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É um tanto complicado um filme trabalhar vários gêneros, isso pode se tornar uma bagunça cinematográfica digna do esquecimento, ou até um desastre colossal. Porém isso só é um fato quando não existe uma mão firme por trás da produção. Esse pequeno detalhe faz uma diferença gigante no conjunto da obra, como por exemplo Bela Vingança (Promising Young Woman), filme vendido como terror, e que entrega um romance, reflete como um cult e cativa como um blockbuster. O produto final é o ápice de um filme aparentemente leve em seu visual, mas pesado em sua mensagem.

Exposed! 

Uma protagonista que dividirá o público por sua índole, Cassie (Carey Mulligan) é uma adulta em crise, tanto profissional quanto emocional, aqui não se vê uma mulher encalhada ou coisa do tipo, e sim uma mulher traumatizada, trauma esse que a faz caminhar por um lado talvez controverso para alguns e sensato para outros. Cassie caça homens pelos clubes noturnos, expondo-os. Como?

O que não falta no mundo é homem se aproveitando de mulher bêbada, e fazendo esse papel é que ela expõe o verdadeiro desejo que muitos homens têm em seus corações; basta uma mulher caindo de bêbada para qualquer homem tirar proveito da situação. Contudo isso é obra de um passado sombrio em sua vida ao qual a transformou-a em uma sociopata, atingindo até aqueles que a querem bem, sendo mal falada pelos bares a fora, sendo antissocial e rejeitada por uma boa parte da sociedade.

Cassie se mostra uma mulher bem largada quanto ao seu futuro, sem amigos, sem namoro, emprego ruim que não a sustenta e ainda morando na casa dos pais, fica a discussão, e está certa em expor os machistas oportunistas de cada clube noturno, mas, vale a pena pelo o que ela se tornou na boca do povo? Um tanto questionável, porém brilhante em tela, pois mais que alguns entendam e as mulheres sentem sua dor, digamos que seus atos justificam os meios.

Multi-gêneros

A mistura de gêneros é algo que não explode na trama para que se possa apontar e dizer “esse filme é do gênero tal”, mesmo sendo colocado como drama, o terror é presente e não está só centrado no assédio. O filme nos apresenta o crescimento de uma sociopata que transforma sua causa nobre em vingança, te colocando uma pulga atrás da orelha se esse tipo de justiça é válida. Nesse meio tempo há o romance que mostra que a personagem não é de toda fria – traumas nos cegam para a vida inteira, mexe conosco – e isso pode ser superado por si só ou por tratamento psicológico – demonstrado muito bem durante a trama.

Por se tratar de um filme de personagem, tudo gira em torno da protagonista, por isso a mudança de gêneros só acontece quando a personagem muda emocionalmente, quando psicologicamente desmorona, ela já mexe com nossos pensamentos no momento em que ela precisa escolher, em trazer de volta todo o trauma vivido ou viver a nova vida. Este, pequeno momento que se faz dourado na trama, pois cada escolha seria um filme extremamente diferente se destacar o desenvolvimento da trama.

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É incrível como seu desenvolvimento é rico em detalhes sobre o personagem em sua volta e modo como ele se molda do início ao fim é orquestrada na mais bela perfeição possível, Emerald Fennell mostra sua sabedoria como roteirista e sua maestria como diretora, misturando várias nuances sobre o tema assédio e implementar isso como principal foco do filme, sendo que o mesmo é sobreposto pelo desenvolvimento da trama focada na personagem, todos nas costas da atriz em questão.

Um grande diferencial para filmes que abordam o dito assunto, pois aqui não se têm um filme cult ou no estilo dedo da ferida que se espera, Bela Vingança não é sutil em sua mensagem, é bem explicita para desinformado entender a mensagem sem desculpa de que é confuso, porém nada forte ou extremo, aliás, algo que beira quase um blockbuster, não por divertimento e sim pela leviandade. A ausência cena explícita facilita para algumas pessoas que não têm estômago poderem assistir, pois, como dito antes, Carey Mulligan mostrou a que veio – apenas com os detalhes de sua expressão.

Bela Vingança é um soco no estômago com luva de pelúcia para que os mais sensíveis possam ser agraciados com tal obra prima, um drama que não pode passar desapercebido e quem assistiu que divulgue para todos, dos filmes de 2020, esse sem dúvida está entre os Top 3 do ano, com produção de Margot Robbie.

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