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Hideaki Anno criou não só um clássico, como também criou um marco. Um marco de gerações e de gêneros, onde a indústria de animes jamais ficou a mesma. Após o atual presidente da Gainax ter sido preso por molestar uma adolescente, várias reportagens tem trazido o nome de Evangelion à mesa para chamar a atenção em seus tabloides.

Descontente, e com muita razão, Hideaki Anno deu um longo testemunho para a Diamond numa série de relatos sobre o dano que essa cobertura midiática causou em seus projetos recentes e sobre os bastidores de sua relação conflituosa com a Gainax.

Uma tradução desta entrevista também foi compilada pelo Nintakun da tradução de Yohei. Apesar disso, decidi levar essa tradução até o fim pela própria importância que esse relato tem para quem vive e reflete sobre a indústria de animes. Mas não posso dizer que não sou devedor desta tradução, principalmente para entender termos jurídicos que já são mal entendíveis em português, quem dirá em japonês.

TRADUÇÃO DA DIAMOND.JP:

O presidente do estúdio Gainax foi preso em dezembro sob acusações de assédio. Nas reportagens envolvendo o caso, o nome de “Evangelion” vem sendo constantemente citado e Hideaki Anno vem se sentindo bastante indignado com isso. Portanto, estará sendo serializada aqui uma contribuição especial com o diretor Anno. A primeira parte irá tratar dos detalhes sobre seu relacionamento com a Gainax e a história de sua separação.

Sobre o incidente da Gainax, a pessoa presa em questão não teve relação nenhuma com Evangelion

Nem mesmo era um conhecido ou alguém com quem eu já havia trabalhado diretamente antes. Foi o caso de uma pessoa que não tinha conhecimento algum dos bastidores se tornando presidente da Gaixan, quando eu já tinha terminado meu trabalho por lá. E então vieram as notícias de que ele se tornou suspeito de um caso criminal.

Com respeito a esse caso, eu queria antes de mais nada expressar de coração minhas simpatias à vítima desse abuso. Além disso, é um desconforto enorme ver um lugar como a Gainax sendo palco de um crime; o mesmo estúdio onde me envolvi por tanto tempo, chegando a trabalhar como diretor.

A Gainax já vinha de muito tempo, desde 1984, quando começou a fazer o filme Honneamise no Tsubasa, de 1987. Já naquele tempo eu já defendia um princípio de trabalhar as obras almejando sua grandiosidade, de modo que eu entendia que as atividades criativas e administrativas eram incompatíveis. Então, como um empregado, eu procurava me concentrar no meu próprio trabalho sem me envolver com assuntos de administração. De certo modo, a Gainax daquela época, que priorizava a qualidade da obra, era um estúdio ideal para nós. Mas parando pra pensar agora, acho que esse foco tinha um custo pesado nos ombros da administração para além de suas capacidades. Havia desde o começo um foco que enfatizava o trabalho criativo in loco.

Basicamente, enquanto trabalhávamos com uma margem de lucro sempre andando na corda bamba, “Neon Genesis Evangelion” virou um hit em 1995. Com mais dinheiro do que nunca, a Gainax fez lucros sem precedentes. Dali em diante, o estúdio se desequilibrou e partiu em uma direção estranha, a ponto de depois de vinte anos ganhar a imagem de “uma companhia cujo presidente é suspeito de um crime”, coisa que eu sequer conseguiria imaginar.

Desde que houve esse caso, apareceram várias reportagens citando “Evangelion”. É uma mentalidade de nossa mídia em querer chamar a atenção fazendo menção a trabalhos famosos, mas a pessoa presa em questão entrou há poucos anos na Gainax e jamais esteve envolvida com Evangelion. E vou além: não há sequer mais nem uma pessoa hoje na Gainax que esteve envolvida na produção de Evangelion.

Nesta reportagem, desejo protestar fortemente em favor do criador

Atualmente, Evangelion está sendo produzido pelo Estúdio Khara, onde sou o presidente. Uma manchete que põe em seu título “Presidente da companhia produtora de Evangelion é preso” pode até dar a entender que quem foi preso fui eu, como também pode causar o mal-entendido de que esse caso tem alguma coisa a ver com Evangelion.

Ainda que se diga que “é verdade que a Gainax produziu Evangelion, logo não há nenhuma mentira dita”, tal maneira de anunciar reportagens ainda conduz a desentendimentos. E é em nome dos criadores que protestamos profundamente contra isso. Na verdade, esses tipo de reportagens já causaram seus danos, tendo já projetos relacionados a Evangelion que foram cancelados por causa dessas manchetes.

Ainda que tenham pessoas que digam o contrário, eu estive o mais calado possível sobre o assunto até agora. Mas por causa dessas informações vagas, era noticiado que trabalhos criados há mais de 20 anos ainda eram associados com a Gainax de hoje, o que acabou criando essa citação. Eu tenho a responsabilidade de proteger meu trabalho e meu pessoal como representante da Khara e como autor e diretor de Evangelion. E desejamos que ninguém mais use de agora em diante essa relação ou envolva outros nomes de pessoas, organizações ou administrações.

Essa introdução ficou longa, mas com esse contexto, eu gostaria de entrar em detalhes sobre o porquê de eu ter saído da Gainax e da minha relação com a Khara de sua fundação para cá.

Gainax: quando pensei de “um lugar de trabalho” para “um lugar que desejo considerar apenas como um velho lar”

De início, eu não ia fazer Neon Genesis Evangelion com a Gainax. A King Records era a opção mais provável, já que ela iniciou o comitê de produção e virou a principal patrocinadora do projeto, mas eu queria levar em consideração o lugar onde comecei minha carreira.

Quando eu conversei com o presidente da época, o Sr. Takeshi Sawamura, ele respondeu que queria produzir Evangelion e assim a Gainax acabou virando o lugar onde a obra foi trabalhada. Porém, naquela época o estúdio não tinha a menor capacidade de fazer uma série de televisão. Assim, resolvemos pedir por colaborações com outros estúdios de anime.

E com isso, felizmente, Evangelion virou um sucesso. A Gainax começou a ganhar muito dinheiro com esse hit. Mas mesmo dizendo “Ah, ganhamos dinheiro”, meu retorno pela Gainax veio apenas na forma de royalties de roteiro e de supervisão, já que o pessoal da administração decidiu não investir na produção da animação. Foi pela boa vontade da King Records que providenciou de bom grado uma garantia mínima para o pessoal da produção que trabalhava duro com pouco retorno.

Por outro lado, a Gainax conseguiu bastante lucro com cd’s e jogos de pc relacionados a Evangelion. Só fui saber disso por rumores, pois como já mencionei, eu não me envolvia muito com a administração e não entendia muito bem do que acontecia por lá. Por causa de Evangelion, uma quantia sem precedentes de dinheiro começou a entrar na empresa.

É comum se deparar com desperdícios repentino de dinheiro, mas também houveram grandes evasões fiscais

Creio que foi a partir daí que a Gainax começou a se envolver com gastos deliberados e sem planejamento, a ponto disso virar norma na empresa. Em 1997, por cortesia do Comitê de Produção de Evangelion, a bancada de comercialização foi parar na Gainax. A distribuição do retorno me permitiu ganhar um pouco com Evangelion pela Gainax.

Só que mesmo gastando rios de dinheiro com os empregados, haviam muitos projetos e negociações que ficavam à deriva sem sucesso, resultando apenas em perdas. Tanto administradores quanto pessoas responsáveis por esses projetos não se importavam, nem refletiam sobre esses fracassos. Enquanto havia dinheiro, ninguém se importava. E mesmo nessa situação, quase não havia retorno financeiro para as pessoas que mais se esforçavam na hora de criar os trabalhos.

Lógico, não há problema algum que outros departamentos ganhem a sua parte e façam dinheiro com o nome de “Evangelion” e usem esse dinheiro como bem entenderem. Mas eu lembro que daquele momento em diante, passou-se a gastar mais do que se recebia e a empresa passou a adotar uma administração focada em lucrar com Evangelion pra além daquilo que permitiu a obra ser objetivamente lucrável em primeiro lugar.

Os lucros com jogos e produtos relacionados a Evangelion cresceram bastante depois de sua transmissão; e em 1999, houve o caso de sonegação envolvendo o então presidente Sawamura. Como eu era não apenas um empregado, como também o diretor responsável pela transmissão de Evangelion, fui chamado pela TV Tokyo e me desculpei em público pelo ocorrido. Mas como eu não tinha envolvimento com a parte administrativa, só fui entender bem depois o que tinha acontecido.

Depois que o presidente Sawamura renunciou ao cargo, outro diretor tomou o lugar da presidência, o Yamaga (Hiroyuki). E ele me disse diretamente, “De todo modo, se o nome de Anno não entrar no corpo de diretores, eu não vou achar outro nome tão confiável quanto em lugar nenhum. Então só me dê o seu nome como diretor que só isso basta”. Além disso comentou, “Eu mesmo não ligo muito pra administração, mas só de ter meu nome no comitê basta.”; e foi assim que eu decidi entrar na diretoria.

Mas os superpoderes de Evangelion não teriam como durar pra sempre. Mesmo assim a administração desleixada continuou. Eventualmente, o gerenciamento foi reclinando a ponto de ficarmos meses seguidos em queda e com poucos recursos.

Acho que foi por volta de 2003 ou 2004. Só aí que resolvi fazer algo como diretor, mas a minha surpresa foi inimaginável quando eu parei para olhar a situação interna com os documentos e demais dados. Haviam salários super tendenciosos, por exemplo, bem como salários que continuavam a serem pagos para pessoal que mal trabalhavam.

Fico pasmo de ver que alguns empregados não-atuantes recebiam muito mais do que a equipe que trabalhou em Evangelion. Várias e várias vezes eu consultei a administração pedindo por melhorias na minha folha de pagamento e no meu departamento, mas eles quase nunca me ouviam.

Motivos para não escolher a Gainax como produtora do novo filme de Evangelion

A gestão da Gainax, que passou por várias crises, se recuperou em 2004 com o crescimento de dois grandes clientes e a adaptação de Evangelion para pachinko. Quando a situação melhorou, voltaram os hábitos de desperdício financeiro. A administração iniciou negociações que tinham pouca ou quase nenhuma chance de darem certo e empurraram as negociações que foram forçadas a continuar sem pausa.

Minhas opiniões não eram levadas em conta nas reuniões, e assim que senti que já não fazia mais sentido continuar na direção, eu decidi interromper o projeto em que eu estava trabalhando e fazer Evangelion outra vez. Mesmo levando o trabalho original em conta, aquilo não é nada além uma imitação de Evangelion. Pensei que seria melhor tanto para mim quanto para a estagnada indústria de anime refazer Evangelion num formato de filme. Resolvi não escolher trabalhar com a Gainax para essa nova produção.

Houve várias razões. Era difícil dar um novo ar para uma mesma obra em que você já trabalhou antes no mesmo estúdio, a Gainax já estava com outra série para tv em planejamento, e além disso, se eu ficasse no estúdio, havia uma chance de que a nova geração de pessoal fosse manter distância. Mas o maior motivo era esse: nós queríamos controlar os custos de produção e garantir pagamentos justos para o nosso pessoal e dar o que era merecido para aqueles que ajudaram quando Evangelion virou um sucesso. Foi por isso que lançamos a Khara como uma nova empresa que podia refletir diretamente nossas próprias ideias e tomar responsabilidade por elas.

Dito isso tudo, no começo a Khara era apenas um pequeno escritório onde era apenas eu e meu assistente.

Eu ia trabalhar no Rebuild of Evangelion com outro estúdio, mas com a ajuda de outros, conseguimos montar um estúdio de e fazer uma produção em vídeo com o que tínhamos. Isso foi em 2006.

Antes de estabelecida a Khara: renúncia da direção e saída da Gainax

Antes de sair da Gainax e fundar a Khara, eu renunciei ao cargo de diretor. O então presidente Yamaga disse que queria manter o contato, então eu deixei meu nome como um empregado comum. Mas em 2007 já não havia mais sentido nisso, então me aposentei desse cargo também.

Fazer Evangelion fora da Gainax foi útil para que a obra fosse imediatamente reconhecida como algo “que pertence ao Anno”. Consegui me esclarecer como o autor original da obra e conseguimos decidir em reuniões que passaríamos a receber royalties relacionados a Evangelion.

O gerenciamento de royalties e comercialização continuaram com a Gainax. A Khara tinha pouco pessoal na época e a Gainax daquele tempo tinha um ótimo responsável por questões de copyright e uma boa alocação de royalties e comissões, então no final acabava bem para ambas as partes.

Depois disso, a Khara produziu o “Rebuild of Evangelion 2.0” com o seu próprio investimento. Quando o segundo filme foi produzido em 2008, a relação entre as duas empresas começou a mudar. Por causa de alguma mudança de política interna da Gainax, a parcela do que recebíamos com Evangelion começou a diminuir. De qualquer modo, continuávamos a receber dinheiro pela Gainax.

Só que em 2012, os pagamentos de royalties para a Khara começaram a atrasar e propuseram por parcelar esses repasses. A administração da Gainax havia se deteriorado de novo. O então presidente Yamada veio diretamente fazer essa proposta com um diretor, Yasuhiro Takeda. Resolvi aceitar.

E isso porque estamos falando apenas dos royalties referentes a Evangelion. Eu dirigi mais dois trabalhos, “Gunbusters” e “Nadia: The Secret of Blue Water”, cujos royalties ficaram inteiramente com a Gainax. Mesmo os de “Love & Pop”, que produzi com outro estúdio (Toei), pertencem até hoje a Gainax.

E em 2014, acabaram por me pedir um empréstimo.

Me disseram que “só nos restava falir” e tive de conseguir 100 milhões de ienes às pressas

Mesmo sem receber as largas quantias que me deviam, o sr. Takeda chegou de repente e me pediu um empréstimo de 100 milhões de ienes em até três dias. Ele me disse que sem esse dinheiro “eles não teriam escolha senão declarar falência”, então fui arranjar 100 milhões o mais rápido possível.

Como senti o perigo de continuar deixando os direitos de Evangelion nas mãos de uma empresa com esse nível de gestão, eu impus a condição de que esses direitos de administração teriam de ser transferidos para nós em até um ano. A ideia original era transferir gradualmente esses direitos para a Khara, mas o projeto foi adiado a pedido da própria Gainax. Mas fora essa condição, o empréstimo seria livre de juros e garantias se ele fosse pago conforme planejado.

Por ter feito um empréstimo entre empresas nessas condições, até eu mesmo fiquei espantado pensando “O que você, sendo o dono, vai fazer?”. Mas éramos todos amigos desde os tempos de escola e eu fiz esse empréstimo como um desejo de alguém que faz parte da indústria de anime em ajudar outra empresa que estava passando por momentos difíceis. Também foi um jeito de dar um retorno para a mesma empresa que me acolheu por tanto tempo.

Sugeri ao então presidente Yamaga e ao diretor Takeda que quando a situação administrativa estivesse mais tranquila eu compraria os direitos de Gunbursters, Gunbursters 2 e FLCL em 2014 já que boa parte do staff dessas animações estavam na Khara. Era difícil fazer um novo trabalho pela Gainax nessas circunstâncias e eu também pensava no futuro dessas obras.

De início, o presidente Yamaga estava feliz e de acordo em continuar com essa negociação. Os termos de compra estavam cada vez mais sólidos, até que de repente foi oferecido um preço seis vezes mais caro do que o original.

Não houve explicação para esse aumento repentino e a história foi deixada de lado, o que foi bem constrangedor. Em 2015, todos os três títulos foram vendidos sem o nosso conhecimento. Ouvi dizer que em maio daquele ano a Gainax sofreu uma intervenção bancária que a fez reduzir em peso seu número de funcionários. E como eles estavam precisando de dinheiro mais do que tudo, com certeza eles acabaram vendendo esses títulos para a empresa que podia pagar mais. Acho que o dinheiro se tornou a prioridade mais do que o desenvolvimento do trabalho e os sentimentos da equipe de produção.

Em 2014, até os direitos de obras que eu não tinha me envolvido haviam sido vendidas para outras empresas.

Senti a necessidade de entender a condição empresarial, já que os direitos desses trabalhos estavam começando a se deteriorar, então eu pedi várias vezes para que a Gainax explicasse a sua situação e que apresentasse um plano de pagamento. Dependendo da resposta, eu poderia considerar por mais adiamentos e ajuda administrativa.

Porém, a outra parte respondeu apenas que “não haviam problemas nos negócios e que seríamos pagos conforme a data estipulada”.

Os pagamentos e a quitação da Gainax cessaram de repente

Com tudo isso acontecendo e sem a gente saber, foi fundada a Fukushima Gainax (atual Gaina). No começo era uma subsidiária completamente pertencente à Gainax, quando para a nossa surpresa, todas as ações foram transferidas para o presidente Asano (Yoshinobu) e a ligação de capital entre as duas foi dissolvida.

Era uma empresa à parte que tinha “Gainax” no nome, mas que não tinha absolutamente nada haver com a Gainax que fez Evangelion. E mesmo assim essa Fukushima Gainax sempre se comportava com as pessoas em sua volta como se ela tivesse algo haver com o anime.

Depois que a Gainax se meteu em problemas, a então Fukushima Gainax comentou algo como “Nós não temos laços financeiros com a Gainax; operamos de modo completamente independente”. Acho que seria melhor se eles tivessem removido o nome “Gainax” assim que eles se ficaram independentes da subsidiária.

De fato, assim que ela mudou seu nome para “Gaina”, ela acabou ficando sem qualquer ligação ao trocar o nome da empresa para um nome mais sutil.

E em abril de 2016, tanto os pagamentos quanto a quitação do empréstimo cessaram subitamente. Eu não conseguia resposta nenhuma da outra parte, nem conseguia entrar em contato com o presidente Yamaga seja por email ou mesmo ligando para ele. E no meio disso tudo, começaram a surgir várias empresas por todo o Japão com o nome “Gainax”.

Logo após a fundação da Fukushima Gainax, a Yonago Gainax foi fundada em maio de 2014, na prefeitura de Tottori. Depois teve a GAINAX WEST, fundada em abril de 2016, em Hyogo e a Gainax Niigata, fundada em julho do mesmo ano em Niigata. Tudo isso sem que dessem quaisquer notícias.

Aliás, e isso eu só soube pela imprensa e por parte do pessoal envolvido, um dos diretores da GAINAX WEST causou problemas numa instalação de anime que ele mesmo criou em 2017 e que causou seu fechamento, atrapalhando tanto seus parceiros comerciais como o governo. Foi um funcionário da Gainax que estava trabalhando sob o nome da empresa e atraindo pessoas assim que causou esses problemas. Mas logo assim que se descobriram esses problemas, ele alegou não ter envolvimento nenhum com a Gainax.

Estávamos preocupados em preservar os trabalhos que havíamos dado o sangue para fazer

Eu soube que enquanto a administração da Gainax continuava a fundar empresas com o nome “Gainax”, ela estava vendendo a Gainax para empresas estrangeiras. Enquanto era verificava a veracidade dessa compra, uma dessas empresas estrangeiras acabou perguntando se eu faria um filme caso a Gainax fosse comprada.

Foi aí que percebemos o perigo que era simplesmente ficar esperando a Gainax pagar o que nos deviam e deixar que os materiais restantes acabassem sendo vendidos para terceiros e terminássemos perdendo tanto as obras quanto os direitos sobre elas.

Ainda que fosse inevitável a perda do dinheiro que emprestamos, eu estava mais preocupado em preservar o trabalho que demos o sangue para fazer desde os tempos de produção independente.

Com o objetivo principal de evitar a perda desses materiais preciosos em mente, fomos obrigados a requirir um processo de sequestro de bens no dia 1 de agosto de 2016, já que não conseguíamos nem entrar em contato com o presidente Yamaga ou conseguir qualquer explicação por parte da Gainax. Foi uma decisão inevitável.

Depois disso, mesmo com o sequestro de bens tendo sido executado, a Gainax não apresentou nenhum plano para pagar o empréstimo. Então no dia 9 de setembro nós entramos com um processo para reembolso do empréstimo, para evitar que mais materiais de produção e direitos em posse da Gainax fossem dissipados.

Eu não escolhi esse processo como um meio de cobrança de dívida. Tomamos cuidado em deixar a questão em segredo em consideração pela Gainax. Se a administração de lá tivesse entrado em contato e respondido às nossas conversas, a discussão teria ficado por entre nós mesmo. Mas ela acabou virando notícia pelo país inteiro por querer mostrar atitude diante do tribunal. A decisão judicial saiu no dia 23 de junho de 2017 e a Khara ganhou o processo.

Enquanto estávamos ocupados com o processo, quantidades imensas de materiais de vários projetos passados acabaram sendo vendidas para a Fukushima Gainax (atual Gaina). Isso também foi feito sem o conhecimento das partes envolvidas na produção, tanto as empresas quanto o pessoal.

E esses materiais foram adquiridos pela Khara com o tempo, dinheiro e esforço investido por diversas pessoas e empresas envolvidas com esses trabalhos. Hoje em dia esses materiais estão guardados sob a administração da ATAC (Anime Tokusatsu Archive Center).

Foi nesse momento que veio o atual presidente que se tornou suspeito nesse caso criminal
Em 30 de agosto de 2016, todo a equipe de animação da Gainax foi demitida e transferida para a recém fundada Fukushima Gainax (agora Studio Gaina). Todo o sentido que havia até então de apoiar a Gainax se perdeu nessa situação. Em novembro daquele ano a Gainax Kyoto foi fundada na mesma cidade.

Já fazem mais de três anos e meio desde que a Gainax adiou seus pagamentos para a Khara. Não há nenhuma comunicação, explicação ou mesmo um pedido de desculpas do presidente ou da administração daquela época.

Então, em outubro de 2019, um completo estranho que detinha a maior parte das ações da Gainax virou o novo presidente. E em dezembro ele foi acusado de um crime. Só mesmo uma administração como a daquele tempo poderia trazer uma pessoa assim para ser seu presidente e seu maior acionista.

Numa situação dessas, não só a atual como a antiga administração falta com suas responsabilidades tanto para comigo, como para com os seus funcionários, os seus trabalhos e com a sociedade. Isso é lamentável não só do ponto de vista de um gerente de uma empresa credora, como também é lamentável do ponto de vista de um amigo desde os tempos de escola.

E infelizmente, eu acredito que ninguém mais conseguirá voltar a ter a mesma relação de antes.

(Diretor / Produtor: Hideaki Anno)

CONCLUSÕES

Para fechar essa tradução com um comentário final: o mundo é feito dessas injustiças. Enquanto pudemos ver aqui a história de uma empresa que soube apenas surfar nas ondas de seus eventuais sucessos e nada mais, é possível lembrar que um estúdio como a Kyoto Animation foi brutalmente atacada mesmo sendo ostensivamente bem melhor comentada e considerada pelos seus trabalhos.

O que não quer dizer que eu queria uma barbaridade dessas acontecendo com a Gainax (ou seja lá o que ela tenha se tornado). Afinal, é surpreendente ver como Anno levou as suas considerações pela empresa que o alçou à fama até o último momento possível. Seu sentimento não é de indignação com a Gainax em si, mas de um profundo lamento. Um lamento que, justamente, não o impediu de lutar pelo direito ao trabalho que ele e seus colegas produziram com tanto ardor e que entrou para a história da animação japonesa.

Só podemos desejar que Hideaki Anno encontre logo um final justo para sua odisseia com a Gainax e que possamos apreciar ainda mais o seu trabalho na Khara, apoiando o lançamento neste ano de seu último filme do Rebuild of Evangelion.