Nem todo anime precisa de magia, batalhas ou protagonistas adolescentes salvando o mundo. The Drops of God — As Gotas de Deus, em tradução livre — chegará à Crunchyroll com uma proposta que já se destaca só pela originalidade: um drama adulto centrado no universo da sommellerie e da cultura do vinho.
O primeiro episódio deixa claro desde os minutos iniciais que essa não é uma série para qualquer público. E isso não é crítica — é posicionamento. A obra sabe exatamente o que é e para quem fala.
A premissa: herança, vinho e uma competição improvável
A história começa com a morte do renomado crítico de vinhos Yutaka Kanzaki. Seu testamento revela uma condição inusitada: para herdar a lendária coleção de vinhos do pai, seu filho Shizuku — que, num gesto de rebeldia, foi trabalhar como vendedor em uma empresa de cervejas — precisa identificar doze garrafas específicas descritas no documento em termos poéticos e subjetivos. E ainda precisa fazer isso em competição com um jovem crítico de destaque.
É uma premissa que funciona porque tem tensão dramática real. Não é fantasia: são pessoas com empregos, heranças complicadas e relações familiares mal resolvidas. Exatamente o que a sinopse promete.
Um protagonista com um dom fora do comum
Shizuku não é um sommelier. Mas tem algo que poucos têm: uma capacidade sensorial aguçada, especialmente no olfato, que lhe permite identificar aromas e composições com uma precisão quase instintiva. Esse “dom” é o motor narrativo do episódio e funciona bem como elemento de distinção do personagem.
Ao lado dele aparece Miyabi Shinohara, aprendiz (e fofa) de sommelière, que equilibra a dinâmica da série com uma presença mais técnica e didática. Os dois formam uma dupla que tem potencial para sustentar bem a trama ao longo dos episódios.
Estética dos anos 90 e ritmo contemplativo
A animação, produzida pelo estúdio Satelight, não é o ponto mais forte da série. Há muitas cenas estáticas e uma economia de movimento que pode frustrar quem busca fluidez visual. Mas o estilo compensa: os traços são elegantes, com uma estética que remete aos animes dos anos 1990 — limpa, detalhada nas expressões e com uma paleta que combina com o tom sofisticado da história.
A direção de Kenji Itoso e o roteiro de Yu Mitsuru mantêm um ritmo contemplativo, mais próximo de um drama do que de um shounen. Quem entrar esperando dinamismo vai precisar ajustar as expectativas. Quem entrar aberto ao formato vai encontrar uma narrativa bem construída.
A trilha sonora como diferencial imediato
Um dos primeiros acertos do episódio está na trilha sonora. A abertura ficará por conta de “hate you? love you?”, interpretada por HOKUTO, e o encerramento “The Drops of God”, com Maaya Uchida — que também empresta a voz à Miyabi —, criam uma atmosfera que combina com a proposta da série. São músicas que atraem antes mesmo de entender o contexto, e isso diz muito sobre a coerência estética do projeto. A trilha original de Eishi Segawa completa o pacote com uma sonoridade que reforça o tom adulto e refinado da produção.
Nicho claro, execução à altura
The Drops of God é baseado no mangá premiado de Tadashi Agi e Shu Okimoto, sucesso não só no Japão, mas também em países como a França — o que já diz muito sobre o alcance cultural da obra. A adaptação animada chega com o desafio de traduzir para a tela um universo altamente sensorial, onde o cheiro e o sabor precisam ser comunicados visualmente. O primeiro episódio mostra que a série entende esse desafio e aposta na narrativa e na construção de personagens para enfrentá-lo.
Não é um anime para todos. Mas para quem se identifica com o universo do vinho, aprecia dramas de personagens bem escritos ou simplesmente busca algo diferente na grade da temporada, The Drops of God já entrega o suficiente no episódio de estreia para garantir a continuidade.
The Drops of God estará disponível na Crunchyroll a partir de 10 de abril, com novos episódios toda sexta-feira.


