade Aumentada nos procedimentos. Eles têm um procedimento escrito e você pode transformar isso em Realidade Aumentada. E aí você vê a peça, onde você vai mexer, onde você vai encaixar, como você vai tirar ou colocar uma peça… a gente tem utilizado bastante isso.

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Em termos de simulação operacional, como os simuladores são conectados a um sistema computacional que vai colocar todos os dados ali, as panes e tudo mais, a gente já tem um sistema muito bem desenvolvido. Mas quanto mais você desenvolve isso nos jogos, não tenha dúvida de que [mais] a gente puxa essa tecnologia pra dentro [da organização] também, especialmente nos visuais que a gente usa.

Isso! Porque com essa corrida pelos gráficos nos jogos as coisas vão ficando cada vez mais fotorrealistas, então dá pra traçar um paralelo com a realidade e isso acaba sendo útil pra NASA e para outras organizações, certo?

marcos pontes ISS 2006
Decolagem rumo a Estação Espacial Internacional em 29 de março de 2006 (Imagem Divulgação)

Sim! E outra coisa, cada vez mais a gente tem equipamentos menores com uma capacidade [computacional, de processamento] maior. O que significa que uma simulação de realidade que antigamente você tinha que estar conectado em um sistema monstruoso, hoje em dia você consegue colocar esse sistema, se bobear, dentro de um capacete! Então as coisas são muito mais possíveis hoje em dia, nesse ponto.

Quais aspectos da exploração espacial e da astronáutica como um todo que são retratados em obras de ficção científica você acha que podem ser comparados com a realidade? Que tipo de coisas que vemos na ficção científica e em obras similares a gente pode tratar como realidade ou como algo plausível e quais delas ainda são ficção e ainda estão longe de serem possíveis?

Olha, uma coisa que eu acho muito interessante é o seguinte: eu não sei como e porque acontece isso, mas eu não sei se a ciência acompanha a ficção ou se é a ficção que acompanha a ciência e faz umas previsões assim, de alguma forma… mas eu sou mais velho, então eu me lembro dos filmes lá da década de 1970 que eu costumava assistir bastante: Jornada nas Estrelas e coisas assim. E aí você via umas tecnologias que na época eram inimagináveis! Você via o cara abrir um comunicadorzinho que você falava [com outras pessoas] em qualquer lugar do planeta!

E hoje em dia a gente tá com um desses aqui na palma da mão, utilizando-o, né [aqui eu me refiro a uma dessas previsões que virou realidade: o smartphone]?

Sim! E com uma capacidade muito maior! Inclusive eu já tive um celular “que abria assim”, da Motorola [Referindo-se aos antigos celulares “flip”, também retratados nos comunicadores de Star Trek]! Então você vê como as coisas vão se desenvolvendo a partir daí!

Existem alguns filmes [e séries] que você vê hoje em dia… não sei se você viu uma série chamada Mars [Marcos se refere ao seriado Mars, produzida pela National Geographic]. Essa série é interessante porque ela é uma obra de ficção, mas que eles colocam entrevistas no meio, como se fosse um documentário com ficção sabe? E você nota que eles capricharam no aspecto de “vamos colocar aquilo que provavelmente pode acontecer”, sabe? E fizeram isso muito bem feito, então eu aconselho pra quem gosta de ciência e também de ficção.

Existem outras produções que são mais no extremo de ficção, mas que também podem ser plausíveis no futuro. Por exemplo aquela nova série Star Trek Discovery, você vai ver uma série de coisas, inclusive aquele sistema para transferir a espaçonave de lugar pra lugar! Então quem sabe um dia a gente consiga fazer algo assim no futuro, né? Cada vez que a ciência avança, conhecimentos de física, etc. Então eu costumo dizer que não duvidem da ciência, pois um dia a gente pode chegar lá.

Verdade! Vide um exemplo que eu costumo lembrar bastante, que é o Livro “Da Terra à Lua” de Julio Verne, de quando não se imaginava que seria possível lançar foguetes pro espaço, explorar a Lua…

Sim! Eu li todos os livros do Julio Verne! Aquele livro “20 Mil Léguas Submarinas” também! Naquela época imaginar um submarino como aquele parecia algo impossível. Hoje em dia você tem submarinos, hoje em dia é corriqueiro!

marcos pontes
Retorno à Terra em 09 de abril de 2006 (Imagem Divulgação)

Antigamente os avanços na exploração espacial eram promovidos apenas por órgãos governamentais como a NASA, mas hoje o cenário é bem diferente. O que você acha da atual corrida espacial também promovida fortemente por empresas privadas, como a SpaceX de Elon Musk e a Blue Origin de Jeff Bezos? Qual é a sua visão a respeito?

Eu acho importante e até necessário para o desenvolvimento da exploração como um todo. A participação do setor privado logicamente sempre vai visar lucro. E isso é importante, sabe? Às vezes as pessoas falam “ah, empresa privada só pensa no lucro”. Sim, mas as empresas proveem empregos, pagam impostos pra melhorar a qualidade de vida… e elas também têm uma visão bastante otimizada de como tocar seus projetos, o que é importante!

Então eu acho extremamente importante essa junção do setor público com o setor privado e é assim que a gente vai conseguir aumentar o desenvolvimento não só da exploração espacial, mas de qualquer área da ciência e tecnologia. E a gente precisa promover mais isso aqui no Brasil também, essa união entre o setor público e o setor privado, ambos desenvolvendo tecnologia.

Para encerrar, você gostaria de mandar alguma mensagem bacana para os leitores do Suco de Mangá?

Claro! Gostaria de aproveitar e agradecer pela oportunidade de falar da importância da divulgação científica, que é uma das coisas que eu bato muito na tecla aqui no Brasil. Quem me conhece fala que eu sou meio obcecado por educação… e por ciência e tecnologia, logicamente, já que eu trabalho com isso. Mas a educação tá na base de tudo. Então a divulgação da ciência é importante para motivar essa garotada pra estudar, pra eles verem que é possível ter uma carreira muito legal em ciência e tecnologia, pra que eles tenham sucesso, tenham qualidade de vida e promovam qualidade de vida para todos através disso.

Então obrigado pela oportunidade [de fazer divulgação científica], obrigado pelo trabalho de vocês [do Suco de Mangá] e para os leitores eu digo: não desistam dos seus sonhos, por mais difícil que pareça a situação, não desistam dos seus sonhos. Pra quem tiver alguma dúvida sobre o que eu tô falando, acessem [AQUI], deem uma lidinha na história e vocês entenderão o que eu tô falando.

Nós é quem agradecemos, Marcos!

Marcos Pontes
Marcos Pontes (Imagem Divulgação)

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