Quem acompanha as Crônicas Vampirescas já sabe: Anne Rice é uma escritora de jornadas, não de clímax. E A História do Ladrão de Corpos, quarto volume da série, segue fiel a essa premissa, às vezes frustrante, sempre fascinante.
A trama parte de um Lestat profundamente deprimido, ainda assombrado pela morte de Claudia, que chega ao ponto de tentar o suicídio se expondo ao sol do deserto de Gobi. É nesse estado de vulnerabilidade que ele aceita uma proposta absurda: trocar de corpo com um humano, o charlatão Raglan James, por alguns dias. A ideia é sentir novamente o que é ser mortal — comer, dormir, transpirar, ter medo.
“O que ele mais quer é ser humano de novo: poder se alimentar como qualquer um de nós, transar, sentir arrepios e medos.”
Naturalmente, a coisa dá errado. James some com o corpo poderoso de Lestat, e o vampiro, agora preso em um corpo humano enfermo, precisa caçá-lo antes que seja tarde demais.
O que o livro faz muito bem
A grande força do romance está nas reflexões filosóficas e existenciais que Anne Rice costura ao longo da narrativa. O que nos torna humanos? O que é fé? O que perdemos quando deixamos de ser mortais? Lestat experimenta essas perguntas na pele — literalmente — ao redescobrir o gosto de um suco de laranja, o calor do sol no rosto e o toque de um amante.
O livro também amplia o universo das Crônicas com mais espaço para David Talbot e a Ordem da Talamasca, uma das adições mais interessantes da série. Talbot é desenvolvido com cuidado e acaba sendo peça-chave da trama, com um destino que surpreende. A freira Gretchen também marca presença, assim como o cão Mojo, uma homenagem carinhosa ao animal de estimação da própria Anne Rice, veja só abaixo:

Há ainda uma conexão especial com o Brasil: passagens ambientadas no Rio de Janeiro, com referências ao candomblé e ao carnaval, trazem uma textura cultural diferente à narrativa, ainda que a representação seja um pouco estereotipada para os dias de hoje, mas achei muito bacana as citações.
Onde o livro tropeça
Raglan James é o maior desperdício do livro. No início, ele aparece como um personagem fascinante, um charlatão bom de lábia, com potencial para ser um vilão memorável. Mas vai perdendo força ao longo da narrativa, e no desfecho, a decepção é total. Para uma série que se apoia tanto na riqueza de seus personagens secundários, isso doeu um pouco.
O ritmo também pode afastar leitores menos pacientes. O início é lento, com descrições que se alongam mais do que a ação exige, mas nada tão frustrante quanto A Rainha dos Condenados. Comparado a volumes anteriores da série, a trama tem um escopo limitado, pequeno, com toques de thrillers e histórias de Ladrão e Detetive.
E há um ponto de atrito com o personagem: a decisão de Lestat de aceitar a troca de corpos parece ingênua demais para um vampiro com séculos de existência e toda a sua arrogância característica. Bom, a pior presepada do Lestat é sempre a próxima, e no fim, eu adoro isso! Se você também, boa leitura!





