E acabou Chainsaw Man! O mangá com menos cara de Shonen Jump a figurar as páginas da consagrada revista de mangá de lutinha, jogando o nome de Tatsuki Fujimoto, já muito querido entre seus fãs dos tempos de Fire Punch, para o estrelato global. Rendeu anime, rendeu um senhor filme e, depois de um primeiro arco primoroso, fechado a chave de ouro, o segundo arco fechou Chainsaw Man de vez, talvez agora com chave de latão.
A intenção deste texto tem somente este alvo: o final. Chainsaw Man dispensa apresentações à esta altura. Dele temos cosplayers aos montes, memes aos montes (o futuro é o que?), resenhas aos montes, matérias aos montes e capítulos de mangá aos montes. Duzentos e trinta e dois capítulos depois, nos despedimos deste que virou um fenômeno da internet. Ou um cabo de guerra, se preferir. E ofereço essa alternativa, cabo de guerra, pois Chainsaw Man foi palatado por públicos distintos entre si, quando não inimigos entre si. De uma ponta extrema a outra, temos desde o shitposter zueiro ao próximo comentarista do Oscar na transmissão ao vivo da Rede Globo, arauto da crítica literária, cinematográfica e midiática.
Okay, as hipérboles podem ser um pouco abusivas, mas quem leu há de concordar que o público de Chainsaw Man é vastíssimo, bem como seu potencial interpretativo. Tivemos desde o mundo infestado por demônios ao nível do absurdo, demônios estes com um conceito interessante de poder atrelado ao nível de medo causado na coletividade humana, à situação mais terrena e pessoal de um garoto abandonado à própria sorte, Denji, com seus sonhos modestos: uma cama, uma refeição e um amor pra chamar de seu. Eu sei, é pedir muito.
Mas vamos lá, muita hora nessa cautela. O autor de memoráveis one-shots como Goodbye Eri e Look Back – este último rendendo uma das melhores experiências cinematográficas no ano passado – nos agraciou com outro one-shot que, se o autor destas linhas não estiver enganado em suas impressões, é bem menos mencionado do que merecia ser: Just Listen to the Song. Só ouça a música. Por favor. O one-shot mudou radicalmente minha postura com tudo que foi escrito e pensado por Tatsuki Fujimoto, agora e daqui pra frente. E por que com ele, exclusivamente? Porque a autoria é dele e dele é o pedido. Um pedido difícil de ser carregado, porque o ser humano é um animal em busca de sentido. É um animal que interpreta a si e a seu mundo desde os tempos imemoriais, séculos e séculos antes da filosofia. Quem, com mais de 14 anos de idade, vai negar que a religião é esse primeiro esforço de interpretação do Eu e do Todo?
Então vá lá, todo o esforço de escrita deste que escreve já contraria os pedidos do próprio Tatsuki Fujimoto. Afinal, só leia o mangá. Pra quê escrever? Pra quê tantas e tantas linhas, caracteres e tempo de vídeo para explicar as conexões intrínsecas entre Chainsaw Man e a mais nova crise do capitalismo tardio? Só leia o mangá. Apenas ouça a canção. Essa é a mensagem direta e que dispensa interpretações do one-shot lançado em meio ao furor interpretativo sobre Chainsaw Man.
Parece simplificação, mas parte do que enriquece a experiência de apreciar as obras de Tatsuki Fujimoto (“consumir” mas nem sob arma na cara) é se encontrar nessa encruzilhada interpretativa. Chainsaw Man foi uma história riquíssima. Seu primeiro arco encerrou-se de forma primorosa. Tome o partido que for sobre qual foi a mensagem central do mangá, não há como apagar Denji de seu epicentro. Mesmo quando as coisas ficaram ainda mais destrambelhadas no segundo arco, mesmo quando nosso Fujimas saiu matando personagem porque sim (hábito desgracento desde o começo!) ainda havia lá um Denji: garoto como todos nós já fomos um dia, querendo as mesmas coisas que um dia quisemos: uma boa comida pra saciar a fome e uma boa namoradinha para saciar a carência.

(Sim, vocês só querem uma namoradinha que eu sei.)
E foi assim que Chainsaw Man acabou. Ou foi largado, pra falar a aparente verdade. E se o foi, pontos para Fujimoto, que se auto-machadou numa obra que podia não estar mais no seu auge, mas que com certeza ainda rendia algo. Só que acabou a paciência. Ficou sem saco. O autor, que ironicamente está vivo (não me disseram que o autor está morto?!), deu um ponto final sem rima nem razão à sua história, assim como basta estar vivo para morrer.
Isso é um elogio ao arco final de Chainsaw Man? De maneira nenhuma. Se bobear nem o próprio Fujimoto sabia mais o que estava fazendo. Compartilho com os descontentes as mesmas chateações. Assim como compartilho as alegrias de quem se alegrou com a história, com os personagens (só a Asa fez valer o arco dois inteirinho) e principalmente os memes. Amei e detestei, detestei e amei. Afinal, diga-se o que possa dizer sobre qualquer obra do Fujimoto, a sombra de “Just Listen to the Song” está lá à espreita na consciência de quem o leu e sabe que, no fundo no fundo, pode estar apenas pagando de otário, perdendo tempo com grandes elucubrações que o próprio autor jamais pensou.
Não ignorem isto: talvez o verdadeiro final de Chainsaw Man foram os maravilhosos memes deixados pelo caminho, principalmente deste último capítulo. A Tatsuki Fujimoto fica aqui registrado o mais profundo agradecimento pelo alto entretenimento!


